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23 de abril a 10 de maio de 2007

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LATIM EM PÓ #68

MAQUIAVEL GAUDÉRIO
Antonio Chimango é um dos maiores exemplos de sátira política na literatura brasileira
por Marcelo Xavier - (marcelo@rabisco.com.br)

gênero da sátira política é algo tão saboroso quanto raro de se encontrar. Vem-me à mente alguma coisa de Montesquieu e as Cartas de Tomás Antônio Gonzaga (inspiradas naquele iluminista), o bom Dirceu do Arcadismo brasileiro. Pois eis que, certa feita, me caiu em mãos um livreto de pouco mais de setenta páginas, intitulado poemeto campestre. Escrito em forma de poema, versificado em sextilhas, bem à moda da payada platina, é fácil de decorar, intitulado Antonio Chimango (assim mesmo, sem acento).

Composto de cinco partes (total de 213 estrofes, de seis versos), a obra trata de um rapaz da Campanha gaúcha, ligeiramente maturango (pouco afeito à lide do campo), néscio, obediente e, por conta disso, fácil de ser manipulado. Em pouco tempo, é aliciado por um estanceiro, de nome Coronel Prates.

Pois justamente pelas virtudes do seu ordenança — ou justamente pela carência delas, o jovem é nomeado para ser o capataz de suas terras. Dessa forma, Prates teria em suas mãos uma marionete no poder para que ele pudesse se perpetuar no governo por anos e anos. Um dia, porém, o coronal morre: perdido como primeiro mandatário da Estância de São Pedro, o esgualepado Chimango termina por afundar-se, e levar seu governo ao caos.

Pobre Estância de São Pedro

Que tanta fama gozaste!

Como assim te transformaste

Dentro de tão poucos anos,

De destinos tão tiranos

Não há ninguém que te afaste!

Na mão do triste Chimango

O arvoredo está no mato;

O gado... é só carrapato;

O campo... cheio de praga.

Tudo depressa se estraga,

No poder de um insensato.

O que parecia uma instigante fábula na verdade era o retrato sem retoque de um dos maiores governantes (na época, presidentes) do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros. A pena do libelo, escrito sob o pseudônimo de Amaro Juvenal, na verdade ocultava a figura do ex-Senador da República, Ramiro Barcelos. Além de médico, o autor militou na imprensa em A Federação , órgão do Partido Republicano Riograndense (PRR). Já naquele tempo, Barcelos usava o curioso codinome (“Amaro”, de “amargo”, e Juvenal, relativo ao célebre poeta latino) para atacar o Império, com as “Cartas a Princesa Isabel”, de cunho abolicionista e anti-monárquico.

Reza a lenda que Amaro (ou Ramiro), pouco tempo antes de morrer, em 1916, foi escrito nas costas do papel impresso para nomeação dos mesários nas eleições, e publicado clandestinamente, em 1915. O “poemeto campestre” era, na verdade, um fulgurante ataque ao todo poderoso Governador do Estado. A rusga de Barcelos com ele vinha de muito tempo, quando Borges o preteriu como candidato ao senado em favor de Hermes da Fonseca (mais tarde presidente do Brasil, 1910-1914).

Se o velho Borges era o Chimango (expressão pejorativa, referente à ave que vive de comer carniça), o Coronel Prates era Júlio de Castilhos que, com o apoio do Marechal de Ferro , Floriano Peixoto, instalou uma inexpugnável ditadura positivista à sua maneira, no Rio Grande do Sul, na última década do Século XIX. Em 1903, Castilhos morre ao administrar em si de forma incorreta certo medicamento — e então seu capataz é investido no governo da “estância”.

