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23 de a bril a 10 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

DESAFIO PARA A MÚSICA BRASILEIRA
Em sua primeira edição, a Feira Música Brasil recebeu a missão de criar novos caminhos para a democratização da música.
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )
Fotos: Ana Lira - Arte: Hugo de Lima

ntre os eventos musicais que ocorreram em Recife, durante o mês de fevereiro, a realização da primeira edição da Feira Música Brasil mereceu atenção especial. O encontro, promovido pela Associação Brasileira de Música Independente (ABMI), com patrocínio da Petrobrás, do Ministério da Cultura (MinC) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e diversas outras parcerias, como a do Porto Digital, trouxe boas perspectivas e idéias para a área musical, embora tenha deixado muitas questões que precisam ser debatidas e aprofundadas antes e durante a próxima edição, que deve ocorrer em 2008, ainda na capital pernambucana.

Os principais objetivos do evento foram ampliar os negócios e discutir o atual panorama da música brasileira, buscando soluções que dessem visibilidade à produção nacional dentro e fora do país. “A música brasileira é uma das maiores forças da música mundial. Nós todos sabemos disso, que entre as maiores forças da economia da cultura, a música é a que tem o espaço mais consagrado. (...) Além de um ativo cultural e social, ela é um ativo econômico, geradora de empregos, de negócios e de divisas”, disse o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, na coletiva de abertura, trazendo uma noção do ambiente que permearia todo o encontro.

Para concretizar isso, os organizadores dividiram as atividades da Feira Música Brasil em quatro setores: a Feira de Negócios , onde foram realizadas as reuniões entre investidores e os grupos interessados em mostrar produtos e serviços; o Porto Musical , encontro criado em 2005 com conferências de música, que este ano foi anexado ao evento; a Feira de Produtos , local em que discos, instrumentos musicais, publicações e resultados de diversos projetos foram disponibilizados para o público; e os shows e mostra de clipes, que aconteceram sempre na hora do almoço e à noite em vários espaços do Bairro do Recife.

Investimentos - Depois de cinco dias de interações entre pessoas de vários lugares do mundo, foi possível ter uma idéia do que se concretizou e do que precisa ser melhorado na Feira Música Brasil. Na área financeira, o resultado parece ter sido positivo. As rodadas de negócios, que envolveram o Sebrae, devem movimentar cerca de 8 milhões de reais ainda este ano. Os dados do BNDES, por sua vez, mostraram que, entre investimentos e financiamentos, o banco deve liberar 13 milhões de reais para a área de música, no Brasil.

Os números deixaram diversos produtores e representantes de gravadoras animados e o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, ao final do evento, distribuía sorrisos e elogios aos presentes. “Eu acredito que estamos vendo nascer uma nova forma de conceituar a música brasileira (...). A Feira é o ponto inicial das ações de um programa que lançamos o ano passado e será uma das principais áreas de ação deste novo ciclo do Ministério da Cultura. Trata-se do Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura (Prodec). A Feira deverá tornar-se um dos pontos-chave do estímulo à economia do setor, no sentido de mais qualidade e quantidade dos negócios no setor na música brasileira e mais inclusão da diversidade cultural brasileira nesta economia”, afirmou o Ministro na conferência de encerramento.

O que precisa ser acompanhado, de agora em diante, é o processo de concretização dessas perspectivas de investimento, ou seja, quanto desses 21 milhões de reais será traduzido mesmo em benefícios para a cadeia da música brasileira – que inclui do artista ao consumidor. Se o Ministério da Cultura, ao apoiar e estruturar um encontro deste porte, visava ampliar o leque de artistas, gravadoras e projetos favorecidos com oportunidades de desenvolvimento e criar um novo modelo de gerenciamento para os recursos da indústria da música, é preciso garantir que os recursos sejam utilizados mesmo para isso e que a população – e não apenas uma parte dela - possa ter acesso aos resultados.

Intercâmbio – Além da área de negócios, as conversas nos corredores e espaços públicos da Feira Música Brasil também trouxeram bons resultados. Houve troca de informações, referências e a ampliação dos debates iniciados em cada uma das conferências que fizeram parte do Porto Musical . Estes momentos de intercâmbio proporcionaram interação, inclusive, com os artistas que não tiveram dinheiro para efetuar a inscrição da Feira Música Brasil . Estes, por sinal, aproveitavam para trocar discos e contatos com outros cantores, produtores e representantes de gravadoras e projetos governamentais que montaram seus estandes no evento.

