COWBOY
FORA-DE-LEI
Gravado numa penitenciária,
At the Folsom se tornaria o mais célebre
álbum de Johhny Cash.
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br
)

uando era apenas um jovem soldado da Força
Aérea Americana, Johnny Cash assistiu a um filme
B ligeiramente moralista, intitulado Inside the Walls
of Folsom Prison . Das suas lembranças de
pracinha em Londisburg, Alemanha Ocidental, no começo
dos anos 50, o futuro compositor passou a projetar a sua
carreira em letras que contavam as vicissitudes da vida
observadas pelo ponto de vista do mais fraco.
Daí
surgiriam canções que falavam de outsiders
, de pátios de trem, de presidiários,
vagabundos e toda a fauna da classe trabalhadora ianque:
"Dark as a Dungeon", “Cocaine Blues”, "The
Long Black Veil", “I Walk the Line” e “Folsom Prison
Blues”, entre outras. Além disso, Cash se tornou
célebre ao amalgamar ao estereótipo do ingênuo
trovador de temas country uma imagem peculiar,
típica de astros do rock, vestindo-se quase sempre
de preto. Por detrás dos óculos escuros,
pensava-se que havia um célebre ex-meliante, cujas
canções apenas aumentavam este mito do cowboy
fora-da-lei.
Embora tivesse problemas recorrentes com
a Justiça, Johnny foi um “ habitué”
de penitenciárias. Mesmo assim, tinha milhões
de admiradores no sistema prisional. E além das
cartas de histéricas e ululantes bobbysockcers
, muitos dos seus missivistas viam o sol nascer quadrado:
ele se identificava com eles e a recíproca era
verdadeira, e amiúde ele costumava fazer récitas
para condenados em todo o país.
Em fins de 1967, “JR” escolheu como símbolo
de sua reabilitação na luta contra as drogas
um concerto na mesma penitenciária do filme, que
fica em Sacramento, Califórnia, e se tornou conhecida
por abrigar Charles Mason (!). A idéia foi prontamente
rechaçada pelos executivos da Columbia, sua gravadora.
Um dos biógrafos de Cash, Michael Streissguth,
editou um livro, intitulado The Making of a Masterpiece
, onde conta a via crucis que o compositor
singrou até levar o concerto para o disco (parte
da história aparece no filme I Walk the Line
).
Streissguth revela que Clive Davis, presidente
do selo, achava que aquilo iria acabar com a quase combalida
carreira de Johnny. Outros foram além, e queriam
que ele fizesse como os Byrds, e eletrificasse o seu country
, para tentar aliciar um outro tipo de público,
mais voltado para o glamour do psicodelismo
da moda flower power . Ele bateu pé, e
decidiu arcar com todos os custos para a gravação
— equipamento, músicos, tudo. A Columbia, porém,
cedeu o desassombrado produtor Bob Johnston (especialista
na seção de country, já
havia trabalhado com outros malucos antes, como Dylan
em Blonde On Blonde ) para as sessões.
Uma
das histórias curiosas do disco gira em torno de
um interno, chamado Glen Sherley, que havia composto uma
canção. Cash ouviu-a através do capelão
de Folsom (reverendo Gressett), na noite anterior ao concerto,
realizado dia 13 de janeiro de 1968. Ele virou-se para
JR e disse:
— John, eu quero que você ouça
isto, foi escrito por um condenado a cinco anos por assalto
à mão armada, e ele me pediu para te mostrar.
Eu vi que você está ocupado, mas se você
puder dizer amanhã que pôde ouvi-la, eu e
ele ficaríamos imensamente agradecidos — disse
o capelão.
— Você tem um gravador? —
replicou Cash.
Um convidado, Gene Beley, e um repórter
decidiram levar um gravador de rolo para registrar o show.
Como todos tinham tempo — já que os músicos
viajavam sob a neve (o Tennesee Three, mais June Carter
e Carl Perkins), de Nashville até Sacramento, ele
fez uma demo e decorou a canção.
Meu corpo pode estar entre
as peredes de Folsom,
Mas o Criador já libertou meu
espírito...,
Cash ficou sério. A música
enchia o ambiente. De absorto, logo ele esboçava
um sorriso entusiasmado — certamente lembrando dos tempos
em que cantava gospel .Há uma capela
de rochas aqui em Folsom
Uma casa de graças nessa caverna
de pecados,
Você pode pensar que o
Senhor tem um lugar aqui em Folsom,
Mas ele já salvou milhões
de almas de homens perdidos.
Depois de ouvir e reouvir “Greystone House”,
ele disse: “isso tem que sair em compacto e eu quero gravá-la
na récita de amanhã”. Então ele se
debruçou diante de uma mesa e anotou a letra no
bloco de papel, enquanto batucava a letra com a caneta.
No dia seguinte, Cash vestia uma jaqueta
azul e botas de rancheiro, quando viu Bob Johnston.
— Você é o produtor?
— Sim, é o que eu pretendo ser
— riu Bob. Ademais, você tem alguém que o
apresente no palco?
— Bem, acho que vou me apresentar
eu mesmo!
Excelente, cara! Vai lá
e diga: “olá, meu nome é Johnny Cash”. Eles
vão ficar muito doidos!
Além
dos internos, o resto de seu público também
ficou. Tanto que At the Folsom se tornou um best-seller
além das expectativas da Columbia, chegando
junto aos Beatles na parada de sucessos. Porém,
o disco levou algum tempo para ser lançado: os
produtores achavam que versos como “I shot a man in Reno
/ Just to watch him die” não cairiam bem num momento
em que a América pranteava a morte de Martin Luther
King Jr. e Robert Kennedy, e segurou o lançamento
do álbum por seis meses.
Sobre a importância do disco no âmbito
dos anos 60, Michael Streissguth entende que o trabalho
ao vivo de Cash pode entrar no cânone dos grandes
discos da década, representado por ícones
como Beach Boys ou Beatles. Para sustentar a sua tese,
o autor insiste que muitos preferiram entender os
sixties como uma época de reinvenção
e experimentalismo, ao passo que valores como o humanitarismo
e a solidariedade — como no caso de Luther King, Medgar
Evers ou Dorothy Day, por exemplo — foram colocados em
segundo plano.
Para Streissguth, ao representar a crônica
da população menos assistida e a dos vencidos
da vida e os desvalidos, Cash se insere na segunda fila.
“ Folsom Prison representou aquela realidade
social melhor que um caleidoscópio colorido”, diz.
De acordo com ele, o disco se inseriu nos 60 despretensiosamente
à sua maneira, resolvendo-se no âmbito daquela
década “num momento de reestruturação
de uma nova hierarquia social e política”.
Antes de análises e das palavras,
contudo, vem a música. Controverso e quase um símbolo
pop em um meio em que a maioria dos intérpretes
era considerada caipirões simplórios, Cash
se emerge como um rockstar e, ao mesmo tempo,
um herói da classe trabalhadora. Nenhuma platéia
podia melhor franquear esse título a ele, a não
ser a dos detentos de Folsom Prision: a integração
entre os músicos e a platéia é surpreendente,
em matéria de cordialidade e empatia.
A atual versão em CD corrige
erros de edição do lançamento de
1968. Porém, o disco digital lançado em
2000 ainda não contém todo o concerto, embora
traga mais faixas gravadas naquela noite. Pelo menos quatro
faixas não aparecem no relançamento, são
elas “I'm Not in Your Town to Stay” “I've Got a Woman”,
“Long Legged Guitar Picking Man” (que ele gravaria com
June Carter, no seu trabalho seguinte) e uma versão
alternativa de “Greystone Chapel”. |