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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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23 de abril a 10 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

ENCANTO DESCONHECIDO
Rec Beat encerra sua décima segunda edição mostrando uma boa produção da música nacional.
por Ana Lira(analira@rabisco.com.br)

uando fizemos a primeira matéria sobre a última edição do Rec Beat que ocorreu em Recife, mostramos que, na coletiva de imprensa, produtor executivo, Antonio Gutierrez, havia dito que as bandas deveriam participar de um festival por mérito próprio – e não para cumprir uma meta de cotas -, e por isso ele selecionou mais artistas de vários outros estados brasileiros para compor a programação, que este ano privilegiou grupos que nunca participaram do evento.

É preciso dizer que o produtor acertou na escolha: o Rec Beat deste ano trouxe um bom elenco de grupos musicais que, apesar do talento, não têm suas músicas veiculadas pela maioria das rádios brasileiras – que, por sinal, andam com uma programação cada vez mais deprimente –, nem estão na televisão e precisavam mesmo daquele espaço para ser vistos por cerca de doze mil pessoas, público que freqüentou o Cais da Alfândega durante cada noite dos quatro dias do festival.

O fato dos artistas terem sido prestigiados por cerca de 50 mil pessoas, em quatro dias, disputando espaço com o restante da vasta programação desenvolvida pela Prefeitura do Recife para comemorar o que se diz ser o Centenário do Frevo – embora haja registros de festas que envolvem o frevo há cerca de 150 anos, como mostra uma nota de 1856, publicada no Diário de Pernambuco – prova que o festival tem algo diferente. Basta dizer que no segundo dia do evento, em que tocaram grupos como Rivotrill e Isca de Polícia, o Pólo Multicultural, localizado no Marco Zero, há apenas uma avenida de distância, recebia shows do porte de Nação Zumbi e Lenine.

Boas surpresas - O Rivotrill, por sinal, foi uma das melhores surpresas do Rec Beat . O trio de música instrumental pernambucano, formado por Júnior Crato, Rafael Duarte e Lucas dos Prazeres, deixou a platéia boquiaberta durante a meia hora em que pisou no palco. Os rapazes usam instrumentos de sopro, percussão, baixo e teclado, como base para desenvolver melodias que trazem influências do jazz, da cultura afro-brasileiras e da música erudita. O resultado é uma música gostosa de ouvir e uma apresentação difícil de esquecer.

Durante o tempo em que estiveram no palco, os integrantes foram bem aplaudidos pelo público e sustentaram todo o show com músicas próprias, mostrando uma sincronia perfeita entre eles e uma boa integração entre as influências que eles escolheram para compor o trabalho do grupo. Para um grupo formado há apenas um ano, e desconhecido da grande cena da música pernambucana, o Rivotrill mostrou na apresentação uma maturidade que poucos músicos com menos de trinta anos possuem.

Mais uma boa banda recifense, fora os grupos que são conhecidos na capital pernambucana, como Parafusa e Mellotrons, foi a atração de estréia do Rec Beat : Dj Big & Confluência. O trabalho do grupo tem como base a cultura hip hop, que tem no rap uma de suas formas de expressão. Contudo, Dj Big & Confluência decidiu inovar e depois de um tempo seguindo a linha tradicional, trouxe para a levada do rap a rima da poesia popular – o show teve participação especial, inclusive, de Ivanildo Vila Nova, um dos maiores poetas populares vivos da atualidade. Para alguns, isso pode soar estranho, mas o resultado funcionou muito bem porque os integrantes não juntaram as duas vertentes poéticas de maneira casual, como uma simples mistura para pular e enganar os ouvidos menos atentos, mas estudaram os elos que elas possuíam.

Talvez o nome Confluência, embora exista antes do grupo ter adotado a união do rap com a cantoria, seja a melhor forma de definir o trabalho que eles desenvolvem. De fato, o som tem uma unidade, uma independência e marca bem o que eles querem – que o rap desenvolvido pelo grupo tenha a cara da região em que vivem. Tudo isso ganha corpo com o acompanhamento feito por Dj Big, que foi um dos fundadores do grupo. A apresentação no Rec Beat , no entanto, marcou o fechamento de um ciclo no grupo, porque Big vai morar na Alemanha. O pessoal ainda não sabe quem vai ficar no lugar dele, mas se espera que o andamento do trabalho não seja afetado, uma vez que eles estão em processo de gravação do segundo disco.

Outros grupos que agradaram na atual edição do Rec Beat vieram, coincidentemente da mesma cidade, Cuiabá, no Mato Grosso. Vanguart e Macaco Bong têm estilos completamente diferentes e não tocaram na mesma noite, mas deixaram o público igualmente impressionado. Os garotos do Vanguart subiram ao palco no segundo dia do Rec Beat trazendo uma sonoridade estruturada no folk. Tocaram canções próprias em inglês e português, como a inédita “Enquanto isso, na lanchonete”, e fizeram a festa da platéia com um estilo que evoca o lado mais alegre do folk – pelo menos nas melodias.