Algo que chamou atenção no evento foi que a quantidade de artistas que circulavam fora dos espaços fechados de conferências e negócios era muito maior que o de músicos, cantores e compositores presentes. A sensação que dava era de que ou o encontro havia sido mesmo estruturado para o debate com representantes de gravadoras, produtores e agências ou o preço das inscrições, entre meio salário mínimo, sem o curso de direitos autorais, e cerca de um salário mínimo, com o referido curso, não foi tão atrativo para a maioria dos artistas, especialmente as bandas, que cederam lugar a quem pudesse negociar pelo grupo todo.

“Para o que está sendo oferecido, como proposta de debates, eu achei caro. Parece que o que menos interessa aqui é o artista”, dizia um jovem músico, que preferiu não ser identificado. Assim, era possível observar que parte considerável dos artistas que participavam das conferências eram aqueles que se encaixavam na visão de Brad Powell, da Calabash Music, ou seja, os que eram “seus próprios selos” - produziam, gravavam, distribuíam e divulgavam os trabalhos de sua autoria. Assim, os intervalos das conferências viravam uma feira de intercâmbio de discos independentes para grupos , produtores e a imprensa, fora do espaço dedicado à Feira de Produtos.

Independência – A Feira de Produtos , por sinal, foi responsável por trazer boas novidades nas áreas de suporte e veiculação da música, como cartões digitais, além de discos e instrumentos para vender. O único problema é que a variedade foi pequena. Os instrumentos de percussão dominaram, mas quem procurou por instrumentos de corda, como baixo e guitarra, não encontrou, e os de sopro vieram apenas em formato mais artesanal, como o pífano. Outra ausência bastante notada no espaço foi a de revistas e zines especializados na área de música. Foi esquisito, mas não havia edições para vender. O que se viu foi apenas umas ou duas publicações que, na verdade, eram catálogos e as representantes informavam a produtores, artistas e representantes de rádios e televisões os procedimentos para receber ou anunciar.

Contudo, para quem queria conhecer algo diferente, o espaço propiciou esta oportunidade. Bahia e Alagoas montaram estandes que reuniram discos de diversos artistas e projetos. O repentista e compositor Bule Bule, por exemplo, esteve acompanhando as atividades no estande baiano e pôde autografar os discos para os fãs do seu trabalho. Nos estandes de Pernambuco, alguns músicos tiveram acesso a instrumentos de corda e percussão que não chegam com facilidade a outros estados, e nos estandes dedicados a projetos sociais, representantes de tribos indígenas do estado exibiram instrumentos e discos para vender.

Os fãs de rock independente também fizeram a festa no espaço dedicado a selos como a Monstro Discos e a Deck Disc, que trouxeram trabalhos de vários grupos para vender, como Teresa Cristina e o Grupo Semente, Mula Manca e a Fabulosa Figura, entre outros. Também era possível encontrar nomes consagrados da música nacional, como Maria Bethânia, Tom Jobim e Sivuca, que tiveram seus discos vendidos nos estantes dos selos Biscoito Fino e Kuarup. Para quem achava que os artistas vistos como clássicos estavam em grande gravadoras, olhar o catálogo da Biscoito Fino, por exemplo, é ver que de Leila Pinheiro a Olívia Hime, boa parte trilhou para o rumo da produção independente.

Casa Brasil - No entanto, uma das grandes vedetes da Feira de Produtos foi o estande do projeto Casa Brasil, que montou um telecentro com computadores conectados à internet banda larga, para acesso gratuito, usando software livre. Entre os bons sistemas operacionais conhecidos no meio, como o Kurumin e o Ubuntu, os micros estavam equipados com o Sacix, que é um sistema operacional desenvolvido para este tipo de projeto, mas que pode ser utilizado por qualquer pessoa, bastando baixar da internet. Os computadores do Casa Brasil foram bastante procurados e não havia aquele esquema de lan house , com tempo previamente determinado. Era sentar e utilizar o serviço de graça. Para quem ainda estava na época do Windows, os monitores do projeto davam instruções que como utilizar o programa, que é bem simples de manusear.

Possíveis Melhorias – Porém, nem todos os espaços da Feira Música Brasil tiveram seus potenciais plenamente aproveitados. Por exemplo, a Mostra de Documentários , que era gratuita e aberta ao público, quase não foi vista. Em três momentos de exibição, havia apenas três pessoas presentes durante a sessão no Auditório Música Brasil : esta repórter que vos fala, o monitor e o operador de som. O que houve, ninguém sabe ao certo. Algumas pessoas da própria organização avaliaram que o fato do auditório ser localizado em um espaço interno do encontro – enquanto o acesso a Feira de Produtos era por fora – deu a impressão de que para ver a seleção feita por Roberto Belinger, diretor de A Pessoa É Para o Que Nasce , era preciso ter credencial. Resultado: toda uma seleção de bons documentários, como Os Doces Bárbaros , O Som da Rua , Meu Tempo É Hoje e O Mundo É Uma Cabeça não foi usufruída como deveria.

