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23 de abril a 10 de maio de 2007

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RESIDÊNCIA RABISCO #06

ACONTECE NA VIDA, ACONTECE NOS FILMES
Quando se casar vira obrigação, o final deixa de ser feliz para se tornar chato e previsível
por Natalia Klein – (blanka_nk@yahoo.com.br)

asamento, para mim, é uma palavra tão estranha quanto calvície ou osteoporose. A comparação pode ter sido um pouco tosca, assumo, mas é que não consigo encarar com naturalidade a idéia de que duas pessoas passarão o resto de suas vidas juntas. Vejo isso como algo muito distante da minha realidade, tão distante que mal consigo enxergar. Assim como envelhecer.

Já fui dama de honra duas vezes, quando era pequena, e, até pouco tempo atrás, a noção que eu tinha de “marido” era um sujeito gordo e careca com roupas largas e nem um pouco atraente. Tudo bem, talvez eu tenha sido levemente influenciada pela figura do Homer Simpson, mas a questão é que casamento sempre me pareceu algo que só as pessoas mais velhas e maduras faziam.

De um tempo para cá, meu conceito caiu por terra. Pessoas da minha idade estão se casando por aí e os maridos não são gordos nem carecas, muito pelo contrário. As esposas não têm nada de velhas e maduras, elas são minhas colegas de turma na universidade, primas, amigas de infância. E isso me fez pensar: estão todos loucos ou eu quem tenho que começar a me preocupar em não ficar para a titia?

Em Casamento Grego , dirigido por Joel Zwick, a protagonista Toula Portokalos, interpretada por Nia Vardalos, que também assina o roteiro, é uma trintona solteira e sem muitas perspectivas. Para sua família, a única coisa que ela precisa fazer na vida é se casar com um bom rapaz grego e ter muitos filhos. Como todos os irmãos e primos de Toula já haviam se casado, ela era o alvo de todas as preocupações, fazendo os parentes se empenharem em lhe conseguir um marido.

Só que quando ela menos esperava, surgiu Ian Miller, um homem interessantíssimo, mas que...uh-oh, não era grego – pequeno detalhe que, para a família de Toula, seria inconcebível. O conflito reside justamente no choque entre esses dois mundos, o que também rende os momentos mais engraçados do filme. A idéia é mostrar o excêntrico e o ridículo na família da noiva em contraste com a sobriedade dos pais do noivo. O casamento que vemos no filme é exatamente o que sugere o título original, grande e gordo, além de barulhento, cafona, exagerado.

Minha família é judaica e eu sei muito bem como esse exagero retratado no filme está bem próximo da vida real. Há alguns dias, fui ao casamento de uma prima (de primeiro grau, relativamente próxima e tão nova quanto eu), e posso lhes garantir que não foi muito diferente do filme não. Roupas exageradas, maquiagens carregadíssimas, penteados engraçados. Um festival de cores berrantes e laquê, muito laquê. Todo mundo falando ao mesmo tempo, mas nunca escutando o que o outro tinha para dizer. O assunto principal: a vida alheia, claro.

Eu, que já tenho dificuldade em me concentrar, ficava completamente desnorteada. “Querida, como você cresceu, eu te vi pequenininha!”, “Você é a cara da sua mãe!”, “Aposto que não lembra de mim!”. Sorria para cá, sorria para lá. E eis que me deparo com uma mulher vestida de lilás dos pés à cabeça. E não, eu não estou falando no sentido figurado. Não havia nenhuma peça que não fosse lilás, ela parecia estar vestida de sabonete Vinólia.

Mas, sem dúvida, o momento mais estranho foi quando a noiva me disse: “tomara que você encontre logo um rapaz bom, se case e traga muita alegria para a família”. Aham, aham, claro. Dei um sorriso amarelo e saí de fininho. Como assim? Quer dizer que se por alguma eventualidade eu não encontrar um rapaz bom, não vou trazer alegria para a família? Caso eu decida ficar solteira, então, automaticamente, estarei trazendo tristeza para todos?

E olha que meu histórico não é dos melhores. Nunca tive um namoro longo, tendo a me entediar facilmente, não costumo ceder, compartilhar, dar o braço a torcer, abrir concessões nem guardar o último pedaço de qualquer coisa. Nunca gostei de alguém a ponto de não cogitar a possibilidade de ficar com outro e, simplesmente, não suporto crianças. Em suma, sou um péssimo partido.

No filme Quatro Casamentos e um Funeral, dirigido por Mike Newell, acompanhamos a trajetória de um grupo de amigos solteiros em busca da pessoa certa. Charles, vivido por Hugh Grant, se apaixona por Carrie, interpretada por Andie MacDowell, uma mulher diferente das outras que ele conhece, pouco preocupada com casamento e cheia de experiências para contar. Ao longo do filme, os dois passam por encontros e desencontros até que Charles a pede em uma espécie de “não-casamento”, propondo que ambos NÃO se casem pelo resto de suas vidas. Uma ótima solução!

Em Mais Estranho que a Ficção, filme recente dirigido por Mike Forster, temos um homem que subitamente se vê inserido em um romance de uma escritora famosa. Harold Crick (Will Ferrell) começa a ouvir a voz de uma narradora onisciente que descreve suas ações. Quando ele procura um professor de literatura (Dustin Hoffman) para ajudá-lo com o problema, descobre que só existem duas possibilidades para o desfecho de sua história: caso se tratasse de uma tragédia, ele morreria; e caso fosse uma comédia, ele se casaria com a mocinha.

Se pararmos para pensar, quase todos os filmes do tipo comédia-romântica terminam, no mínimo, com a possibilidade de casamento. Isso sem contar com os contos de fadas cujos finais são marcados pela frase sentencial “e viveram felizes para sempre”. