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23 de abril a 10 de maio de 2007

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DOCE E MULTILATERAL
Candy, de Neil Armfield, é um dos melhores filmes sobre drogados desde a década de 1990.
por Eduardo Carli de Moraes – educmoraes@hotmail.com

ilmes sobre viciados em drogas pesadas sempre correm muitos riscos - o que os torna itens de confecção delicada e sempre passíveis de serem vítimas das mais variadas críticas e de suscitarem uma série de polêmicas. Há, por exemplo, o perigo de acabar fazendo um elogio semi-descarado ao comportamento auto-destrutivo e niilista, retratando a vida junkie como se fosse a coisa mais cool e adorável deste mundo. Há o perigo de soar “unilateral", destacando só o fator "trágico" e destruidor das drogas, sem nunca citar os prazeres que elas possibilitam e o potencial para uma transformação de consciência positiva. E há o perigo, no outro extremo, de cair num discurso moralista que só sabe proibir, dizer que não pode e retratar uma "juventude perdida" que estaria precisando de disciplina e palmatória...

Da década de 1990 pra cá, principalmente, uma boa leva de filmes envolvendo junkies chegaram às telas conseguindo driblar esses erros e acabaram virando semi-clássicos do cinema contemporâneo: a clássica sátira grotesca que é o Trainspotting de Dayne Boyle, a tragédia modernosa e epifânica de Réquiem Para um Sonho , de Darren Aronofsky, a crônica dark e realista do Drugstore Cowboy de Gus Van Sant, entre outros menos impressionantes... Apesar de serem três filmes importantes, marcos do cinema moderno, pode-se fazer certas objeções a cada um deles: os personagens de Trainspotting pareciam-se mais com personagens caricaturais, saídos de alguma HQ contracultural, do que pessoas reais; Réquiem Para Um Sonho exigia uma mente disposta a ser bombardeada por aquele amontoado (às vezes excessivo) de pirotecnias e pirações visuais; e o Drugstore Cowboy pode ser considerado um filme "frio" demais, o que impossiblita uma ligação afetiva ou de identificação com aqueles personagens.

       Este Candy , primeiro filme do diretor australiano Neil Armfield, que estréio nos cinemas brasileiros em Março (tendo também sido exibido na 30ª Mostra de Cinema de São Paulo ), pode até não chegar a ser um primor de originalidade, mas pelo menos merece um lugar ao lado dos três citados como um dos melhores "filmes sobre drogados" que já foram feitos - principalmente por dar ao espectador um casal junkie memorável, Dan & Candy, que parecem gente de verdade, quase que uma versão reloaded de Sid & Nancy (mas sem o punk rock como trilha sonora).

       "Quando você pode parar, não quer; quando quer parar, não pode..." - é o que diz o personagem de Geoffrey Rush ao casal protagonista do filme, em uma frase que serve bem para descrever o dilema de todos os junkies. E é nessa armadilha que eles vão cair: a ilusão de que conseguiram atingir um paraíso terreno através dos entorpecentes vai fazer com que eles continuem usando drogas, mais e mais, até que percebam, tarde demais, que o paraíso se transformou em uma prisão infernal... Como quem lê um romance de William Burroughs, vamos acompanhando a via-crúcis desses dois amantes que, apesar de viverem momentos lindos e idílicos (muito bem simbolizados por cenas maravilhosas filmadas debaixo d'água, quando eles parecem dois bebêzinhos se deliciando em um oceano de saborosas sensações...), têm que passar por todos os imensos sofrimentos, privações e tormentos da vida junkie.

Sim, é a velha história contada mais uma vez: dois jovens que se tornam escravos das substâncias químicas, que supostamente deveriam trazer a libertação, vão sendo conduzidos por ela - como marioenetes na mão da Deusa Heroína... - a "fazer bobagem". O filme se concentra na narração das aventuras e desventuras do casalzinho Dan & Candy enquanto o par faz todo o possível e o imaginável para conseguir aquelas substâncias preciosas - que os seus corpos já consideram tão vitais quanto água ou oxigênio. E vocês sabem: para um junkie não existe lei nem moral, não existem limites nem proibições: o único poder a que respondem é o mandamento do corpo sedento que exige, que berra, que suplica por uma agulha na veia. E eles, claro, farão de tudo - incluindo trapaças, roubos e prostituição - para conseguir droga, enquanto tentam manter muito à custa a fachada de marido e mulher "normais" e saudáveis, principalmente tentando enganar os pais da moça. Apesar de uma certa previsibilidade (pelo menos para quem tem consciência de qual é o percurso natural percorrido por todo junkie: sempre em direção ao inferno...), dá para assistir Candy com muito gosto.

       Só como comédia, Candy já vale a sessão: o filme consegue ser cômico em vários momentos, mostrando as estratégias espertalhonas que os dois amantes usam pra faturar grana fácil (indo vender a máquina de lavar alheia, escondendo óculos de sol em copos de refrigerante e passando trotes para descobrir senhas de cartão de crédito, por exemplo). Mas o filme não fica empacado na comédia levinha e visita a tragédia e o drama em um pulo - e vai fundo.

       Consegue realmente atingir alguns extremos de sofrimento que deixam o espectador de coração apertado - especialmente a cena em que Candy tem uma overdose e recebe uma injeção de sal na veia, no maior improviso; a cena que envolve um feto humano abortado sendo acariciado; e os dias e dias de convulsões, calafrios e vomitação quando os dois passam pelo tormento intolerável de uma crise de abstinência que impõe a si mesmos... Os espectadores que se sensiblizam fácil demais, pois, estejam de sobreaviso: há em Candy certos momentos que definitivamente não são para os estômagos sensíveis...