Pode-se dizer o mesmo dos trabalhos desenvolvidos pelos Pontos de Cultura. Sendo este projeto uma espécie de “menina dos olhos” do Ministério da Cultura, colocar os discos e documentários produzidos no estande do MinC junto com outras diversas iniciativas da pasta governamental foi desperdiçar uma grande oportunidade. Existe uma lógica interessante por trás do projeto Cultura Viva , onde se encaixam os Pontos de Cultura , e o que não faltou no encontro foi gente que pudesse falar sobre o assunto, tanto do ponto de vista da produção quanto do acompanhamento técnico. O trabalho e os resultados mereciam um estande extra, com divulgação, além de uma mesa de debates específica sobre o tema.

Por sinal, este é um ponto que precisa ser realmente pensado pela organização da Feira Música Brasil , para a edição 2008: uma rodada de palestras e debates fora do ambiente do Porto Musical , que não seja voltada apenas para projetos e interesses institucionais, como foram as sessões abertas do Ministério da Cultura. Talvez seja o caso de pensar em uma série de conferências dentro do projeto Cultura e Pensamento , que pudesse se integrar à programação do evento com o objetivo de contemplar artistas e o público mais geral. Seria uma idéia, inclusive, para combater o esvaziamento da Feira Música Brasil , como ocorreu no último dia, quando as palestras do Porto Musical encerraram.

Se a organização do evento, contudo, não quiser disputar espaço de conferências com o Porto Musical , poderia pensar, talvez, em uma iniciativa que é desenvolvida pelo Cine PE – Festival do Audiovisual, que promove conversas abertas ao público com os cineastas que tiveram os filmes exibidos no festival. Se no dia seguinte a cada série de shows, os artistas pudessem participar de mesas redondas para falar de seus trabalhos e da experiência que têm com a música, a presença deles na feira pode ser muito mais efetiva, que apenas pisar no palco por cinqüenta minutos, durante todo o evento. Outra idéia seria realizar a Mostra de Documentários sobre música e promover conversas com a produção ou os próprios artistas e projetos documentados. E assim por diante...

Rumo a 2008 - A primeira edição da Feira Música Brasil foi bastante proveitosa, mas a iniciativa valeu mais pelo que ela pode ser no futuro, a partir do que apresentou durante os cinco dias em que Recife foi a Capital Brasileira da Música. Talvez os focos precisem ser mais bem definidos para que o potencial que os espaços paralelos oferecem sejam aproveitados de verdade, por quem precisa e deve ter acesso à cultura e, em especial, à música – em suas várias nuances. Do contrário, o discurso consciente de Gilberto Gil, no último dia do evento, sobre democratização da cultura para a população, especialmente os mais pobres, e possibilidades de intercâmbio para o crescimento da área no Brasil, pode continuar restrito a poucos – independentes ou não -, ou pior, ficar apenas nos projetos e estudos apoiados com dinheiro público pelas entidades e empresas governamentais.

FEIRA MÚSICA BRASIL ESPECIAL

MÚSICA É INFORMAÇÃO - Paul Miller discute o processo criativo na sociedade digital e a necessidade de atualização das leis de direitos autorais.

COOPERATIVAS DE CONHECIMENTO - H.D Mabuse discute a importância do acesso, da autonomia e da autoria na transformação social.

A ERA DE OURO DO VIDEOCLIPE - Alexandre Matias debate as possibilidades criadas pelo barateamento das novas tecnologias em tempos de You Tube.

NOVAS SOLUÇÕES E OS MESMOS DILEMAS - Peter Jenner aposta no trabalho em conjunto como uma das formas de solucionar os desafios trazidos pela música digital.

PÚBLICO E INDEPENDENTE - A relação entre o sistema público de radiodifusão e a difusão da música independente foram os temas da conferência mais longa do Porto Musical.

INDEPENDÊNCIA SOLIDÁRIA - Ministério do Trabalho, Conselho Nacional de Economia Solidária e Festivais Independentes fazem parceria para melhorar relação de trabalho na sociedade.

“UMA FORMA DE MUDAR O MUNDO É SABER OS CÓDIGOS” - O pesquisador H.D Mabuse mostra que conhecimento, acesso e autoria são pilares para a transformação social.

“NÃO É PROPOSTA. É NECESSIDADE” - Produção colaborativa incentiva novos espaços de circulação de informação e recebe apoio do Ministério da Cultura.

“A MINHA RÁDIO É O MEU SITE” - O cantor e compositor Eduardo Kallil chama atenção na Feira Música Brasil distribuindo discos em branco para o público.

“O PÚBLICO FEZ O TEATRO MÁGICO” - Produtor do grupo paulista fala sobre a ajuda dos fãs e a necessidade de fortalecer o cenário independente.