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18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007

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EXORCIZANDO O PIXIES
Em disco duplo Frank Black se aproxima do folk, varrendo para debaixo do tapete o indie rock de sua antiga banda
por Luiz Rebinski Jr (jrrebinski@yahoo.com.br)

e um fã do cultuado Pixies deixasse de ouvir música em 1991, ano do fim da banda de Boston, e retomasse as audições hoje com o último disco solo de Frank Black, certamente levaria um susto. Afinal, os elementos musicais característicos ao Pixies quase que inexistem na última empreitada do guitarrista e cantor.

Fast man, raider man, álbum duplo do gordinho, traz uma fusão de sons baseados no folk rock americano que em nada lembra o hard rock (?) de sua originária banda. Pelo contrário, são os violões, slied rasgados, pianos jazzísticos e muitos naipes de metais que predominam no álbum. Tudo isso tocado de maneira sublime, linear e sem os rompantes de fúria que caracterizavam os vocais de Black no Pixies. Sim, nesse disco o guitarrista canta como um crooner em certos momentos, sem deixar que sua voz soe mais alta que os outros instrumentos. Porém, Fast man, raider man passa longe de ser um disco modorrento. Ainda que o som esteja mais elaborado, as guitarras de Black continuam a gritar em solos precisos. Frank funde, com mão certeira, melodias suaves a um jeito especial de interpretar.

É fato que o som apresentado em Fast man, raider man não surgiu repentinamente. Black já andava flertando com sonoridades country e folk há algum tempo. Seu penúltimo rebento, Honeycomb, anunciava que algo mais radical viria. E veio, não?! Sim. Em Fast man... Black exorciza os fantasmas do indie rock – ainda que este gênero insista em dar as caras na bolachinha – e cai de cabeça no brejo.

E nem é preciso ir muito longe para confirmar a guinada do cantor. “If your poison gets you”, faixa que abre o disco, dá o tom do trabalho. É uma ótima prévia do que os 80 minutos seguintes reservam ao ouvinte. Cheia de violões e com um refrão que pega de imediato, a música abre caminho para canções cheias de metais, caso de “Johnny barley corn”, e regadas a pianos, como em “Fast man”.

No balaio de gatos musical de Black cabe até bandolim e outros instrumentos pouco usados pela rapaziada do rock. Ainda que as fusões engendradas pelo guitarrista sejam louváveis, o grande barato de Fast man, raider man reside na força de Black como criador. É claro que o disco é muito bem tocado e dá a impressão de que foi bastante pensado antes de pronto. Mas o álbum mostra o talento de Black para compor belas e pungentes canções pop. Mesmo nas músicas mais suaves e menos pesadas, que dominam o primeiro disquinho, o artista consegue impor sua pegada, dando às canções um toque particular.

“I’m not dead”, por exemplo, é um country descarado que, ainda assim, ganha ares de rock nas mãos do guitarrista. Mesmo caso de “When the paint grows”, que se encaixaria perfeitamente em um longa dos irmãos Coen.

Antes só - Aos fãs de seu antigo grupo Frank Black dá uma colher de chá no segundo disco. Pero no mucho. “In the time of my ruim” começa com tudo, dando a impressão que o cantor confundiu de banda. Mesmo os pianos, sempre presentes, estão mais rápidos e altos no segundo álbum. As guitarras aparecem com mais destaque, mas ainda assim os vocais continuam contidos e superafinados.

“Highway to lowdown” é um petardo bem dado que deixa o ouvinte com vontade de apertar o repeat. Porém, engana-se quem pensa ser a segunda bolacha um porrada na orelha de sair faísca. Negativo. Pelo menos não na acepção mais comum que o termo representa. Quando o cantor acelera um pouco mais, vem a deliciosa “My terrible ways” com solos de sax e pianos dizer que Frank Black está em outra.

Uma única sessão de Fast man, raider man pode ser suficiente para revelar o porquê da relutância de Black em retomar a vida conjugal com os outros Pixies. Longe de comparações, Black no Pixies, mesmo sendo o cérebro da banda, precisa respeitar os limites do indie rock – às vezes bem estreitos, é verdade –, abdicando de sonoridades que hoje lhe parecem caras. Afinal seria meio inconcebível se um dos baluartes do indie aparecesse tocando folk, não? Certamente os inquisidores que chamaram Bob Dylan de Judas nos anos 60 dariam as caras novamente, só que dessa vez com franjinhas, é claro. A partir desse ponto de vista é muito mais interessante levar adiante um projeto solo consistente do que voltar a fazer músicas pensando na década de 1980.

Nem mesmo o argumento de que o mais correto seria produzir uma compilação do melhor dos dois Cds que compõem Fast man, raider man se enquadra para o disco em questão. Alias, esse é um clichê bastante disseminado nas resenhas musicais. Sempre que uma banda aparece com um lançamento duplo, lá vai alguém dizer que o melhor seria ter feito um álbum muito bom do que dois mais ou menos.  O talento de Black dá fôlego suficiente à obra, que chega ao final sem estafar o ouvinte.

Muito mais para Neil Young do que Pixies, Frank Black parece estar convicto do caminho que tomou. Fast man, raider man é o disco de sua afirmação como músico maduro e versátil. Mais do que isso, é o álbum em que deixa mais claro que suas opções sonoras passam longe de sua antiga banda. Goste-se ou não.