Os momentos mais eufóricos do show do Vanguart, no entanto, vieram quando os integrantes tocaram “Dig a Pony” e “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Havia gente pulando e gritando na frente do palco. Mais um instante especial ocorreu quando eles tocaram Femme Fatale, do Velvet Underground. O grupo, no entanto, não perdeu a oportunidade de divulgar bastante o próprio trabalho, tocando, inclusive, o single do próximo álbum deles “Rail silver) e pedindo que o pessoal visitasse a partir de março, o site brasiliense Senhor F, que disponibilizará a canção.

O Macaco Bong teve uma responsabilidade maior: tocou no último dia do festival, antes da apresentação de Tom Zé, para um público que esperava desde cedo para ver o cantor baiano. Bruno Kayapy, Julio Custódio e Ynaiã Benthroldo subiram no palco mais de meia-noite e colocaram a platéia diante de meia hora de rock instrumental. O risco era grande, mas o talento dos integrantes hipnotizou o público, que aplaudiu ao final de cada música, por mais longa que elas fossem.

O trabalho do Macaco Bong consiste em pegar referências que vão do jazz ao hardcore e explorar as possibilidades que cada estilo oferece, criando uma sintonia entre eles, como pede a boa música instrumental; mas sintonia aqui não significa aquela coisa bonitinha e sossegada e, sim, algo que pode ser estranho aos ouvidos, mas que musicalmente é interessante e bem feito. É uma experiência transcendente ver a apresentação porque o espectador, em um dado momento, começa a querer ver até onde os rapazes podem chegar e eles sempre surpreendem – ainda mais porque usam apenas guitarra, baixo e bateria.

Apoteose – Os shows mais empolgantes do festival, no entanto, foram os dos grupos Isca de Polícia, Instituto e o do cantor Tom Zé – um dos poucos da programação que se pode dizer que era conhecido nacionalmente. Os dois primeiros fizeram apresentações que visavam lembrar, respectivamente, as carreiras de Itamar Assunção, falecido em 2003, aos 54 anos, e Tim Maia, que faleceu em 1988, aos 56 anos. Artistas da mesma geração, que marcaram a música brasileira.

O Isca de Polícia veio com a formação básica do grupo da década de 1970, incluindo o trompetista Bocato, mas os vocais foram assumidos por Anelis Assunção, filha de Itamar, e a cantora Vange Milliet – e não Vange Leonel, como foi dito na coletiva de imprensa do Rec Beat . As demais cantoras que compunham o grupo, como Suzana Salles e Virgínia Rosa, não vieram a Recife para a apresentação. Todo o repertório apresentado foi composto por Itamar e suas parcerias, como a canção “Dor Elegante”, que tem letra do falecido poeta curitibano Paulo Leminski.

A apresentação reuniu fãs novos e antigos de Itamar Assunção. Um grupo de fãs se aglomerou em frente ao palco levantando uma faixa branca em que estava escrito “Beleléu Forever”, em referência ao legendário disco Beleléu Leléu Eu , de 1980, que segundo o próprio Itamar, em entrevista publicada no site Gafieiras foi um divisor de águas, na época. Além das canções do nego dito, apelido de Itamar Assunção, o Isca de Polícia homenageou os Cem anos de Frevo. Paulo Lepetit compôs uma canção intitulada “Frevo pra Baixo”, que segundo a filha de Itamar as pessoas iriam entender, no final, o motivo do título. O frevinho foi tocado e, então, o grupo pediu para as pessoas decorarem e repetirem o refrão que era “vamos cantar tududu/ tudocomodedonocu /menos eu”.

Precisava dizer algo mais? A brincadeirinha, segundo Anelis Assunção, acabou animando o público, que entre cantar e dar risada, nem percebeu que a apresentação estava chegando ao fim. Para deixar ainda mais saudades de Itamar, Gigante Brasil, na bateria, contemplou o público com uma atuação visceral e com vocais a la nego dito . O apelido de Itamar Assunção, inclusive, leva o mesmo nome da música que encerrou o show curto e especial na segunda noite do Rec Beat .

Se o show do Isca de Polícia trouxe um clima de nostalgia para o festival, o do Instituto, que dedicou toda a apresentação a Tim Maia Racional – que é considera uma das obras mais importantes da carreira do cantor, embora haja quem pense que há discos melhores na carreira de Tim Maia - se assemelhou mais a uma grande festa. Além dos músicos do Instituto, que na verdade é um coletivo e não uma banda propriamente dita, a apresentação contou nos vocais com a presença de B Negão, Thalma de Freitas e o Carlos Dafé, antigo parceiro de Tim Maia em diversas composições e um dos ícones da chamada black music brasileira, além da entrada do cantor pernambucano China, mais para o fim do show.

A apresentação foi memorável. O público cantou e dançou do começo ao fim. Os músicos do Instituto construíram um repertório para ninguém botar defeito e o executaram muito bem no palco. B Negão e Thalma de Freitas dividiram a maioria dos vocais das canções. Ela arrasou em “Bom Senso”, com uma interpretação espetacular, e o vozeirão e a presença de palco dele comandaram a platéia durante todo o show, especialmente quando tocou “O Caminho do Bem”, e o público enlouqueceu pulando e cantando junto. Carlos Dafé presenteou as pessoas com “Imunização Racional”, conhecida popularmente como “Que Beleza” e contou que a inspiração para os versos foi a cidade de Recife, na década de 1970, quando ele e Tim Maia estavam excursionando. O coletivo e seus convidados não tocaram todas as canções dos dois volumes de Tim Maia Racional porque o show durou 50 minutos, mas se dessem teriam tocado e o público acompanharia até sob a chuva forte que ameaçava Recife.

