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04 a 19 de fevereiro de 2007

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ELOGIO AO INÉDITO
Décima segunda edição do Rec Beat privilegia experiências musicais que nunca estiveram no festival, em um ano de homenagens a Chico Science e ao Frevo
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

 

Rec Beat é conhecido em todo o Brasil como uma opção “alternativa” ao carnaval do Recife. Contudo, quem conhece a festa de Momo, na capital pernambucana, sabe que o termo aplicado a esta situação não se encaixa muito bem porque o que não falta na cidade são opções de diversão durante esta época do ano – ainda mais depois que a Prefeitura do Recife implantou o Carnaval Multicultural, montou pólos na periferia e passou a trazer artistas de renome e vários gêneros musicais para tocar nos palcos descentralizados.

Todavia, o festival é singular, mas não por ter uma programação completamente antagônica ao carnaval da cidade e, sim, por trazer todos os anos uma seleção de artistas e experiências musicais que o público pernambucano não teria acesso caso o Rec Beat não existisse. Se na programação do Centro do Recife ouvimos clássicos de Alceu Valença, Claudionor Germano e outros cantores que fazem parte da tradição festiva da cidade, o que o Rec Beat faz é nos apresentar a um mundo novo de sonoridades e estilos, que podem vir do Paraná ou da Zona da Mata de Pernambuco.

Este ano, o festival recifense acontece entre os dias 17 e 20 de fevereiro, no Cais da Alfândega, no Recife Antigo. As novidades e a programação completa foram divulgadas por Antonio Gutierrez (Gutie), produtor executivo do evento, durante a coletiva de imprensa, realizada no último dia 30 de janeiro. “Eu viajei para diversos festivais, no ano passado, vi muitas apresentações tanto fora de Recife quanto aqui e a programação deste ano tem muita gente que eu garimpei nestes eventos”, disse. Este ano Gutie decidiu privilegiar o ineditismo em todo o festival. “Eu preferi trazer pessoas que nunca pisaram no palco do Rec Beat. Os grandes artistas tocam na cidade em palcos abertos em outros momentos durante o ano e o papel do festival é revelar novos nomes”, afirmou.

A ausência de artistas que atraem platéias imensas para fechar as programações de cada noite, como ocorrem em outros festivais, parece não afetar a expectativa de público do produtor. “É melhor ter um público menor, que possa assistir as apresentações confortavelmente, do que atrair muita gente com grupos famosos e ter problemas com a segurança de quem está assistindo”, argumentou Gutie, que acrescentou que a experiência dos anos anteriores serviu para que o Rec Beat chegasse a 2007 com este formato. “Nós vamos ter Tom Zé, na última noite, que mesmo sendo um artista conhecido não traz uma quantidade de público tão grande a ponto de termos problemas”, disse o produtor.

Pela programação, Tom Zé é, de fato, o único artista que parte considerável do público pode dizer que conhece. Os demais são boas novidades na capital pernambucana, como o Isca de Polícia, banda do falecido cantor e compositor Itamar Assunção, que se apresenta pela primeira vez na cidade trazendo a cantora Vange Leonel e Anelis Assunção, filha de Itamar, como convidadas nos vocais. Outro grupo que vem acompanhado é o paulistano Instituto, que vai tocar com Carlos Dafé – um dos expoentes da soul music brasileira junto com a Banda Black Rio –, em uma apresentação toda dedicada ao disco Tim Maia Racional, que Tim Maia lançou de forma independente, em 1975.

Mais uma novidade da programação 2007 do Rec Beat é que Pernambuco não é presença majoritária no festival. Entre as vinte e quatro atrações, quinze são de outros estados brasileiros, uma é internacional, o grupo espanhol 2in-Par, que vai se apresentar no último dia do festival, e oito são artistas locais, como Erasto Vasconcelos, Digital Groove e Mellotrons. “O número menor foi fruto da experiência do festival. Eu percebi que algumas vezes é melhor esperar que as bandas estejam com um trabalho mais consistente ou com algo novo para apresentar”, disse Gutierrez. Mesmo assim, a representatividade por estado ainda privilegia a cena pernambucana, seguida por São Paulo, que participa do festival com quatro grupos musicais e uma companhia de dança flamenca, a Raies Dança Teatro.

A presença de uma quantidade maior de artistas de outros estados também foi motivada  pela garimpagem de projetos externos que soaram interessantes para a proposta de ineditismo desta edição, uma vez que Gutie não é a favor de cotas para festivais. “O respeito ao trabalho da banda deve vir por mérito dela e não para cumprir um número mínimo de grupos locais”, afirmou, acrescentando que considera os demais eventos que ocorrem ao longo do ano em Recife, como as apresentações no Pátio de São Pedro e em outros mini-festivais, como ótimas oportunidades dos artistas amadurecerem, apresentando o trabalho para o público.

