Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

04 a 19 de fevereiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

BABEL TRANSCENDE TESES
Alejandro Iñárritu mostra marca singular ao fazer um cinema que não traz respostas prontas
por Lon Andrade (lon_andrade@yahoo.com.br)

abel é o melhor filme de 2006 e por uma questão de distribuição chega aos cinemas brasileiros somente agora. É uma câmera, um diretor, algumas histórias, sem nenhuma vontade ou conseqüência que não seja a de levar o espectador ao mundo de dramas tão desiguais quanto próximos. Carregando o vigor de um cineasta que não julga em nenhum momento seus personagens, o longa do mexicano Alejandro González Iñárritu é denso, eficaz.

Raros são os cineastas que podem orgulhar-se de ter, desde seu início de carreira, imposto de maneira visível a amplitude de seu talento. Amores Brutos foi um olhar estilizado e aguçado para as diferentes classes sociais da Cidade do México, foi também o primeiro longa-metragem de Alejandro González, que na seqüência filmaria 21 gramas, um filme no qual, assim como em Amores Brutos, focalizaria a vida, o amor, a morte.  Nesse ponto, Babel sinaliza o amadurecimento do diretor – o aprofundamento de seus temas recorrentes – e o componente atual da obsessão de um cinema voltado para o que está acontecendo com a alma da própria humanidade.

O espectador é tratado como um simples – e apenas – convidado na babel construída por Alejandro: quatro países, línguas distintas, um inócuo ato de generosidade – a doação de um rifle de caça – gerando um incidente de repercussões globais que correlaciona uma família marroquina, uma imigrante mexicana, um casal americano e, por fim, pai e filha japoneses. A câmera capta realidades díspares, vai e volta no tempo, contando os fatos sem uma rígida ordem cronológica, e ao espectador cabe ser conduzido por ela usufruindo doses diferentes da história a ser contada. E isso se deve basicamente ao modo como Alejandro concebe seu fazer cinematográfico: uma imensa cacofonia de sensações.

No bojo de um cinema mexicano que mostra a singularidade de seus realizadores [vide Guilherme Del Toro com O labirinto do Fauno e Alfonso Cuarón com Filhos da Esperança, isso sem falar em nomes menos conhecidos como o talentoso Carlos Reygadas de Japón e Batalla Em El Cielo], o mais singular seja talvez Alejandro González. Seu cinema passa longe de ser uma resposta a alguma pergunta e não parece disposto a favorecer qualquer engajamento presumido em detrimento da imagem, mesmo quando seu filme fale do presente, da modernidade e de seus entraves.

Modernidade essa que, segundo Alejandro, não tem como única problemática a falta de comunicação – ou incomunicabilidade como adjetivaram alguns. Em Babel, o que impede seus protagonistas de chegarem ao reino dos céus são as idéias, os arquétipos transmitidos pela religião, raça, cultura. Todas as personagens têm uma inadequação de se exprimirem, seja com o marido, a mulher, o filho, porém a palavra, a falta dela, esbarra nos conceitos fixados por determinada parte e isso faz deteriorar não a capacidade de falar, mas sim a de ouvir.

Fornecendo ao espectador experiências emocionais fragmentadas, Alejandro faz apenas a constatação de uma problemática, liga a sua câmera e filma sem colocar na projeção o peso de uma análise de determinada localidade ou de quem se encontra nela, até por que, como disse o próprio, isso soaria moralmente ambíguo. Assim o espectador é apresentado limpidamente a Yussef e Ahmed, filhos dos camponeses marroquinos, da mesma forma como é apresentado a Richard e Susan, o casal norte americano, ou a bela adolescente japonesa, Chieko. Aparado por uma generosa equipe, que parece se colocar a disposição de seu argumento, o diretor tem no roteiro assinado pelo seu companheiro de trabalhos anteriores, Guillermo Arriaga, a matéria para desenvolver, na fotografia de Rodrigo Prieto e na música minimalista de Gustavo Santaolalla, os contornos. Japão, México, Marrocos e Estados Unidos são colocados como cenários onde a diferença entre o micro e o macro é mínima. Pequenas decisões tomadas colocam os personagens-protagonistas em colisão com sua realidade, compondo a mistura de vozes, histórias, emoções, que imprime no filme a manifestação correta do estilo de direção de Alejandro.

Babel é a melhor realização cinematográfica de 2006, e para isso não se aproxima de nenhum critério que beire a perfeição. O que o faz é a necessidade de jogar para o espectador a função de, sem limites ou vaidades, compreender as pessoas [personagens]. Sobre as comparações equivocadas de que Babel é uma espécie de “Crash globalizado” – numa referência ao filme de Paul Higgis –, dois pontos fundamentais: Crash é uma dissertação, com tese, argumentação, conclusão, sempre pautada em explicações lógicas e racionais; Babel, mais do que transcender as fronteiras de um país, expele o ar blasé e complacente para mergulhar num lirismo cru. E a esse lirismo deve-se o aroma de um certo mexicano, e também sua graça.