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04 a 19 de fevereiro de 2007

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FÁBULA SOMBRIA
O filme mexicano O Labirinto do Fauno questiona a nossa leitura sobre o real e o imaginário
por Luiz Andreghetto (andreghetto@rabisco.com)

 

m conto de fadas sinistro e um enredo político que se passa durante a ditadura de Francisco Franco na Espanha de 1944, não parece ser duas coisas que possam caminhar juntas. Em O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006) esses dois temas não só estão juntos como também se completam em uma narrativa vertiginosa e espetacular. Os contos de fada tornam-se reais, enquanto a narrativa política mais parece uma fantasia de horror.

Ofélia (Ivana Baquero) é uma garota de uns 12 anos que se muda com a mãe grávida e o padrasto (o excelente Sergi López), capitão do exército, para uma fazenda no interior da Espanha. O padrasto precisa lidar com os rebeldes contrários a ditadura franquista enquanto Ofélia encontra um labirinto e nele é convencida por um fauno que é uma princesa de um reino subterrâneo, mas para que isso seja provado ela precisa realizar três tarefas antes que chegue a lua cheia.

O Labirinto do Fauno, através de Ofélia, coloca em choque esses dois mundos: a dura realidade de uma guerra eminente em que os sonhos são apenas desejos de idealistas contrários a um estado totalitário e ditatorial, que é representado na figura do Capitão Vidal, o padrasto, e o mundo mágico que ela encontra dentro do labirinto, povoado de fadas, sapos gigantes, fauno e diversas outras criaturas. Ainda que o labirinto e esse mundo de fantasias seja assustador parece mais reconfortante do que as ordens e o ódio velado do padrasto.

Colocados em contraponto, esses dois mundos (o real e o imaginário) parecem ser um reflexo de si mesmo, acabando por se completar. A imaginação de Ofélia é construída através de fantasias impregnadas de realismo: a figura do fauno às vezes é tão ameaçadora e mandona quanto o padrasto; a criatura com olhos na mão é a Espanha Católica, impregnada de tentações e castigos e ambos os universos possuem regras pré-estabelecidas que não podem ser transgredidas. Ofélia acredita no poder transformador da imaginação enquanto Vidal acredita apenas na violência como solução para uma política extremista.

Guilherme Del Toro não impõe limites para separar suas histórias. Mas será que existe alguma separação entre esse dois mundos? São nessas nuances entre o que é realidade e o que pode ser fantasia que trafega o cinema de Del Toro. Mexicano, com carreira internacional (filmou nos Estados Unidos – Mutação, Blade 2 e Hellboy – e na Espanha – A Espinha do diabo) Del Toro se utiliza de diversas alegorias para enredar o público em um labirinto de imagens que mostram até onde a crueldade da realidade é suportável e em que ponto se inicia a fantasia. Seria a fantasia um desejo de mudança ou uma fuga? A fantasia pode transformar a realidade, ou seria o contrário?

O diretor aponta vários caminhos e usa duas linhas de narrativas paralelas que transforma O Labirinto do Fauno em uma experiência única, pois depende de cada um de nós decidirmos o que acabamos de ver: para os otimistas uma linda fábula de crescimento e amadurecimento em que a fantasia é mais forte do que qualquer tirania, e para os pessimistas um triste drama sobre o poder da realidade, em que a incapacidade de amar e tolerar são usados em detrimento do poder da imaginação.