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23 de abril a 10 de maio de 2007

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O MAESTRO E O SEU CINEMA
Sinônimo de inovação, o italiano Ennio Morricone chega aos 78 anos como ícone absoluto na arte de compor para filmes.  por Lon Andrade -( lon_andrade@yahoo.com.

á quem diga que o cinema nunca foi verdadeiramente mudo. Mesmo em suas fitas mais antigas o áudio marcava presença, primeiro através da sonoplastia, depois na forma de música. E o que seria de um filme, de uma cena, sem a emoção que a música produz? Com o tempo, instrumentos e maestros foram se aprimorando na arte de compor mensagens através dos acordes. E nesse fazer um certo italiano merece lugar cativo. Ennio Morricone fez de seus acordes a perfeita tradução do que é uma música dentro de um filme.

Se, ao conceber Bugsy , o diretor Barry Levinson pretendia contar a história de um homem que sucumbe diante da possibilidade de montar um hotel-cassino em pleno deserto de Nevada [o que daria origem à futura Las Vegas] , Ennio Morricone conferiu ao filme uma música que era um misto de receio e sensualidade. Com o homem que sempre faz questão de tratar com carinho seus personagens, como é o caso do diretor siciliano Giuseppe Tornatore, Morricone firmou uma parceria que resultou em trabalhos como Malena e Cinema Paradiso . Nesse último, sua música somou-se ao talento do filho, Andrea Morricone, e no resultado constavam sonho, conflito e poesia. Áta-me era um romance no melhor estilo de Pedro Almodóvar, o maestro Morricone atribuiu sexualidade e suspense em sua trilha. Em Cinzas do Paraíso , a música de Morricone era sentimental e poética, revelando as cores da primorosa realização visual do diretor e roteirista Terrence Malick.

O que faz a música de Morricone algo extremante casável com o cinema? Quem sabe a resposta não esteja na trilha que o tempo encarregou de transformar em obra-prima? Para o mocinho da história, o som penetrante e encantador da flauta doce; para o feio dois homens cantando em uma desafinação proposital; um instrumento exótico, a ocarina, para o mau; o bom é um misterioso pistoleiro silencioso; o feio sabe a localização de uma quantidade exorbitante de ouro escondida nos confins do oeste; o mau é um assassino a serviço que no decorrer do trabalho toma conhecimento dessa quantia de ouro escondida algures. The good, the bad and the ugly é considerado o perfeito exemplar do western spaghetti [os filmes de faroeste produzidos na Itália], e isso se deve não só a direção de Sergio Leone, mas também a música inovadora do maestro Morricone.

Ao redefinir os padrões de composição musical para os filmes westerns, Morricone criou um arranjo autêntico que misturava elementos atípicos, personagens, a grandiosidade de uma orquestra e um minimalismo não menos eloquente. Assim, nas diversas partituras compostas para The good, the bad and the ugly , sons de guitarra flamenca, baixo elétrico, gaita, xilofone, sintetizador, sopranos, e até bateria puderam produzir criativos elementos e um lirismo jamais visto que forneceu a humanidade e o contraponto perfeito não apenas para o filme de Leone, mas para todo um gênero.

“A Música de um filme deve ser funcional ou não pode existir. É preciso atribuir-lhe uma função", escreveu o compositor Henri Colpi na obra "Defense et illustration de la musique dans le film". Se assim for, Morricone parece ter escolhido a melhor das funções para a sua música: a de contar uma história. Administrando com exatidão o tempo da imagem e do som, sua concepção musical varia na disposição das cenas. Momentos de silêncio, de harmonia, de medo e de conflito são transmitidos através de sons precisamente diferentes, ainda assim dotados de extrema harmonia. O resultado: uma tela repleta de emoções prontas para serem vistas e compreendidas pelo espectador.

Apesar dessa perfeita união (cinema e Morricone), sua música nem sempre necessita de uma imagem para ser completa. Ao longo de 45 anos de carreira, o maestro que já compôs trilhas para mais de trezentos filmes consegue emocionar e causar pequenos momentos de medo, mesmo sem a ajuda da representação cinematográfica. Até porque, em um concerto regido por Morricone estão todos os elementos de um filme: os atores em forma de instrumentos, a cena, sua música, um diretor ávido no que faz, um público ávido por vê-lo fazer. Morricone nunca tocou um instrumento sequer. De formação clássica, tendo estudado composição no conservatório de Santa Cecília com Goffredo Petrassi, sua arte está na percepção de como múltiplos elementos podem ser dispostos, e, juntos, provocarem quem os ouve. Uma percepção que o faz extrair o melhor do popular, do folk, do oriental, do blues, do clássico.

Em fevereiro deste ano, chegou ao mercado o cd We All Love Ennio Morricone , onde 17 músicas interpretadas por Celine Dion, Quincy Jones , Bruce Springsteen , James Hetfield [vocalista do Metálica, grupo que já gravou "The ecstasy of gold", uma das músicas compostas para a trilha de The good, the bad and the ugly ], Andrea Bocelli , Roger Waters, Daniela Mercury, entre outros, irão fornecer um tributo ao maestro. Dois dias depois do lançamento desse CD, Hollywood homenageou Ennio Morricone conferindo-lhe o Oscar honorário pela carreira [Morricone já foi indicado 5 vezes ao prêmio, mas nunca saiu vencedor, entrando para o clube dos injustiçados do Oscar] . Concomitantemente , dois festivais de filmes que têm a assinatura dele na trilha sonora estão em cartaz nos Estados Unidos.

O público americano parece, só agora, descobrir Ennio Morricone, o que soa um tanto atrasado, já que se trata do maestro que tanto fez pelo cinema do mundo – inclusive o americano. Morricone soube lidar com diferentes concepções estéticas, exigências e características particulares de cada roteiro, mudanças de gosto impostas pelo tempo, e fez de sua obra uma projeção que vai além da duração de um filme. Um grande contador de histórias que, ao invés de palavras, usou com enorme destreza a força da linguagem dos instrumentos.