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04 a 19 de fevereiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

CAPITAL DA MÚSICA BRASILEIRA
Recife sedia a Feira Musica Brasil com o objetivo de ampliar o intercâmbio entre artistas nacionais e novas formas de produção e distribuição musical
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br)

 

nquanto este texto está sendo escrito, o DJ Norman Cook, conhecido publicamente como Fatboy Slim, está realizando um show para uma multidão na praça do Marco Zero, no Bairro do Recife. Paralelamente ao show, dezenas de trabalhadores apertam porcas, parafusos e levantam estruturas de ferro no centro da cidade, enquanto especialistas em trânsito começam a elaborar as mudanças nas rotas das linhas de ônibus que circulam no local. É a capital pernambucana se transformando lentamente para receber o grande número de apresentações que fazem parte do carnaval que se aproxima.

É neste clima de shows de um lado e mudanças na rotina da cidade do outro que fevereiro chega trazendo uma série de eventos para movimentar a cena musical da cidade. Contudo, este ano, além dos festivais Rec Beat e PreAmP, que fazem parte do calendário festivo da cidade, a capital pernambucana sediará a maior feira de música do país. Entre os dias 7 e 11 de fevereiro, músicos, produtores, gravadoras, editoras, fabricantes, especialistas em tecnologia, comerciantes, jornalistas especializados,  representantes de instituições governamentais e público interessado se reunirão no mesmo Bairro do Recife, que recebe agora o Fatboy Slim, para a Feira Musica Brasil.

O principal objetivo da iniciativa é agregar em um mesmo espaço mostras, debates, negócios, apresentações musicais e exposições que dêem visibilidade à produção brasileira dentro e fora do país. Se, antes, o Brasil investia dinheiro para enviar uma quantidade limitada de artistas para as feiras internacionais, a criação de uma plataforma nesta área em solo brasileiro inverte o processo e atrai os grupos interessados em parcerias para um ambiente em que é possível ampliar as possibilidades de intercâmbio dos artistas com quem está interessado em comprar, produzir ou difundir a música nacional.

Para isso, a Feira Musica Brasil, cujo projeto foi elaborado no ano passado pelo Ministério da Cultura em parceria com o BNDES e a Petrobrás, foi estruturada em quatro linhas distintas que incluem produtos, negócios, conferências e apresentações musicais. O espaço de negócios intitulado “Feira de Profissionais” vai reunir apenas empresas e especialistas em rodadas de negociação, mediadas pelo Sebrae, e apresentações de projetos a instituições financiadoras, como o BNDES. Este módulo da feira inclui capacitação exclusiva para os participantes e a participação é restrita, feita mediante inscrição junto à organização do evento.

Por outro lado, a Feira de Produtos Musicais e os shows serão gratuitos. No primeiro espaço será montada uma estrutura com 50 estandes que abrigará de vendas de discos, vídeos e instrumentos musicais a revistas especializadas e intercâmbios com projetos sociais que atuam na área. As apresentações musicais, por sua vez, ocuparão os horários fora da grade de conferências e cursos, sendo realizados em espaços de convivência pública e em palcos montados em pontos estratégicos da localidade, como a Praça do Marco Zero.

Porto Musical – A grande novidade para quem participou das duas primeiras edições da Convenção Internacional de Música e Tecnologia, conhecida como Porto Musical é a inserção deste evento na programação da Feira Musica Brasil. A existência do Porto Musical, inclusive, foi uma das grandes motivações para que o evento fosse realizado em Recife. Este ano, as conferências ocorrem entre os dias 8 e 10 de fevereiro e estão divididas em três plataformas: “Go Internacional” e “Go Digital”, que terão sete encontros, cada uma, e a “Go Brasil”, que agregará oito conferências.

Entre os destaques de cada conjunto de conferências, chama atenção as palestras conduzidas por Agustina Peretti e Octavio Arbelaez que falarão sobre a promoção de trocas na América Latina, usando como exemplo os mercados Argentino e Colombiano; o debate sobre Acesso, Autoria e Autonomia usando exemplos dos selos de internet (netlabels) e cooperativas, que será realizado por h.d Mabuse, do coletivo musical Re:combo; a conferência sobre A Era de Ouro do Videoclipe, que será ministrada pelo jornalista e produtor Alexandre Matias; e a palestra sobre o uso da rede pública de rádio e televisão como ferramenta de divulgação da música brasileira, que tem na mesa Israel do Valle, o jornalista Kiko Pereira e Gabriel Priolli.

Além das três plataformas citadas, no primeiro e no último dia do Porto Digital vai ser possível conferir também a “Go Alternative”, que vai trazer uma programação mais lúdica para os participantes. No dia 8, haverá o lançamento do livro Rhythm Science, de Paul Miller, conhecido como DJ Spooky. O evento será no Lounge do Porto Digital, na hora do almoço. Dia 10, por sua vez, acontece a apresentação de François Pachet no projeto Virtual Musicians, com a exibição de softwares de interação musical, que funcionam como músicos virtuais capazes de acompanhar artistas. O músico e pesquisador François Pachet será acompanhado dos brasileiros Giordano Cabral e Sergio Krakowski e a programação pode ser conferida no final da tarde, na Torre Malakoff.

