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04 a 19 de fevereiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

ENQUANTO A ESPOSA NÃO VEM...
Cecílio Elias Neto publica romance que traduz a sensualidade e o perigo de quem se entrega ao amor clandestino
por Giselle Marques (giselle.marques@uol.com.br)

 

iserere Mei Amor é um romance. Ponto. E como todo romance, é dramático e meloso. Fim de caso de amor e fim do mundo parece que andam juntos dentro do peito do protagonista criado pelo autor desta obra, Cecílio Elias Neto, que destrincha em ricos adjetivos a agonia de viver um amor sem permissão e de estar na cama de um hospital esperando a senhora morte chegar.

Existe um refinamento neste romance, nesta história tão clichê de amor e traição, de medo e de coragem que os desejos e pecados provocam. “O medo vem do desconhecido ou do que não se quer aceitar no coração. Se tanto amei Helena, por que teria ela que ser o meu pecado? Prostrei-me. ... A liberdade é um castigo”, pensa consigo mesmo o protagonista. Assim é narração, em primeira pessoa e cheia de questionamentos.

“Fiz-me eunuco por amor aos filhos. E Tereza, estéril de amor por amor a eles”, relata no início do livro, o qual desenvolve as memórias de começo, meio e fim de uma paixão e de um casamento. E mesmo com uma doença incurável presente rondando o personagem, Miserere Mei Amor busca a possibilidade de alguma sobrevivência após tantos contratempos, suplícios e impulsos sexuais.

“Não se morre de amor, mas sem o amor que se ama não há vontade de viver. Foi a embriaguez do amor que me limpou a alma de cânceres e de doenças plantadas sem que eu os quisesse... Estou perdendo a vida”. O pensamento que não sossega a mente do protagonista nas primeiras páginas é uma prévia do que será exposto, na tentativa de entender a dicotomia e a complexidade dos sentimentos amorosos.

A culpa cristã e o envolvimento do personagem com o mundo dos pecados e perdões tornam-se cada vez mais claros no decorrer da narrativa em primeira pessoa. “O padre ficou ao lado, acariciando-me a mão. É amigo meu, da família. Ele parece saber de minha lucidez, de que posso ouvi-lo, ouvi-los”. No texto, algumas junções de palavras remetem à bíblia: a alma suja, o infortúnio de um amor adúltero, o castigo, que é a doença, a morte, elementos de que amar é sofrer e de que é o prazer que traz a culpa intensificam a maneira como o autor parece querer fazer com que o moribundo em conflito se desculpe pela intensidade vivida. Tanto fica óbvio o sofrimento cristão em relação ao desejo, que o nome do livro pede por piedade e misericórdia: "Tenha compaixão de mim, amor".

SANGUE E AREIA CORREM NOS PULSOS

Como fez Mário de Andrade, que ficou uma semana em um sítio para escrever Macunaíma, Cecílio passou 20 dias em uma praia deserta escrevendo Miserere Mei Amor. Ele explica que, nesse tempo de recolhimento, as palavras saíram dele como um jorro. Mas ele não publicou o livro logo depois de voltar da praia. Deixou o material adormecer por dois anos para então revê-lo e lançá-lo em 2004.

Cecílio Elias Neto é jornalista, formado em Direito, Filosofia, Economia e Administração. Com 14 livros publicados, ele conta que escreveu o romance Miserere Mei Amor como uma compulsão. “Busquei mergulhar na paixão de homem e mulher, dando uma linguagem mais refinada, sem nada que esbarrasse em vulgaridades. Para mim, partindo de experiência muito pessoal, foi como que uma catarse, talvez um exorcismo. O livro repercutiu favoravelmente junto à crítica e, em mim, foi muito doloroso”.

Dizendo-se inapto para questões comerciais, Cecílio preferiu não distribuir Miserere Mei Amor em grandes livrarias, o que demanda contato com o autor para saber onde e como adquirir o livro. Ele também é colunista às sextas-feiras no jornal Correio Popular, de Campinas.

Caipiracicabano, como se autodenomina ao ser questionado sobre sua terra natal, Cecílio Neto tem raízes e coleciona alguns prêmios, como o Prêmio Oswald de Andrade, teatro (Secretaria Estadual de Cultura) com a peça "O dia em que Ava Gardner morreu"; Prêmio Clio, História, Academia Paulistana de História, com o livro "Memorial de Piracicaba 2000”; Medalha Prudente de Moraes e Prêmio de Cultura Prudente de Moraes por estudos sobre Prudente de Moraes. Foi também eleito membro da Academia Paulista de Jornalistas, Cadeira 40, Leo Vaz. “E outras coisinhas por aí”, explica o autor, que completa: “O que mais me emociona, porém, é o título de "Piracicabanus Praeclarus", dado pelo Poder Legislativo de minha terra”.