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23 de a bril a 10 de maio de 2007

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17 CENAS DE NELSON RODRIGUES
A peça teatral 17x Nelson – o inferno de todos nós tenta resumir Nelson Rodrigues.
por Priscila Tieppo - ( priscilatieppo@gmail.com )
Fotos: Antartika

inferno que vivemos todos os dias: o preconceito, um parente louco, uma sogra na cadeira de rodas, a traição, a hediondez, a inveja, a ganância, a agonia do câncer, seja ele no corpo ou na mente das pessoas. Estes são alguns dos temas apresentados por meio das cenas das 17 peças escritas por Nelson Rodrigues, no espetáculo 17x Nelson – o inferno de todos nós .

Com direção de Nelson Baskerville, os nove atores do grupo teatral Antikartátika se revezam no palco para encenar as personagens, às vezes inacreditáveis, da obra rodrigueana. A encenação começou do lado de fora do teatro, passando inclusive pelo camarim dos atores. O público é convidado, por Diabo da Fonseca, a conhecer o inferno. O cenário “infernal” foi construído com peças compradas em um ferro velho. E a morte é personificada em um corpo masculino, que se equilibra no salto dezoito e desfila nas dezessete cenas.

Em um pouco mais de duas horas de encenação, a obra de Nelson Rodrigues é mostrada de maneira sucinta, porém marcante. Mas o entendimento vem melhor para aqueles que já conhecem os textos do autor. Quem não conhece, sai com uma breve noção das intenções e das idéias do teatrólogo sobre a morte, o amor e o ciúme.

O grupo teatral, fundado em 2005, começou a estudar as obras representadas há cerca de 10 meses, antes da concepção final. Anna Cecília Junqueira, atriz e produtora da AntiKartátika, conta que para a efetiva realização do trabalho todos tiveram de ler as obras inteiras e discutir a escolha das cenas. “O critério de escolhas das cenas foi os picos de cada peça, as cenas mais fortes em que o conflito ficasse evidente. Em algumas delas a gente optou por uma passagem”, comentou.

A construção do cenário e escolha do inferno para as encenações, por exemplo, foi feito com base em textos de Dante Alighieri, James Joyce e Ítalo Calvino. “Ele foi baseado em uma pesquisa da Carla Souto, que escreveu uma tese chamada Nelson Trágico Rodrigues e, nesse livro, ela coloca as peças trágicas do Nelson dentro do inferno”, explica Junqueira.

“A idéia do inferno veio da observação de que Nelson centrou sua obra no núcleo familiar, todas as peças falam de famílias, com exceção de “Boca de Ouro” . Dentro dessas famílias ele coloca a idéia de pecado e  castigo e aí me lembrei da Divina Comédia do Dante, mas precisamente da descrição dos círculos e das valas do inferno e a ambientação foi resolvida”, acrescenta Baskerville.

O trabalho encerrou sua terceira temporada no último dia 8 de abril, na capital São Paulo. Já passou por cidades como Bauru, São Manoel, Osasco e Suzano e ganhou o prêmio Caravana Paulista de Teatro . Em julho deste ano, o grupo teatral vai ter as fotos, o cenário e o figurino, expostos em Praga, capital da República Tcheca, cujo tema é a obra de Nelson Rodrigues.

A Vida Como Ela É...

“Desagradável”. Assim Anna Cecília definiu Nelson Rodrigues, um autor polêmico e à frente de seu tempo. Segunda ela, porque ele vai a fundo e “toca na ferida diretamente”. As peças de Nelson foram escritas entre 1941 e 1978. Entre elas, Vestido de Noiva, Senhora dos Afogados e Toda nudez será castigada . Na montagem, que esteve em cartaz no Teatro Júlia Bergmann, na Barra Funda, as cenas foram colocadas em ordem cronológica, onde se propôs perceber a evolução da escrita do dramaturgo.

Nelson Rodrigues nasceu em Recife, Pernambuco, em 1912. Em 1916 foi morar com a família no Rio de Janeiro. Aos quatro anos foi impedido pela vizinha de freqüentar a sua casa após deitar-se sobre Odélia, de três anos, e beijá-la. Aos oito, uma professora se surpreende com uma redação escrita por Nelson, na qual ele narra um adultério. Filho do jornalista Mário Rodrigues, Nelson também começa a se interessar pela escrita e passa a trabalhar no jornal do pai, A Manhã , como repórter policial, em 1925. Aos 13 anos, o autor impressiona os colegas com sua capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. 

Ambientado em uma época conservadora, Rodrigues cresce em uma sociedade que define como hipócrita e hedionda. Em seus textos relata friamente os grandes conflitos humanos e a realidade. Em todas as tramas ele aborda o amor, a morte e a inveja. Temas que fizeram parte de sua vida real. Uma vida marcada por tragédias e mortes.

Em 26 de dezembro de 1929, o jornal coloca na primeira página o desquite de Sylvia e José Thibau Jr. No dia 27, pela manhã, Sylvia entra na redação da Crítica procurando por Mário Rodrigues. Não o encontrando, pede para falar com seu filho Roberto e acerta um tiro no estômago dele. Esta cena foi presenciada por Nelson, aos 17 anos. Após dois meses, o pai morre de uma trombose cerebral, aos 44 anos. E este era apenas o começo.

Nelson ainda presenciou muitas mortes em sua família e enfrentou a miséria e a tuberculose, que levaria mais tarde um de seus irmãos mais amados, Jofre Rodrigues. Continuou trabalhando em jornalismo, passando por jornais como O Globo e O Tempo . Algumas de suas peças foram submetidas à censura, como o texto Álbum de Família , censurado em 1946 e liberado somente em 1967. Anjo Negro também passou pela censura em 1948.

Nelson Rodrigues morreu em 1980 e deixou uma vasta obra composta por onze romances, cinco livros de contos, diversas crônicas publicadas em jornais e dezessete peças teatrais. Um escritor autêntico que marcou uma época e continua sendo relembrado e encenado até hoje.

Mais informações sobre Nelson Rodrigues
http://www.nelsonrodrigues.com.br
http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp
http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=4044&ida=18