As conferências e eventos do Porto Musical continuam enchendo os olhos de quem quer trocar idéias e ter acesso a projetos e possibilidades de produção e difusão musical através da tecnologia. O único problema continua sendo o preço da inscrição, entre 180 e 220 reais, que acaba afastando aqueles músicos e produtores que, embora interessados nas temáticas e debates, não têm condições financeiras e restringem sua participação aos espaços gratuitos da Feira Musica Brasil.

Projetos Sociais – A programação da feira tentou minimizar este abismo existente entre quem quer participar e quem pode participar de todos os espaços do evento com a inclusão de um estande dedicado a cinco projetos sociais que trabalham na área. A idéia é que um projeto de cada região do Brasil possa participar deste espaço na feira. A produção abriu, inclusive, a possibilidade do público indicar iniciativas legais através de e-mail, mas a decisão ficaria por conta de uma comissão interna do evento.

Contudo, além dos projetos indicados pela Feira Musica Brasil, o Ministério da Cultura tem procurado investir na propaganda dos Pontos de Cultura espalhados pelo país, que recebem todo um aporte tecnológico utilizando software livre para a elaboração de produtos como filmes, discos e outros tipos de registros dedicados a manter e difundir a cultura brasileira. Estes pontos, em boa parte, estão ligados a grupos musicais que trabalham com iniciativas sociais, como a inclusão digital, entre outros.

Em Olinda, por exemplo, existem cerca de quatro Pontos de Cultura que se dedicam a preservar a memória de Maracatus, investir na formação de músicos, radialistas comunitários e ajudar no registro e divulgação de grupos musicais via internet. Um dos projetos mais conhecidos, nesta área, é o Vídeo nas Aldeias, que participou da Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, com o vídeo Amendoim da Cutia. Os vídeos são gravados em língua indígena, na própria aldeia e tem ajudado a ampliar o conhecimento sobre a rotina indígena, incluindo a musicalidade no cotidiano e nos ritos realizados em épocas especiais.

Audiovisual – A produção visual, por sinal, tem uma grade especial no evento. Todos os dias haverá mostra de documentários dentro do projeto Cinema e Música do Brasil, que vai ser realizado no Auditório Musica Brasil. Além disso, durante a noite, nos palcos montados nas praças do Marco Zero e Arsenal e no Teatro Santa Isabel haverá exibição de videoclipes de artistas selecionados para esta edição da Feira Musica Brasil. Entre eles estão a banda Autoramas, o músico Lanny Gordin, o Quinteto Villa Lobos, o cantor e compositor Silvério Pessoa, a legendária banda Vulgue Tostoi, entre outros.

Programação Musical – As sessões de audiovisual e as apresentações musicais devem agregar um público considerável durante os quatro dias da feira, uma vez que música e cinema são gêneros bastante atrativos. Os shows diurnos acontecerão na hora do almoço, em vários restaurantes, espaços públicos e culturais do Bairro do Recife. Apesar do sol e do calor enlouquecedor que faz na capital pernambucana, é possível prever que as apresentações dos maracatus Encanto da Alegria, Piaba de Ouro e Estrela de Outro, que vão acontecer no Pólo Brotfabrik, na Rua da Moeda, agregarão um número considerável de expectadores.

A presença de Lia de Itamaracá no Pátio do Paço Alfândega também é um evento certeiro na preferência do público. Contudo, a boa notícia será a apresentação do grupo de percussão Baque Forte no coração da Comunidade do Pilar. A apresentação será na frente da antiga Igreja do Pilar, que fica dentro de uma das comunidades mais carentes da região e que vem enfrentando há alguns anos o boato de que deixou de existir.  

Os grandes shows, no entanto, estão previstos para começar às oito horas da noite. A programação inclui vinte e dois artistas que foram selecionados por uma comissão composta por Alex Antunes, Bruno Levinson, Kiko Ferreira, Maurício Valadares, Alfredo Radoszynski, Bob Duskis, Roberto Urbanus, Paulo André Pires e James Lima. Os palcos abrigarão entre quatro e seis apresentações por noite, com encerramento previsto para a uma da manhã, em média. Como a feira será realizada em dias próximos do fim-de-semana, o público esperado é de cerca de 50 mil pessoas a cada noite.

Adicionais – As informações adicionais sobre as conferências, artistas participantes, módulos do evento, contatos, entre outros, podem ser conferidos no site da Feira Musica Brasil e do Porto Musical. A grande novidade na seção de notícias da página oficial da feira, até o fechamento deste texto, era a participação de Sting no evento. A notícia foi divulgada, inicialmente, no Diario de Pernambuco e dizia que o cantor viria a Recife e depois seguiria para a 49ª Cerimônia do Grammy, em Los Angeles. A equipe do Rabisco vai realizar a cobertura da Feira Musica Brasil, entre os dias 7 e 11, em Recife. Aguardem novidades na próxima edição.