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04 a 19 de fevereiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

ROCK DE TIRO CERTEIRO
Registro ao vivo da Nação Zumbi realça a sonoridade da banda e mostra os caranguejos com cérebro em grande forma
por Luiz Rebinski Junior (jrrebinski@yahoo.com.br)

 

inalmente os fãs da Nação Zumbi podem conferir a banda no formato onde seu som funciona melhor. Propagando, álbum que a gravadora Trama coloca na praça, é o primeiro registro ao vivo do grupo recifense desde Da lama ao caos, disco de estréia que ainda contava com Chico Science nos vocais.

Derivado do DVD comemorativo de dez anos de carreira, lançado em meados de 2004, o novo lançamento traz músicas de cinco álbuns – Futura, último trabalho da banda ainda não havia sido lançado na época do show –, tocadas com muito vigor e que mostram porque Jorge du Peixe e companhia figuram entre os medalhões do pop nacional.

A base do show é o ótimo Nação Zumbi, disco de 2002 que alçou novamente a turma de Pernambuco ao panteão dos grandes grupos brasileiros. Mais do que isso, o álbum foi responsável pelo fim da desconfiança que parte do público e da crítica mantinham com relação à Nação Zumbi depois da morte de Chico Science. A partir daí o grupo se tornaria figurinha carimbada nos principais festivais do país, conquistando maior respeito da crítica especializada.

E é desse divisor de águas na carreira da NZ que saem músicas como “Blunt of judah”, um clássico que figura lado a lado entre as melhores composições do grupo, “Meu maracatu pesa uma tonelada”, hit obrigatório nos shows, “Prato de flores”, cantada em uníssono pelo público, “Amnésia express” e “Propaganda”, esta última contando com a participação do ex-vj da MTv Rodrigo Brandão.

Dos já clássicos discos gravados com Science, Da lama ao caos e Afrociberdelia, figuram petardos como “Macô”, “Samba do lado”, “Banditismo por uma questão de classe”, “Um satélite na cabeça”, “O cidadão do mundo” e “Manguetown”.

Esteada pela guitarra competente de Lúcio Maia, a banda destrincha seu repertório em um show sem concessões, já que músicas mais conhecidas como “A cidade”, “Praiera” e “Maracatu atômico” ficam de fora. Pode-se ver aí uma tentativa da banda se desvencilhar de um passado – glorioso, diga-se de passagem – onde Chico Science era o centro das atenções e os outros integrantes vistos em segundo plano. Não que o combo pernambucano rejeite a trajetória com o companheiro Science, não se trata disso. Pelo contrário, muitas das idéias propostas há mais de uma década por Chico e pelo manifesto mangue beat, como a preocupação com o engajamento político e social, ainda vigoram nas cabeças dos caranguejos da NZ. Pode-se facilmente perceber tal preocupação na letra de “Propaganda”, onde se diz: “como pode a propaganda ser a alma do negócio/ se esse negócio que engana não tem alma”. Há também a onda futurista, impregnada nas letras e no som da banda. 

A nova Nação

Mesmo du Peixe não sendo um frontman, a Nação Zumbi consegue empolgar em Propagando. Aliás, é a unidade o grande trunfo do grupo. Pode-se perceber com facilidade a percussão em plena sinergia com as guitarras psicodélicas de Maia e o vocal despretensioso de du Peixe. Com muita habilidade, Lúcio Maia faz a ponte entre o peso e a melodia. No final das contas, a Nação consegue soar pesado e pop ao mesmo tempo. E isso não é pouco, já que foi justamente da fusão e da mistura de ritmos que nasceu o singular som do grupo. Foi com precisão que nos idos de 1994 a banda surgiu com uma mistura acachapante, que deixou crítica e público com os ouvidos em alerta sem saber o que dizer dos “caranguejos com cérebro”, expressão cunhada no famoso e já citado manifesto mangue beat (ou bit para os puristas).

Tal fusão pôde, na época, ser comparada à empreendida por Raul Seixas quando resolveu colocar Elvis Presley e Luiz Gonzaga em uma mesma canção. Daí a empolgação pelo maracatu psicodélico da NZ. Hoje, passada a euforia inicial e depois de ficar no limbo do cenário musical e lançar álbuns pouco inspirados, a Nação Zumbi achou seu caminho e o trilha com personalidade desde então. Os flertes com a eletrônica – em doses certeiras –, com o rap e outros estilos deram vigor ao som do grupo. Os vocais de du Peixe estão ainda mais cadenciados. Nada que lembre a forma de cantar incisiva de Chico Science. Jorge du Peixe fez de sua limitação como cantor uma marca não só para si mesmo, mas para a banda toda. Seu estilo uniforme gera um contraste interessante com a barulheira empreendida pelo resto da banda.

Além de conquistar reputação própria, cada vez mais menos identificada com a imagem de Chico Science (ainda que este seja onipresente dentro do grupo), a banda conseguiu cunhar uma estética singular. Atualmente a imagem dos homens com cabeças de rádio (conceito surgido no clip de “Blunt of judah”) é tão forte – ou mais – quanto a dos caranguejos com cérebro. Hoje a NZ é vista como uma banda extremamente moderna (hype, para os mais modernos ainda), mas que conserva uma brasilidade pouco comum no rock nacional contemporâneo. Isso se deve em muito à inspirada guitarra de Maia. Apesar de ser identificado pelos poderosos tambores de maracatu encabeçados por Bolla 8 e pela marcante percussão de Toca Ogan, o som da banda se baseia na guitarra lisérgica de Maia, que rege a maior parte das canções. A importância das guitarras é realçada ainda mais nas apresentações ao vivo. O guitarrista vai da psicodelia ao metal com bastante habilidade. Seus riffs certeiros soam ainda mais vigorosos em Propagando. E com a certeza de que é um grande guitarrista que Maia se aventura em “Purplehaze”, clássico de Jimi Hendrix. Mesmo com a marcante pegada dos tambores, a versão da Nação é bastante fiel à gravação original.

Outro cover de destaque é “Umbabarauma (Ponta de Lança Africano)”, de Jorge Ben – músico-fetiche do mangue beat –, que vem em um pout-pourri de primeira que ainda conta com “Da lama ao caos”.  Em Propagando há ainda espaço para Bolla 8 assumir os vocais na sensacional “Banditismo por uma questão de classe” e Toca Ogan em “Remédios”.

O primeiro CD ao vivo da NZ deixa a certeza de que a banda, após um período de vacas magras e pouca inspiração, achou seu lugar no rock nacional. Ou melhor, encontrou sua voz em meio ao caos que se seguiu após a morte da principal cabeça do grupo. Se antes era Chico Science e os outros, hoje a história é diferente. Propagando é uma ótima oportunidade para ver como os neurônios dos caranguejos continuam queimando.