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23 de abril a 10 de maio de 2007

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LOUCA OBSESSÃO
Judi Dench e Cate Blanchett duelam no ótimo Notas sobre um Escândalo.
por Fábio Freire( fabiofreire@rabisco.com.br )

e Notas sobre um Escândalo fosse um longa-metragem americano, dirigido por algum operário-padrão medíocre e interpretado por atrizes sem talento, não passaria de mais um suspense irregular como A Mão que Balança o Berço ou Dormindo com o Inimigo . Mas, para a sorte do espectador, o filme é uma produção britânica, dirigido pelo competente Richard Eyre ( Íris ), com um roteiro perspicaz e protagonizado por duas grandes atrizes – Judi Dench ( Shakespeare Apaixonado ) e Cate Blanchett ( Babel ). Razões mais do que suficientes para transformar um potencial candidato a Supercine em cinema de boa qualidade indicado a quatro Oscar (atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado e trilha sonora).

Baseado em um livro de Zoë Heller, Notas sobre um Escândalo escapa da mesmice graças a uma adaptação ao mesmo tempo tensa e irônica de Patrick Marber (de Closer Perto Demais ). O roteiro enxuto e direto de Marber abre espaço para a uma direção econômica de Eyre e para Dench e Blanchett brilharem em atuações fortes e seguras. O filme acerta ao fugir de um esquema óbvio e maniqueísta de bem contra o mal e centra o foco no relacionamento entre as duas personagens.

Barbara Covett (Dench) é uma professora de história que esconde sua solidão por trás de uma postura sempre dura e séria. Tendo como única companheira uma gata já velha e doente, Barbara enxerga na nova e popular tutora de artes, Sheba Hart (Blanchett), a possibilidade de ter encontrado uma nova amiga. Mas o que poderia ser uma simples amizade ganhe ares trágicos quando Barbara descobre que Sheba mantém um caso com um de seus alunos adolescentes e passa a chantagear a colega em troca de atenção, carinho e respeito.

É a partir do estabelecimento da trama que Notas sobre um Escândalo mostra a que veio e se destaca como um drama psicológico ao invés de um suspense banal. Eyre aposta em uma narrativa linear estruturada de maneira bastante convencional. Conhecemos as personagens, os conflitos são detonados e a tensão crescente leva ao final. Mas por trás dessa falta de arrojo narrativo existe um texto inteligente, cheio de sutilezas e uma típica ironia britânica.

Ao contrário de tentar enganar o espectador com reviravoltas sem sentido ou criar um suspense sobre um possível desfecho trágico, a direção aposta na angustiante trilha sonora para criar uma tensão quase palpável. Enquanto o roteiro prefere trabalhar os conflitos gerados pela delicadeza da situação e retratar as reações das personagens diante dos acontecimentos, destacando a personalidade solitária, amarga e doentia de Barbara e a falta de atitude e passividade de Sheba diante do deslize ético e da chantagem da suposta amiga.

Notas sobre um Escândalo vira assim um estudo sobre essas duas personagens frágeis, inseguras e solitárias ainda que de diferentes formas. Barbara está sempre à procura de alguém com quem possa compartilhar pequenos momentos de companhia, escondendo por trás dessa busca obsessiva uma provável homossexualidade reprimida e uma melancólica resignação perante a vida. Sheba se entrega a um aluno para aplacar a solidão de uma mulher madura e cansada de cuidar dos filhos e da rotina de um casamento falido, cedendo às ameaças de Barbara para fugir a todo custo de uma situação sem saída e inaceitável ante aos olhos da sociedade.

O filme se revela então cheio de camadas. Existe uma crítica sutil a um sistema educacional onde nem mesmo os professores acreditam no potencial dos alunos, a um código de ética um tanto retrógrado no qual “vilão” e “vítima” se confundem e a uma sociedade inglesa reprimida e que tenta se agarrar com todas as forças às aparências.

Para evitar seguir os mesmos julgamentos da sociedade que critica, Notas sobre um Escândalo também não julga suas personagens. Ainda que Sheba tenha errado ao se envolver com um adolescente e que Barbara possa ser considerada uma sociópata, nenhuma das duas é representada como inocente ou culpada. Assim como no mundo real, em Notas sobre o Escândalo nem tudo pode ser estereotipado. Dessa forma, o que poderia ser mais um suspense no qual o bem vence o mal à base de porradas, torna-se algo raro nas salas dos multiplex de hoje: entretenimento inteligente feito para adultos.