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23 de abril a 10 de maio de 2007

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FESTIVAL DE RITMOS
A nona edição do Festival de Verão de Salvador ousou ao trazer artistas como Ben Harper, Matisyahu e Glória Gaynor
por Geraldo Bittencourt - (g.bittencourt@terra.com.br)

m grande festival de música não se resume apenas à apresentação ao vivo de artistas consagrados para numerosas platéias. Para elevar um festival à condição de mega é necessário preencher inúmeros requisitos. É harmonizar ritmos em múltiplos ambientes para as tribos mais diversas. É descobrir e dar espaço àquela banda que na próxima estação fará a cabeça da moçada. É também promover encontros inusitados entre artistas. Além disso tudo, ser grande é abraçar uma causa. A nona edição do Festival de Verão de Salvador seguiu direitinho à cartilha e mostrou para o Brasil que é parada obrigatória antes do carnaval.

o é à toa que a Bahia tem fama de acolher bem todos os ritmos. Por aqui, pode-se ver FatBoy Slim e Chiclete com Banana serem os reis de um mesmo dia de carnaval. O Festival mantém essa característica. Se o show do momento no palco principal não for do agrado, é só dar meia-volta, andar um pouquinho pela avenida principal e entrar na tenda eletrônica. Se as batidas do tecno também não te hipnotizam, ainda tem o palco tendências, a arena universitária e o espaço de esportes radicais para se esbaldar noite adentro. Enfim, são diversos ambientes para nem o mais exigente pôr defeito.

A nona edição do Festival de Verão foi de longe a mais ousada até agora. De um evento que sempre teve como principal reclamação a falta de atrações estrangeiras, saltou para um com nada menos que três artistas internacionais de peso escalados. O primeiro nome a ser divulgado foi o do cantor californiano Ben Harper. Depois, foi a vez do cantor de reggae americano Matisyahu. Por fim, a intérprete do hino “I Will Survive” , Gloria Gaynor, foi encaixada após os shows de Ivete Sangalo e Asa de Águia.

A escolha dos nomes internacionais foi realmente bem pensada. São três artistas em posições distintas na carreira. Matisyahu é uma agradável revelação da música mundial e recentemente concorreu ao Grammy com o álbum Youth . Por outro lado, Harper é um artista que está no auge da criatividade musical, enquanto Gloria Gaynor deu um gostinho de nostalgia ao relembrar em Salvador os sucessos da Disco Music.

Mas não tem jeito. Os baianos realmente preferem os batuques dos timbales às distorções de guitarra. Em pesquisa realizada pelo evento, foi constatado que, nas duas primeiras noites, os artistas que fazem axé foram os que mais agradaram o público. Na primeira noite, Chiclete com Banana ficou no topo da lista. No segundo dia, Ivete Sangalo abocanhou a primeira posição. No terceiro dia, que não foi contemplado pela pesquisa, o melhor show da noite ficou claramente dividido entre o grupo Jammil e a banda carioca O Rappa. No último dia, o público contemplou o show de Ben Harper. Mas suou mesmo a camisa foi em seguida, com Babado Novo.

Desde a primeira edição, que aconteceu em 1999, os encontros musicais promovem um momento ímpar ao Festival. No primeiro ano, Carlinhos Brown convidou Marisa Monte, dando indícios do que mais tarde seria os Tribalistas. Caetano, Gil e Daniela Mercury se uniram a Zeca Pagodinho, em 2004, para cantar “Verdade”. Mas 2006 foi o ano dos encontros. Foram 4 no total. Ivete com Jorge Aragão, Asa com Jota Quest, Marceleza (da banda Maskavo) com Biquíni Cavadão e Babado Novo com Bruno e Marrone. Haja mistura!

Grandes manifestações musicais abraçam grandes causas. O Rock In Rio Lisboa plantou 15 mil árvores com o objetivo de reduzir as emissões de carbono no ar e encaminhou recursos para instituições sociais com programas voltados à criança. O Festival de Verão , por sua vez, vai abraçar, ano a ano, os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Ano passado, a meta foi “Erradicar a extrema pobreza e a fome”. Este ano, o Festival reverteu o dinheiro recebido com a venda dos broches oficiais do evento para apoiar à “Educação básica de qualidade para todos”, o ODM de número 2.

Para muitos, o ponto negativo do Festival esteve, paradoxalmente, nos nomes internacionais. E faz sentido. Trazer um artista como Ben Harper abalou o orçamento de todo o evento. Trazer, então, três nomes assim comprometem exponencialmente o projeto. Não deu outra: a grade ficou sobrecarregada com artistas locais. Só para ter uma idéia, em 2006 foram 14 grupos de fora do estado e uma atração internacional. Neste ano, além dos três artistas gringos, apenas sete bandas de outros estados foram chamadas. Foi um impacto significativo.

Para o próximo ano, a organização promete o melhor festival de todos os tempos. Não é para menos. O evento completará sua primeira década de vida em 2008. Para nós, resta torcer para que se equacione melhor as atrações e haja o retorno do domingo, dia em que já se apresentaram nomes como Paralamas, Ira! e Cássia Eller. Mas, ainda com todas as ressalvas, o Festival de Verão cumpre o seu papel e é, sim, depois do carnaval, a maior celebração da música em terras baianas.