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18 de janeiro a 02 de fevereiro de 2007

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“MAS QUE CÉU PODE SATISFAZER TEU SONHO DE CÉU?”
O Céu de Suely traz de volta o cinema urgente, vital e visceral de Karim Aïnouz
por Luiz Andreghetto (andreghetto@rabisco.com)

em dúvida alguma um dos grandes nomes da nova geração de diretores brasileiros pós-Embrafilme e pós-recesso cinematográfico do início dos anos 90 é Karim Aïnouz. Mesmo quando não está dirigindo nenhum filme, sua contribuição é visível em projetos que afirmam o cinema nacional em seu melhor momento de produção e criatividade. É um dos produtores e roteirista de Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes (filme escolhido para representar o Brasil na seleção para Melhor Filme Estrangeiro do Oscar desse ano) e assina também o roteiro de Cidade Baixa, de Sérgio Machado.

Mas é na direção que o melhor de Karim vem à tona. Com Madame Satã (2002), esse cearense de Fortaleza, provou a que veio: entregou um filme violento, áspero e cruel merecedor dos diversos prêmios que ganhou ao redor do mundo e, ainda de quebra, revelou Lázaro Ramos, ator essencial na nova cinematografia brasileira.

Em seu segundo longa, O Céu de Suely (2006), Karim transcende o limite de tudo que havia feito e entrega um dos filmes mais geniais da nova safra brasileira. Com imagens impactantes e poucas palavras, O Céu de Suely é um filme econômico, enxuto que transmite uma vitalidade e segurança que vários diretores não conseguem imprimir em toda uma carreira e Karim está apenas em seu segundo longa. O Céu de Suely se aproxima um pouco com os filmes feitos pelos irmãos Dardenne (Roseta, O Filho, A Criança), diretores belgas que colam sua câmera ao corpo dos protagonistas e fazem um cinema que o social torna-se um complemento ao desenvolvimento das ações de suas personagens.

A história de O Céu de Suely é curta e simples, como todo o filme: jovem que deixou sua cidade natal, Iguatu, volta com o filho (nunca sabemos o porquê real dessa volta, seria saudade?) e aguarda o retorno do marido que ficou em São Paulo e virá logo depois. O tempo passa e com o sumiço do marido de Hermila (nome da protagonista e da fantástica atriz que a interpreta: Hermila Guedes), ela resolve ir embora de Iguatu. Sem saber como arrumar dinheiro para bancar sua nova vida longe dali, ela resolve se rifar “em uma noite no paraíso” e para isso adota o codinome de Suely.

Mas quem espera um filme que fale da miséria, da dificuldade do povo nordestino e outros clichês tão pertinentes a essas histórias, se engana. O Céu de Suely não é uma tragédia e nem Hermila espera algum tipo de redenção com sua atitude, ela quer apenas sair de Iguatu, talvez da mesma maneira que tenha tido a vontade de sair de São Paulo e do mesmo jeito que talvez queira sair de algum outro lugar. A partida de Hermila não é porque ela sabe muito bem a aonde quer ir. Na verdade ela nem sabe onde quer ficar apenas não quer ficar em Iguatu. Seu drama é não saber qual caminho seguir, e na dúvida experimenta vários roteiros. Hermila é metáfora de uma geração desiludida, sem perspectivas que apenas vive cada dia, por mais difícil que isso seja.

A câmera de Ainouz gruda no corpo de cada protagonista dando uma sensação de intimidade e aspereza. As longas pausas acentuam o abandono de Hermila, que se vê sem pai, nem mãe e marido e ainda com um filho para criar, em um nordeste hiper-iluminado com um enorme céu azul (primorosa direção de fotografia de Walter Carvalho), que contribuem para acentuar a imensidão de desejo de liberdade que ela tanto procura.

Mas é na frágil e ao mesmo tempo intensa presença da atriz Hermila Guedes que O Céu de Suely chega ao seu ápice. Vista anteriormente em Cinema, Aspirinas e Urubus, Hermila é merecedora de todos os elogios que vêm recebendo, sua Hermila/Suely é real, tão convincente que parece muito próximo de cada um de nós. Seus gestos e sorrisos forçados estão imbuídos de incertezas que transitam entre o desespero e a aceitação. Hermila (personagem) não sabe o quer, não sabe qual o melhor caminho a seguir. “Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?” – diz um poema de Manuel Bandeira. Por outro lado, a Hermila (atriz) talvez já tenha alcançado esse céu ao se tornar uma grande estrela.