Picosearch

 


Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

23 de a bril a 10 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

COWBOY FORA-DE-LEI
Gravado numa penitenciária, At the Folsom se tornaria o mais célebre álbum de Johhny Cash.
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )

uando era apenas um jovem soldado da Força Aérea Americana, Johnny Cash assistiu a um filme B ligeiramente moralista, intitulado Inside the Walls of Folsom Prison . Das suas lembranças de pracinha em Londisburg, Alemanha Ocidental, no começo dos anos 50, o futuro compositor passou a projetar a sua carreira em letras que contavam as vicissitudes da vida observadas pelo ponto de vista do mais fraco.

Daí surgiriam canções que falavam de outsiders , de pátios de trem, de presidiários, vagabundos e toda a fauna da classe trabalhadora ianque: "Dark as a Dungeon", “Cocaine Blues”, "The Long Black Veil", “I Walk the Line” e “Folsom Prison Blues”, entre outras. Além disso, Cash se tornou célebre ao amalgamar ao estereótipo do ingênuo trovador de temas country uma imagem peculiar, típica de astros do rock, vestindo-se quase sempre de preto. Por detrás dos óculos escuros, pensava-se que havia um célebre ex-meliante, cujas canções apenas aumentavam este mito do cowboy fora-da-lei.

Embora tivesse problemas recorrentes com a Justiça, Johnny foi um “ habitué” de penitenciárias. Mesmo assim, tinha milhões de admiradores no sistema prisional. E além das cartas de histéricas e ululantes bobbysockcers , muitos dos seus missivistas viam o sol nascer quadrado: ele se identificava com eles e a recíproca era verdadeira, e amiúde ele costumava fazer récitas para condenados em todo o país.

Em fins de 1967, “JR” escolheu como símbolo de sua reabilitação na luta contra as drogas um concerto na mesma penitenciária do filme, que fica em Sacramento, Califórnia, e se tornou conhecida por abrigar Charles Mason (!). A idéia foi prontamente rechaçada pelos executivos da Columbia, sua gravadora. Um dos biógrafos de Cash, Michael Streissguth, editou um livro, intitulado The Making of a Masterpiece , onde conta a via crucis que o compositor singrou até levar o concerto para o disco (parte da história aparece no filme I Walk the Line ).

Streissguth revela que Clive Davis, presidente do selo, achava que aquilo iria acabar com a quase combalida carreira de Johnny. Outros foram além, e queriam que ele fizesse como os Byrds, e eletrificasse o seu country , para tentar aliciar um outro tipo de público, mais voltado para o glamour do psicodelismo da moda flower power . Ele bateu pé, e decidiu arcar com todos os custos para a gravação — equipamento, músicos, tudo. A Columbia, porém, cedeu o desassombrado produtor Bob Johnston (especialista na seção de country, já havia trabalhado com outros malucos antes, como Dylan em Blonde On Blonde ) para as sessões.

Uma das histórias curiosas do disco gira em torno de um interno, chamado Glen Sherley, que havia composto uma canção. Cash ouviu-a através do capelão de Folsom (reverendo Gressett), na noite anterior ao concerto, realizado dia 13 de janeiro de 1968. Ele virou-se para JR e disse:

— John, eu quero que você ouça isto, foi escrito por um condenado a cinco anos por assalto à mão armada, e ele me pediu para te mostrar. Eu vi que você está ocupado, mas se você puder dizer amanhã que pôde ouvi-la, eu e ele ficaríamos imensamente agradecidos — disse o capelão.

— Você tem um gravador? — replicou Cash.

Um convidado, Gene Beley, e um repórter decidiram levar um gravador de rolo para registrar o show. Como todos tinham tempo — já que os músicos viajavam sob a neve (o Tennesee Three, mais June Carter e Carl Perkins), de Nashville até Sacramento, ele fez uma demo e decorou a canção.

Meu corpo pode estar entre as peredes de Folsom,
Mas o Criador já libertou meu espírito...,

Cash ficou sério. A música enchia o ambiente. De absorto, logo ele esboçava um sorriso entusiasmado — certamente lembrando dos tempos em que cantava gospel .Há uma capela de rochas aqui em Folsom

Uma casa de graças nessa caverna de pecados,
Você pode pensar que o Senhor tem um lugar aqui em Folsom,
Mas ele já salvou milhões de almas de homens perdidos.

Depois de ouvir e reouvir “Greystone House”, ele disse: “isso tem que sair em compacto e eu quero gravá-la na récita de amanhã”. Então ele se debruçou diante de uma mesa e anotou a letra no bloco de papel, enquanto batucava a letra com a caneta.

No dia seguinte, Cash vestia uma jaqueta azul e botas de rancheiro, quando viu Bob Johnston.

— Você é o produtor?

— Sim, é o que eu pretendo ser — riu Bob. Ademais, você tem alguém que o apresente no palco?

— Bem, acho que vou me apresentar eu mesmo!

Excelente, cara! Vai lá e diga: “olá, meu nome é Johnny Cash”. Eles vão ficar muito doidos!

Além dos internos, o resto de seu público também ficou. Tanto que At the Folsom se tornou um best-seller além das expectativas da Columbia, chegando junto aos Beatles na parada de sucessos. Porém, o disco levou algum tempo para ser lançado: os produtores achavam que versos como “I shot a man in Reno / Just to watch him die” não cairiam bem num momento em que a América pranteava a morte de Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy, e segurou o lançamento do álbum por seis meses.

Sobre a importância do disco no âmbito dos anos 60, Michael Streissguth entende que o trabalho ao vivo de Cash pode entrar no cânone dos grandes discos da década, representado por ícones como Beach Boys ou Beatles. Para sustentar a sua tese, o autor insiste que muitos preferiram entender os sixties como uma época de reinvenção e experimentalismo, ao passo que valores como o humanitarismo e a solidariedade — como no caso de Luther King, Medgar Evers ou Dorothy Day, por exemplo — foram colocados em segundo plano.

Para Streissguth, ao representar a crônica da população menos assistida e a dos vencidos da vida e os desvalidos, Cash se insere na segunda fila. “ Folsom Prison representou aquela realidade social melhor que um caleidoscópio colorido”, diz. De acordo com ele, o disco se inseriu nos 60 despretensiosamente à sua maneira, resolvendo-se no âmbito daquela década “num momento de reestruturação de uma nova hierarquia social e política”.

Antes de análises e das palavras, contudo, vem a música. Controverso e quase um símbolo pop em um meio em que a maioria dos intérpretes era considerada caipirões simplórios, Cash se emerge como um rockstar e, ao mesmo tempo, um herói da classe trabalhadora. Nenhuma platéia podia melhor franquear esse título a ele, a não ser a dos detentos de Folsom Prision: a integração entre os músicos e a platéia é surpreendente, em matéria de cordialidade e empatia.

A atual versão em CD corrige erros de edição do lançamento de 1968. Porém, o disco digital lançado em 2000 ainda não contém todo o concerto, embora traga mais faixas gravadas naquela noite. Pelo menos quatro faixas não aparecem no relançamento, são elas “I'm Not in Your Town to Stay” “I've Got a Woman”, “Long Legged Guitar Picking Man” (que ele gravaria com June Carter, no seu trabalho seguinte) e uma versão alternativa de “Greystone Chapel”.