Homenagem – O Rec Beat este ano é dedicado à memória de Chico Science, que faleceu em 1997, depois que o carro que dirigia derrapou em uma curva entre Olinda e Recife e bateu em um poste. Embora a homenagem seja declarada, os artistas que participarão do festival não estão obrigados nem a reverenciar Science e nem os 100 anos do frevo, completados no último dia 27 de janeiro. “Não queremos fazer uma homenagem explícita, piegas, por isso nós conversamos com os grupos, mas deixamos livre para eles escolherem se querem ou não tocar algo ou fazer algum tipo de homenagem tanto a Chico Science quanto ao centenário do frevo”, afirmou Gutie.

Cultura Livre – Além de Chico Science, o próprio Rec Beat ganhou uma dedicatória com o lançamento do documentário Rec Beat e o Hipertexto, de Pedro Bayeux. O diretor traçou um paralelo entre festival recifense e o intercâmbio existente na internet através da cultura do software livre, do copyleft e do creative commons. A idéia defendida por Bayeus é que o Rec Beat, por ser gratuito e trazer a cada edição um número grande de grupos, tendências e estilos musicais diferenciados e pouco conhecidos do grande público, estaria promovendo a democratização da música e da cultura.

Um exemplo dado pelo documentário são as entrevistas com Edgar Scandurra, do Ira! e o grupo Pavilhão 9. Scandurra participou do Rec Beat com seu projeto paralelo, o Benzina, e disse que o formato do festival permite que os artistas se apresentem com projetos experimentais. “A moçada está a fim de ouvir um som e não as dez mais. Então, eu me senti em casa”, comentou. Por sua vez, o pessoal do Pavilhão 9 disse que “o grupo nunca se apresentou no carnaval. Nós tocamos pela primeira aqui porque Recife é uma cidade que permite isso”.

O debate sobre democratização e acesso à música em Rec Beat e o Hipertexto traz questões interessantes e atuais como a relação das bandas com as gravadoras, pirataria, criatividade, propriedade intelectual, distribuição pela internet e a relação com o público. O festival pernambucano serve como exemplo prático do que tem sido debatido nesta era de cultura digital. O documentário é uma ferramenta interessante para ampliar este debate, contudo Gutie ainda não sabe de que maneira ele será disponibilizado para o público. “Nós ainda precisamos ver com o Pedro de que maneira isso vai circular, ainda não conversamos sobre isso e como ele é o diretor do documentário, precisamos saber quais os planos dele”.

Extras – Enquanto o trabalho de Bayeux não chega ao grande público, o Rec Beat segue diversificando. Além da programação de shows à noite, no Cais da Alfândega, o festival ainda traz duas programações paralelas. Uma é o Bloco Quanta Ladeira, liderado por artistas como Lenine, Silvério Pessoa e Lula Queiroga, que tem feito história no carnaval do Recife com paródias e sátiras feitas em cima de músicas conhecidas do grande público. O bloco este ano completa uma década em atividade e se apresentará no Rec Beat na segunda noite do festival.  

A outra folia extra fica por conta do “Rec Bitinho”, espaço que festival dedica às crianças. Este ano, a Companhia de Teatro Rasgado vai encenar o musical infanto-juvenil O Pequenino Grão de Areia, de João Falcão. A peça fez uma pequena temporada durante a programação do Janeiro de Grandes Espetáculos com apresentações em praças públicas do Recife. No Rec Beat, a apresentação será no terceiro dia do festival, às cinco horas da tarde.

Programação

Confira, abaixo, a programação completa do Festival Rec Beat.

Sábado - 17/02
19:30 - Dj Big & Confluência (PE)
20:30 - Erasto Vasconcelos (PE)
21:30 - Digital Groove (PE)
22:30 - Supergalo (DF)
23:30 - Zefirina Bomba (PB)
00:30 - Z`Africa  Brasil (SP)

Domingo - 18/02
16:30 - Concentraçao Bloco Quanta Ladeira
20:30 - Canja Rave (RS)
21:30 - Rivotrill (PE)
23:00 - Isca De Policia (SP)
00:15 - Digitaria (MG)
01:20 - Bonde Do Rolê (PR)

Segunda-Feira - 19/02
17:00 - Recbitinho: Companhia Teatro Rasgado - “O Pequenino Grao De Areia”
19:30 - Mellotrons (PE)
20:30 - Vanguart (MT)
21:30 - Raies Dança Teatro (SP)
23:00 - Mr Catra (RJ)
00:00 – Instituto / Show Tim Maia Racional (SP)
01:20 - Montage (CE)

Terça-Feira - 20/02
18:30 - Maracatu Nação Cambinda Estrela (PE)
19:30 - João Do Pife E Banda Dois Irmãos (PE)
20:30 - Parafusa & Trombonada (PE)
21:30 - Curumin & The Aipins (SP)
23:00 - 2in-Par (Esp)
00:00 - Macaco Bong (MT)

01:20 - Tom Zé (BA)