Eis a descrição de seu antigo correligionário, feita por Ramiro:

Para les contar a vida

Saco de mala o bandônio

A vida de um tal Antonio

Chimango por sobrenome

Magro como lobisome

Mesquinho como o demônio

Ou:

Virabosta é preguiçoso,

Mas velhaco passarinho;

Pra não fazer o seu ninho,

Se apossa do ninho alheio;

Este há de, segundo creio,

Seguir o mesmo caminho

Por algum tempo, Antonio Chimango passou desapercebido. Quando o continuísmo político de Borges de Medeiros passou a ser fortemente questionado (apesar de governar às claras, como dita a boa norma comteana, o PRR passou um quarto de século no governo, de 1898 a 1928). Na época da Revolução de 23, ela caiu na boca dos seus adversários. Até o mítico coronel Honório Lemes (o “Leão do Caverá”), que era tão bravo e virtuoso guerrilheiro quanto semi-analfabeto, o sabia de cor, de fio a pavio.

C'o tempo o coronel Prates

Se foi sentindo pesado;

Tinha muito trabalhado

Naquela vida campestre,

Onde ele, com mão de mestre,

Tinha tudo preparado.

Um dia chamou o Chimango

E disse: “Escuta, rapaz,

Vais ser o meu capataz;

Mas, tem uma condição:

As rédeas na minha mão,

Governando por detrás.

O melhor do poema depois da caracterização é a caricaturização do personagem. A própria resguardada imagem de Borges (“mais fechado que baú de solteirona”, diziam alguns), de ser pouco afeito a oratória, criava a mística do maturango carismático (afeito ao estereótipo dos caudilhos do Sul) que se mantinha no poder menos pela virtú e mais pela manipulação eleitoral, que era um expediente nada incomum no Brasil da República Velha.

Quando um erro cometeres

(O que bem se pode dar)

Não deves ignorar

Como se sai da rascada:

A culpa é da peonada;

O patrão não pode errar.

Quando vires um peão,

Mesmo o melhor no serviço,

Ir pretendendo por isso

Adquirir importância...

Bota pra fora da Estância,

Mas, sem fazer rebuliço.

Se por um lado, havia a rusga ente Ramiro e Borges por conta de opções políticas, por outras, havia a questão pessoal. Extremamente cioso da sua capacidade, depois de galgar os degraus de jornalista, deputado, secretário, embaixador e senador, orador brilhante e exímio escritor, Barcelos foi fragorosamente preterido na sucessão do governo Júlio de Castilhos. O grande ditador, sabendo do brilho pessoal e da visibilidade de Barcelos e de Pinheiro Machado, preferiu — então, segundo a lógica maquiavélica castilhsta, apostar suas fichas no subserviente capataz. Sempre obediente ao seu estanceiro, este viu sua imagem crescer aos olhos do patrão: foi quando o então Presidente do Estado indicou o “chimango” para sua ocupar sua vaga.

Sua desilusão política foi ver que seu chefe político escolheu um mandalete — e o fez justamente para que Castilhos pudesse refestelar-se nos bastidores, dando as cartas nas ante-salas do poder. Ferido em seu orgulho, Ramiro foi gradativamente se afastando da política. Fez uma derradeira tentativa, um ano antes de sua morte, em 1916, ao se candidatar ao senado. Sob as ordens do velho Chimango, o sufrágio foi manipulado, da forma mais abjeta possível. Foi a gota d'água. Como George Orwell, dos seus estertores, Amaro Juvenal deu à luz a um libelo oriundo de uma vendetta .

Quase um século depois, Antonio Chimango quase não tem relação à realidade e ao contexto político-ideológico que o produziu; contudo, o “poemeto campestre” ainda mantém uma beleza perene e serve de metáfora aos desmandos de governantes antidemocráticos e mandaletes de interesses excusos.

O povo é como boi manso,

Quando novilho atropela

Bufa, pula, se arrepela,

Escrapeteia e se zanga;

Depois...vem lamber a canga

E torna-se amigo dela.

, a rigor, um breviário do Cardeal Mazarino ambientado nas coxilhas. Mas é justamente aí que o texto transcende de forma modelar e se universaliza, além da simples sátira a um determinado político de um determinado lugar; é a fábula da fábula. O estanceiro que ensina ao seu pupilo as contingências e idiossincrasias do poder. E como todos sabem, aprendizes para isso não faltam. E jamais faltarão.