Picosearch

 


Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

23 de abril a 10 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

QUANTO UMA VIDA INFLUENCIA?
Há dez anos morria Chico Science, o homem que colocou seu estado na pauta do dia.
por Luiz Pattoli ( luiz@rabisco.com.br )

ogo após a morte de James Brown, no final de 2006, a crítica musical de diversos veículos de comunicação fez um levantamento da importância e do legado do músico norte-americano. Criador de um estilo musical, Brown influenciou novos artistas e foi sampleado por inúmeros outros grupos. Analisar a influência de um artista com uma carreira longa e produtiva não é uma tarefa tão difícil. Contudo, como mensurar a influência de um artista promissor que tem sua carreira interrompida?

Os discos de Chico Science são constantemente citados entre os principais discos da década de 1990 e ele chegou a ser incluído, em algumas votações, como um dos melhores de todos os tempos da música brasileira. Sua mistura de elementos de ritmos tradicionais pernambucanos e nordestinos com música pop, leia-se: rock, rap, reggae, foi sem dúvida uma das grandes inovações musicais no cenário pós anos 80. Maureliano, luthier de alfaias (tambores utilizados no maracatu) comentou que os tambores da Nação Zumbi soavam como os trompetes de James Brown.

Pernambuco, musicalmente, foi durante anos o estado de Luiz Gonzaga e Alceu Valença. Vale lembrar, que com a exceção dos Novos Baianos e seus asseclas, o eixo da produção cultural estava no Rio de Janeiro e em São Paulo. Bandas pop vindas do nordeste eram raras. Foi nesse ambiente propício para novidades que surge a turma do mangue – posteriormente batizados pela imprensa paulistana de manguebeat ou manguebit.

“Nossa idéia é colocar energia na lama”, empolgava-se Chico Science. A movimentação na capital pernambucana ressoou, e logo, a revista Bizz noticiou a carangueijada . A MTV e o produtor Carlos Eduardo Miranda foram ver in loco , no primeiro Abril Pro Rock (APR), o que acontecia em Recife. Resultado : Chico Science e Nação Zumbi e mundo livre s/a saíram do APR contratados por grandes gravadoras. Na seqüência, Mestre Ambrósio, Devotos do Ódio e Jorge Cabeleira também assinaram contratos. De uma vez sóm e pela primeira vez na história, diversas bandas de Recife entraram no cast de gravadoras multinacionais e tinham clipes veiculados no principal canal de TV musical.

Até hoje, os amigos próximos de Chico se emocionam ao relatar o fatídico dia de sua morte – 02 de fevereiro de 1997. Afinal, mais do que um companheiro, ele era a representação da guinada que o estado dava culturalmente. Era o maior símbolo da renovação. Soma-se a isso, o carisma e o espírito agregador que o artista tinha: fosse em cima do palco ou em uma mesa de bar. Era um catalisador de idéias. Ninguém ficou com esse bastão depois dele. E o que poderia ser o desmantelo de uma das bandas mais promissoras da geração 90, virou força e garra para se transformar em um dos grupos mais inventivos da atualidade.

Durante o hiato criativo da Nação Zumbi, houve uma segunda onda manguebit e quem se deu muito bem nesse período foi o percussionista Otto. Ex-Nação Zumbi e mundo livre s/a, ele lançou Samba pra Burro , um álbum elogiadíssimo pela crítica e que foi muito bem recebido pelo público também. Pouco tempo depois de Otto, foi a vez do Cordel do Fogo Encantado, com suas letras sertanejas, batucada primal e uma presença de palco poucas vezes vistas, até então, conquistar o sudeste do país. De boca em boca, as apresentações do grupo se tornaram concorridas e sempre lotadas. Hoje, com um circuito de shows em todo o Brasil, o Cordel se tornou quase uma seita – com pessoas em estado de transe.

Quando o Mombojó lançou em 2005 seu álbum de estréia, falou-se em pós-mangue, como se a banda, mesmo sendo bem mais nova, não tivesse aproveitado a avenida que o mangue abriu na mídia. Mesmo bandas como Parafusa, Astronautas, Vamoz! entre outras que tocam em diversos festivais independentes pelo Brasil e o coletivo de produção cultural Coquetel Molotov podem ser considerados resultados indiretos do manguebit.

pesar de estarmos vivendo uma mudança considerável na forma de distribuição da música, para um artista ‘estourar' e ficar conhecido pelo grande público, as rádios e as inserções em programas televisivos é fundamental. Sem isso, fica muito difícil e restrito a um público específico. É consenso que para atingir um grande público, um artista precisa do apoio das rádios. As bandas de Pernambuco não tiveram esse apoio de divulgação. Entretanto, Chico Science e sua trupe sedimentaram o caminho para que os grupos do estado tivessem mais atenção da mídia, principalmente dos jornais de São Paulo e Rio de Janeiro. O maior legado de Chico, mais do que uma influência musical, foi ter colocado Pernambuco novamente na pauta do dia. E ele tem se mantido!