O filme vale também pelo estudo de personagens que faz – não é uma obra que coloque a droga como verdadeiro protagonista, mas sim as pessoas que acabam enredadas no vício e na perdição. A Candy que dá nome ao filme consegue ser uma personagem bem irritante, muitas vezes - e isso não por falta de talento da atriz Abbie Cornish, que manda muito bem, mas por ser uma menininha mimada e temperamental, filha única de uma família burguesa, acostumada a ser paparicada e a receber de mão beijada tudo o que quer. Manipuladora e cínica, explode muito fácil em histerias e crises nervosas, como se estivesse numa TPM full time ...


       Já Dan, o personagem de Heath Ledger (conhecido como um dos caubóis de Brokeback Mountain, de Ang Lee ), é um verdadeiro perdido na vida, sem família, sem trampo e sem rumo; sua vida inteira se resume aos seus dois amores: Candy e a heroína. Ledger, em um de seus melhores papéis, encarna muito bem esse sujeito que, apesar de perdido, consegue continuar sempre gente-boa e sossegado. Depois de ter caído apaixonado por essa loura estonteante e irresistível que é Candy, ele sempre se esforça por não brigar e nunca morder a isca que ela coloca para ele explodir... E olha que ele precisa ter um sangue-frio imenso para não estourar de raiva com todas as encheções-de-saco da garota, que muitas vezes trata-o como lixo: taca cinzeiros de vidro maciço na sua cabeça, quase rachando-lhe o crânio, e o trai com a maior indiferença pelos sentimentos dele...

Que as coisas acabassem mal era bem previsível, desde o início, e até mesmo o nome dos três "capítulos" do filme - "heaven", "earth" e "hell" - já dão a dica de que o ônibus está descendo a encosta... De modo que não há muito problema em discutir, aqui, alguns elementos do desfecho do filme que são fundamentais para entender o valor da obra (mas, alerta: algumas surpresas do filme vão ser estragadas daqui para frente...)

A maneira como o Nick Armfield finaliza o filme, sem nenhuma grande tragédia melodramática, mas também sem soluções fáceis e convenientes, é muito adequada para dar ao espectador muito o que refletir – e não exatamente sobre a questão do vício a entorpecentes, mas principalmente sobre o relacionamento do casal. Com um pouco de exagero, até daria para fazer uma leitura, ousada mas verossímil, sobre as relações entre a paixão entre Dan e Candy e o vício dos dois à drogas pesadas: o filme deixa no ar a sugestão de que a paixão era também uma espécie de narcótico, que um era viciado no outro de maneira até um tanto doentia e que, talvez, o melhor seria, em um relacionamento desse tipo, a separação... Talvez por isso Dan não se empolgue muito quando vê que Candy ressurge das cinzas do vício, depois de um período na reabilitação, limpinha e saudável, para visitá-lo. E nós, espectadores, ficamos atônitos, a nos perguntar: por que, justo nesse momento tão alegre de reencontro, ele meio que dá o ultimato ao relacionamento?

Uma das interpretações possíveis é a de que Dan estivesse tentando salvar Candy de um imenso perigo: ele mesmo. E talvez a única solução para esse “outro vício” era a mesma que se usa para todos os vícios: um rompimento brusco (que lembra vagamente aquele de outro grande filme, E Tua Mãe Também ..., do mexicano Alfonso Cuarón). Dan sabia que tinha feito mal para Candy, como um veneno ou uma comida que dá alergia, e talvez se sentisse até um tanto culpado por tê-la levado para o "mau caminho", por tê-la iniciado nas drogas pesadas, por tê-la "puxado" para o seu mundo... E então se decide, ao reencontrá-la, "salvá-la".

       Em uma cena sublime, os dois amantes estão sentados frente a frente em uma mesa de um restaurante vazio, mas a desolação ao redor deles é só um reflexo da desolação dentro deles e entre eles. As palavras parecem engasgadas na garganta dos dois e o diálogo se dá mais através dos corpos, dos toques, dos beijos, dos olhares, das lágrimas (algo que lembra o plano final do Marcas Da Violência , do Cronenberg, também marcado por um "diálogo silencioso" mostrado com muita sutileza e sensibilidade). São os rostos que conversam e que trocam mensagens: são os sinais na face destruída e cansada dele, aqueles olhos margeados pela roxidão das olheiras, que "confessam" a Candy e ao mundo que ele prossegue na vida junkie. E são aquelas lágrimas e aquele "there's no turning back" que ele diz, balbuciado, que mostra que ele não se vê com chance alguma de se reerguer...

       E Candy, depois da perdição e da loucura, reaparece naquele restaurante decadente tendo voltado a ser a loira lindinha e radiante, com jeito de top model, limpinha das drogas, de volta ao modo burguês de ser... E é como se Dan lhe dissesse, só com os olhares, com uma tristeza abissal misturada os restos de amor que ainda tem por ela: "Vai embora, Candy... Vá embora que tudo o que eu consigo fazer é te puxar para baixo, para o meu buraco... Some daqui, amor, que eu só posso te estragar..." Prefere não possui-la, abrir mão dela, deixá-la voar, e isso por saber que, por mais que a ame, ele não vai lhe trazer nenhum bem.

       Ou talvez não seja nada disso. Talvez a coisa não tenha nada a ver com "generosidade" ou preocupação com a felicidade dela. Pode ser que tudo o que ele queria, ao dizer esse doloroso adeus, era superar outro de seus vícios: uma linda menina loura com nome açúcarado, de quem seu corpo tinha mais necessidade do que de água ou comida, e que agora era preciso, a duras penas, aprender a viver sem...