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04 a 19 de fevereiro de 2007

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UM WILL SMITH LOSER?
Não se depender do sucesso do drama À Procura da Felicidade
por Fábio Freire (fabiofreire@rabisco.com.br)

 

hris Gardner (um Will Smith envelhecido e mais contido) é um bom marido e pai dedicado. O problema é que ele está atolado em dívidas e ganha a vida vendendo um aparato hospitalar que ninguém sabe muito bem para que serve. Enquanto tenta faturar algum, a mulher (uma Thandie Newton um tantinho exagerada) trabalha dois turnos e pragueja o marido por ser um incompetente e não conseguir prover a família. Como todo Zé Mané que se preze, Gardner não é um perdedor conformado e acredita que pode vencer. Ele sonha, então, em conseguir um concorrido estágio em uma companhia corretora de ações ou algo que o valha. Mesmo sem nunca ter tido uma única experiência no ramo.

Se À Procura da Felicidade fosse um filme europeu, lógico que o fator surpresa ainda existiria. O espectador ficaria na dúvida, assim, se Gardner conseguiria ou não vencer na vida. Como o longa-metragem, apesar de ser dirigido pelo italiano Gabriele Muccino, é um típico produto hollywoodiano, não precisa ser nenhum gênio para saber como termina. Ainda mais sendo protagonizado pelo protótipo do americano bem sucedido, Will Smith.

Garden sofre. É abandonado pela esposa - mas não desiste de criar o filho. Fica na merda e vai dormir, literalmente, na rua da amargura. Mas, no final, consegue cuidar do filho. Vende todas as máquinas imprestáveis e pesadas que carrega para cima e para baixo. E - revezando-se entre a cadeia, abrigos públicos e o escritório chique onde trabalha - vence na vida. Afinal, estamos falando do ator que já deu murro em alienígena, vestiu paletó preto e óculos escuros para salvar o mundo e interpretou até o lutador Muhammad Ali.

Assim no papel parece até enredo de ficção científica, mas Hollywood não dá ponto sem nó e trata, logo nos créditos iniciais, de esclarecer que a trama é baseada em uma estória real. Dessa forma, o espectador mais exigente não pode reclamar das coincidências absurdas que acontecem na vida de Gardner. Nem das incontáveis e seguidas mazelas que teimam em cruzar o caminho do rapaz. Muito menos da famigerada sorte que o mesmo tem em algumas ocasiões. No cinema, todas esses inumeráveis absurdos se transformam, claro, em licença poética.

Mas o mais engraçado de À Procura da Felicidade é que o filme é honesto. Mesmo tendo todos os pré-requisitos de um melodrama barato e edificante feito para ser exibido na tevê aos sábados de madrugada, a produção usa os clichês e a pieguice a seu favor. Tirando uma derrapada aqui e outra ali, como a narração em off apelativa, as fórmulas do subgênero fracassado-come-o-pão-que-o-diabo-amassou-mas-vence-na-vida estão no lugar certo e respeitam a inteligência do público.

O texto é inteligente, evita as frases de auto-ajuda e não se preocupa em dar lição de moral em ninguém. A música entra no momento certo e deixa que a emoção brote das situações. A fotografia é acinzentada e traz certa melancolia à trama. A relação entre pai e filho é estabelecida com carinho e de forma gradual. E ainda que o final não seja surpresa, o espectador pode, como em um road movie, prestar mais atenção à singela trajetória do protagonista. Tudo isso graças à direção competente, o roteiro bem escrito e às atuações comoventes de Will Smith (indicado ao Oscar pelo papel) e Jaden Smith - filho do ator na ficção e vida real.

Sucesso de público e crítico nos Estados Unidos, além de ser um filme correto, À Procura da Felicidade funciona também como uma antítese de um outro êxito hollyoodiano do ano passado: Pequena Miss Sunshine. Se o filme dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris é uma ode aos perdedores e redime os “fracassados” no cinema, À Procura da Felicidade aponta para um caminho mais convencional adotado pela indústria do cinema. Moral da estória: em Hollywood, se assumir como loser ainda não é para qualquer um.