O sinal de chuva torrencial, que começou no dia anterior, se confirmou no dia seguinte, durante a apresentação de Tom Zé. No entanto, nem com o céu desaguando na chamada Veneza Brasileira, o cantor baiano saiu do palco. A platéia ficou junto e a apresentação valeu cada dia de resfriado que pudesse vir depois da quarta-feira de cinzas. A versatilidade do artista e a sua preparação física, para agüentar o pique da apresentação, aos 70 anos de idade é impressionante. Ele canta, pula, dança, se joga, troca figurino, faz percussão corporal, interpreta...é um mutante no palco. Além disso, faz da sua arte uma bandeira declarada contra a mediocridade.

Em um dado momento da apresentação, ele informou ao público que iria cantar uma canção e alguém gritou “essa não”. Ele respondeu: “ôpa, espera ai, não é assim não. Eu não sou a Xuxa para tocar o que vocês querem. Eu vou cantar o que eu quero para ajudar a educar um pouquinho este país”, e puxou o coro “eu não sou televisão! Eu não sou televisão! Eu não sou televisão!”. É essa veia irônica de Tom Zé que deságua em canções como “Companheiro Bush”, do álbum Imprensa Cantada , e “Deifeito3: Politicar”, do disco Com Defeito de Fabricação.

As canções dos discos anteriores de Tom Zé foram as mais cantadas, embora o show do Rec Beat fosse para lançar o mais recente disco dele Danç-Êh-Sá . O lançamento, contou, inclusive, com uma espécie de “intervalo comercial”, em que Tom Zé, imitando as propagandas que se faz em programas de auditório, pegou uns cartazes que continham fotos dos dois discos e dos dois livros que estavam sendo vendidos pela sua produção e fez propaganda pedindo que as pessoas comprassem. O momento teve até gingle, com backing vocal dos músicos e tudo mais.

Agora, chamou atenção mesmo a criação de um frevo em tempo real, ao longo do show, que os versos foram sendo anexados. No final da apresentação, Tom Zé cantou junto com o público. O frevo era o seguinte: “Se o galo regalo tem plano/ pra amarelo mulato e ariano/ meu diploma de pernambucano/ Vou tirar no Recife este ano/ Re re re Recife/ Recebe minha rendição”. A canção, no entanto, não empolgou as pessoas a ponto delas cantarem por um tempão, o que fez Tom Zé concluir que nos Cem Anos de Frevo, o ritmo parecia ser quem menos importava.

Dez ao quadrado - Quando o Rec Beat encerrou foi possível notar que apenas Tom Zé, Isca de Polícia, Parafusa e João do Pife fizeram menção à comemoração do centenário do frevo – que foi considerado Patrimônio Imaterial durante a Feira Música Brasil . A maioria dos grupos preferiu homenagear Chico Science. O interessante é que, exceto por Daniel Peixoto, do Montage, os demais grupos cantaram ou fizeram referência a trechos de “A Cidade”, do disco Da Lama Ao Caos . Peixoto, por sua vez, cantou apenas os dois versos mais famosos de “Computadores Fazem Arte”: “computadores fazem arte/ artistas fazem dinheiro”.

A canção é de Fred Zero Quatro e foi lançada também no Da Lama ao Caos. O mundo livre s/a usaria os seus versos apenas no segundo disco Guentando a Ôia . Algumas bandas, também, decidiram não homenagear ninguém, aproveitando a liberdade que a produção ofereceu de não forçar um tributo apenas para fazer o dever de casa. Para 2008, ainda não se sabe se o festival terá o mesmo perfil de privilegiar que nunca esteve no palco do Rec Beat . Contudo, se as atrações seguirem a qualidade apresentada este ano é possível que o evento consiga ser ainda melhor e com um público muito bem mais amplo.

REC BEAT ESPECIAL:

“A ARTE NÃO SE TORNA OBSOLETA COM O TEMPO” - Bocato faz uma revisão da música brasileira e fala do novo trabalho em comemoração de seus trinta anos de carreira.

“CADA UMA TEM SUA HISTÓRIA”
- Para Nina e Preta Anna, do grupo Dj Big e Confluência, estudar e debater são as melhores formas de evitar a divulgação equivocada da cultura Hip Hop.

“A BANDA DE PÍFANO MEXE COM AS PESSOAS” - Sucesso de João do Pife e a Banda Dois Irmãos expõe a forte articulação da tradicional família de músicos e artesãos de Caruaru.

“É A MINHA VINGANÇA À MORTE DO JORNALISMO” - O diretor Pedro Bayeux vê o documentário como um meio de questionar a acomodação da imprensa e divulgar a cultura livre.