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18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007

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MARCHA AO CADAFALSO
Charles Baudelaire é considerado o introdutor da metafísica da droga no ensaio Paraísos Artificiais
por Marcelo Xavier (marcelo@rabisco.com.br)

a Paris de 1845, um grupo de intelectuais do círculo de Roger de Bovoir, decidiu fundar uma sociedade secreta, onde poderia dedicar-se à meditação, à evasão e ao onirismo movida a drogas como o ópio e o haxixe. Os ilustres freqüentadores de tal entidade eram Balzac, Delacroix e Alexandre Dumas, entre outros. O quartel-general ficaria no Hotel Pimodan, no centro da Cidade-Luz e levaria o singelo nome de Clube dos Haxixins.

Em pouco tempo, esta sociedade arregimentaria a nata da intelectualidade francesa de então e se tornaria símbolo de uma época. Um ano depois, o poeta Teóphile Gautier seria o primeiro em transformar aquelas famosas reuniões em folhetim, primeiro editadas na Revue des Deux Mondes, para serem finalmente publicadas em livro, sob o título de O Clube dos Fumadores de Haxixe. A droga, uma pasta esverdeada geralmente dissolvida em café preto, provocava um transe coletivo onde todos deliravam em divãs, entregues às visões de pélagos de sonho ao som lúgubre de alguma rabeca.

Com fina ironia, Gautier descreveu em sua obra as cenas pitorescas e até cômicas que presenciou ali. Mas se ele foi o responsável por pintar em crônica aquelas visões, o responsável por emoldurá-las foi Charles Baudelaire (1821-1867), em seu Paraísos Artificiais. O livro, originalmente concebido a partir de um poema em prosa (Do Vinho e do Haxixe), foi somado a mais dois ensaios: o Ópio e o Poema do Haxixe.

Com  Paraísos Artificiais, coube ao célebre autor de As Flores do Mal ser considerado um dos primeiros escritores do século XIX a tratar do assunto de maneira analítica. O título parte do princípio que as drogas que ele ingeriu lhe permitiam encontrar o Céu na Terra. Desde jovem, Baudelaire era intensivo  usuário de ópio, que usava para suportar a dor causada pela sífilis (que o mataria).

Dada a vida mundana e o tédio existencial, descobriu ele o paraíso de evadir-se para um não-lugar onírico, misterioso, místico e mágico, a despeito dos efeitos colaterais. Sem parecer um panegírico à drogas, ele pretende entender este quê que arrastava milhares de pessoas a esta beatitude secular. Ou, no dizer do historiador Voltaire Schilling, ele perfaz a “metafísica da droga” as motivações mais profundas que conduzem alguém ao caminho dos alucinógenos.

Sinestesias - Apesar de parecer um fenômeno recente, o uso de drogas recreativas por artistas e intelectuais é bastante antigo. Muito antes dos famigerados anos 60, por exemplo, compositores como  (o também francês) Hector Berlioz já haviam feito música sob influência de entorpecentes. No caso de Berlioz, é notória a sua gigantesca Sinfonia Fantástica, onde o autor, nos dois últimos movimentos da peça (a sugestão é salientada no libreto), se imagina indo à forca após haver matado sua amante (a Marcha ao Cadafalso) e, sob pleno efeito do haxixe, se imagina num cenário fantástico (Sonho de uma Noite de Sabat).

No Poema do Haxixe, Baudelaire descreve através de relatos e de seu próprio testemunho, as fases da embriaguez da droga, a sinestesia (confusão de sentidos)  do amálgama de cores e sons, o delírio de lustres que se transmutam em sóis poentes: “você tem mãos de manteiga e em todo o seu ser, um estupor embaraçante; seus olhos estão lançados num êxtase implacável, seu rosto se inunda de palidez”. Em seguida, descreve de maneira poética a sensação de ‘beatitude’: “o haxixe invoca magnificências de luz, esplendores gloriosos, cascatas de ouro líquido (...) em seguida, surgem os equívocos (...) os sons se revestem de cores e as cores contêm uma música”.

Em Um Comedor de Ópio, o poeta se debruça num longo e analítico estudo sobre o clássico de Thomas de Quincey, Confessions of na English Opium Eater, onde o crítico inglês relata suas experiências de “expansão da mente” através de alucinógenos — que ele ingeria para suportar freqüentes nevralgias, e a forma como o ópio conduzia De Quincey inevitavelmente tanto para o prazer quanto para a dor: “entre duas agonias, uma proveniente do uso continuado, e outra de sua interrupção, o autor preferiu aquela que implicava numa chance de libertação”.

O ‘apêndice’ de Paraísos Artificiais é uma suma filosófica da primeira parte da obra, acrescida de um ensaio sobre o vinho. Diz: “um homem que só bebe água tem um segredo a esconder de seus semelhantes”. Mas explica, aos que supostamente possam acusar Baudelaire de “inocentar a embriaguez: “o vinho é como o homem e concordo que seus crimes são iguais às suas virtudes. Posso fazer melhor?”.

Em suma, no limite do panegírico, o poeta de A uma Passante tenta esboçar os motivos que levam os homens à compulsão pela droga, em busca do paraíso, de um éden de boticário, daquilo que ele mesmo chama de “ideal artificial” (cabe ressaltar que, em seu tempo, não existia a repressão policial e tanto o ópio quanto o haxixe eram tão baratos e fáceis de se achar quanto desconhecidas eram as conseqüências do uso contínuo e da dependência de entorpecentes desse tipo, por exemplo).

Voltaire Schilling observa o fator sintomático dessa “religiosidade secular” com que Baudelaire enumera os adjetivos de origem beatífica ao descrever o torpor da droga como uma santificação do decaído com relação à progressiva perda de fé no próprio sagrado paraíso religioso:

- Aventa-se a hipótese de que o desencantamento com a religião revelada, iniciada pela crítica do Iluminismo no século 18, não se removeu do íntimo do psiquismo humano a necessidade da crença num mundo sensorialmente idílico, encontrado anteriormente em todas as expressões religiosas conhecidas. A gratificação psicológica que a religião provoca estaria sendo substituída pelos efeitos deletérios das drogas - explica.

Baudelaire também tinha consciência do limite de deixar-se escravizar pelo haxixe e perder a sua integridade intelectual por conta disso. E sabia que estava nadando numa piscina de tubarões:

- Aquele que recorre a um veneno para pensar em breve não poderá pensar sem veneno. Dá para imaginar o destino horrível de um homem cuja imaginação paralisada não funciona mais sem o haxixe ou o ópio?