AQUARELA
#55
REFLEXÃO
É A PAUTA DO DIA
Uma carta aos
leitores, amigos, parceiros, amores, pais...
Por Ana Lira –
(analira@rabisco.com.br)
aros leitores,
Nesta edição eu abro a minha coluna para uma conversa com vocês que estão em algum lugar do mundo, acessando a internet para ler o Rabisco. Nós passamos dois meses com a página sem atualização. O nosso querido webmaster foi retirado do convívio da equipe, no final de fevereiro, por uma dessas coisas que a vida faz com a gente que nos deixa sem força nem para respirar.
Diante disso, nós iniciamos uma busca por pessoas que pudessem ajudar na manutenção da revista on line. É até esquisito dizer isso, mas nunca pensei que conseguir um webdesigner / webmaster voluntário fosse uma odisséia tão difícil. Um mês e três semanas de busca, pautas caindo, colaboradores perguntando, o desespero tomando conta de todos nós. Em cinco anos de revista, esta foi a primeira vez que nos vimos algemados, sem conseguir colocar o a revista no ar, na data certa.
Entre os momentos de angústia e desespero, eu pensei imediatamente em H.D Mabuse, que foi um dos meus entrevistados na Feira Música Brasil , quando ele disse que uma pessoa precisa ter acesso, autonomia e autoria. Acesso ao conhecimento, autonomia para saber lidar com ele e autoria para criar algo independente, com o saber que se tem em mãos. Eu senti, durante esses sessenta dias em busca por um webmaster, que embora possuísse acesso e autoria, eu não tinha autonomia.
Não conseguia colocar a revista no ar, dependia de alguém para fazer isso por mim. Esta foi uma das constatações mais sérias que fiz nos últimos tempos. Em uma época em que as pessoas valorizam o especialista, eu senti muita falta de ter esse conhecimento a mais, de não ser apenas repórter, fotojornalista e editora. Queria ser webdesigner e webmaster, também. Desejei aprender programação e poder fazer um sistema de publicação para a revista.
Estou dividindo esta reflexão com vocês porque sei que outras revistas pela internet fecharam por motivos similares, e eram bons projetos. Além disso, você que está lendo esta coluna pode estar precisando desenvolver um projeto que é importante para você, mas depende de alguém para que ele siga em frente. Então, vamos seguir o conselho de Mabuse e procurar conhecer os códigos que nos impedem de dar um passo à frente.
Quem ama um projeto pessoal, como eu amo esta revista, este trabalho, as pessoas que fazem parte dela, não pode ficar sentado esperando as coisas morrerem com o tempo. É claro que não virei expert em atualização de páginas em seis semanas. Conseguimos uma pessoa nova para ajudar a colocar a página no ar e quando as coisas se tranqüilizarem, para o nosso webmaster, nós ficaremos com duas pessoas ajudando na revista. Contudo, eu também decidi estudar para não tomar este susto pela quarta vez.
Então, é isso. A edição está no ar. Se a Revista Rabisco fosse um veículo puramente comercial, muitas pautas aqui presentes teriam sido colocadas na gaveta. Eu decidi manter todos os textos, inclusive as minhas coberturas da Feira Musica Brasil, do Rec Beat e a de um colaborador nosso sobre o Festival de Verão de Salvador. Os eventos passaram, mas as discussões levantadas nestes textos permanecem em nosso cotidiano. As discussões da feira sobre o preço dos discos, a abertura aos novos artistas nas rádios, o sistema público de radiodifusão, a distribuição de música na internet, e principalmente o debate sobre autoria, acesso e autonomia, tudo isso continua na pauta do dia.
Quando Geraldo Bittencourt fala, em seu texto sobre o Festival de Verão de Salvador, que trazer três artistas internacionais deixou o festival amarrado financeiramente para investir em outros grupos da cena pop nacional, não consegui deixar de pensar nos artistas brasileiros que são colocados à margem porque não fazem parte de uma cultura de consumo fácil ou aqueles que têm os seus trabalhos artísticos reduzidos a uma fórmula reducionista, que passa a ser copiada sem qualquer reflexão.
O manguebeat que o diga. Quer coisa pior que ver as pessoas definindo manguebeat como uma mistura de rock com alfaia? O que pode ser mais simplista do que isso? Onde ficou a discussão que os grupos levantaram sobre a vida em Recife, o trabalho de Josué de Castro, e o banditismo por uma questão de classe? Tudo isso foi retirado da pauta, ficando apenas a o debate sobre a mistura de rock com alfaia, rock mestiço, rock regional, entre outros.
Por isso que o debate levantado por Luiz Pattoli, que está retornando ao Rabisco, sobre a influência de Chico Science é importante. Ao que ele escreveu eu acrescento as questões acima. No mais, eu e toda a equipe esperamos que vocês gostem da edição. Estamos felizes em voltar ao ar e esperamos não ter mais problemas como este nos próximos cem anos. O bom é que estes dois meses fora do ar nos mostraram, mais do que nunca, o quanto este contato com vocês é importante e acredito que isso vai se manifestar no conteúdo futuro da revista. Um cheiro enorme a cada um de vocês.
P.S – Um obrigado especial a Janine Silveira, que atualizou a página; a Max Sachetti, que ajudou no que foi possível no começo desta agonia; a Marcio Caparica, um dos criadores desta revista, que mesmo dois anos depois de ter deixado o projeto, continua sempre apoiando quando nós precisamos. Ao Poliano, que nos acompanhou até fevereiro, muita força e serenidade nestes dias dolorosos. Esperamos a volta dele, em breve.  |