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23 de abril a 10 de maio de 2007

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HOMENAGEANDO UMA LENDA
Rocky Balboa foi um presente para os fãs da cinessérie: um filme sincero e emocionante de Sylvester Stallone.
por Ricardo Stabolito - (ricardostabolito@hotmail.com)

uando foi anunciada a produção de Rocky Balboa , sexto filme da série sobre o lendário boxeador das telonas, muita gente deu (literalmente) risada. À primeira vista, era absolutamente absurda a idéia de um Sylvester Stallone com sessenta anos levar Rocky aos ringues novamente. O ator, em franca decadência, precisou de muita coragem em uma batalha de quase uma década envolvendo a confecção do roteiro e a busca por alguém que quisesse bancá-lo. No fim das contas, a trinca MGM, Revolution Studios e Columbia Pictures assumiu o risco de produzí-lo.

Neste último filme da série, Rocky aparece como um homem solitário e triste. Parte de sua amargura é em decorrência da morte do grande amor de sua vida, Adrian, vítima de um câncer anos antes. Sofre também com o frio e distante relacionamento mantido com o filho Rocky Jr. (Milo Ventimiglia), que se sente ofuscado pela fama do pai. Agora dono de um pequeno restaurante, o ex-boxeador vive a contar as mesmas histórias das lendárias lutas travadas no passado para os fregueses.

No outro lado da trama, somos apresentados a Mason “The Line” Dixon (Antonio Tarver) – o atual campeão mundial dos pesos pesados. O lutador não encontra adversários a sua altura, ninguém agüenta mais de dois ou três rounds contra ele. Com isso, Mason acaba ganhando a antipatia do público que o repudia apesar da vitoriosa carreira. Quando um canal de TV simula uma luta (por computador) entre Rocky e Dixon, é declarado que Balboa seria o vencedor. Isso reacende no ex-boxeador a competitividade e a paixão pelo boxe, levando-o a buscar a licença para voltar a lutar.

Inicialmente, Rocky está determinado a fazer apenas pequenas lutas. No entanto, quando os empresários de Mason Dixon vêem, no gancho deixado pela luta do computador, a chance de realizar um combate entre o atual e o antigo campeão, o veterano percebe que esta é a grande chance de exorcizar os seus demônios e provar para si mesmo que ele ainda é importante e necessário.

A obra foi dirigida pelo próprio Sylvester Stallone e não é exagero dizer que Rocky Balboa é um dos grandes eventos que o cinema proporcionou aos seus fãs nos últimos tempos. Isso porque realizou o encontro entre o lendário lutador e seu fiel público, acrescido da massa que conheceu Rocky através das reprises apresentadas na TV e nunca teve a chance de vê-lo na telona. Acima de tudo, este filme que resgatou as origens da série em uma produção sincera e emocionantemente saudosista, um presente para os fãs e homenagem merecida para o lendário personagem.

O elenco de Rocky Balboa não decepcionou. Stallone reencarnou o grande papel de sua carreira conferindo-lhe uma veracidade admirável. O ator conseguiu trazer de volta (assim como já havia feito em Rocky V ) a sensação de que o Rocky é de carne e osso, cheio de sentimentos, sinceridade e boas intenções. Também trouxe de volta o modo desajeitado do lutador, tão evidente nos primeiros filmes da série.

Já o ator Burt Young voltou a interpretar Paulie como um homem amargurado, sensivelmente reprimido e aborrecido com a própria forma como leva a sua vida. Mostrando familiaridade com o papel que interpretou em todos os seis filmes da franquia, Young é dono da melhor atuação e deu um show na tela. Sua atuação remete os fãs à de 1976 (no filme inicial da série), indicada ao Oscar na época, e pode-se considerar injusta a sua não nomeação ao Oscar deste ano, realizado em fevereiro.

Milo Ventimiglia interpretou Rocky Jr. com competência e sem muito alarde, mas ganha pontos por ter alguns toques de semelhança com Stallone. Antonio Tarver, apesar de não ser ator, não comprometeu na pele de Mason Dixon. Já Geraldine Hughes encarnou com sensibilidade e coerência Marie, uma amiga de Rocky. E Tony Burton, intérprete do treinador Duke, apareceu mais uma vez com sua competência habitual, no entanto teve muito pouco tempo na tela.

Autor do roteiro de Rocky Balboa , Stallone assinou um trabalho simples, mas com diálogos inspirados e momentos marcantes (vide a cena de Rocky e Paulie no rinque de patinação ou de Mason e seu treinador falando sobre auto-respeito). Ele visitou novamente todas as lições dos filmes anteriores sem soar repetitivo, utilizando apenas a força de seus personagens e as lembranças do seu saudoso público. Interessante ainda algumas sutilezas do roteiro, como a forma pela qual Marie e seu filho vão sendo cativados por Rocky, formando em torno do solitário boxeador uma família.

É ainda uma boa surpresa constatarmos que Rocky Balboa apresentou a melhor direção da carreira de Sylvester Stallone (que não dirigia um filme há cerca de 20 anos). Mostrando competência ao trabalhar com os diálogos e se aventurando em alguns planos inspirados, Stallone conseguiu conferir a certos momentos sensibilidade e impacto raros no “cinemão” atual (mais uma vez, a cena de Paulie e Rocky no antigo rinque da patinação). O ator/roteirista/diretor conseguiu ainda acertar na maioria das vezes em que trouxe os flashbacks dos antigos filmes da série, especialmente os envolvendo Adrian (Talia Shire).

O retorno de Bill Conti e do “hino” Gonna Fly Now , fez da já tradicional cena do treinamento um momento que dificilmente não arrepiou os fãs. Apesar de alguns terem a achado um pouco curta, essa cena de treinamento em especial teve o poder de reavivar na cabeça dos admiradores as antigas batalhas de Rocky. No esperado combate que fecha o filme, Stallone novamente acertou ao ousar e fazer a seqüência inteira como se fosse uma transmissão de TV, conferindo realidade ao “espetáculo”. Já dentro do ringue, Rocky Balboa brindou os fãs com uma das melhores lutas da série, muito bem coreografada e habilmente montada, apesar de alguns (poucos) cortes se mostrarem um tanto irrelevantes.

O resultado final foi altamente positivo, amparado por uma platéia muito entusiasmada. É impossível não fazer uma analogia entre Rocky e seu intérprete Sylvester Stallone. Ambos, com 60 anos, buscam uma forma de mostrar que ainda são úteis e importantes em seus respectivos campos de atuação com esse sexto filme da franquia, conseguindo-o (o filme é sucesso de crítica e público) através de uma jornada onde foram desacreditados por grande maioria.

Rocky Balboa , no fim das contas, foi uma emocionante homenagem ao personagem que inspirou e fez muitos fãs, além de mostrar o talento de um Stallone que parecia destinado à marginalidade das telas grandes. Um grande filme e um evento obrigatório para os que acompanharam os bons e maus momentos desse emblemático e lendário boxeador.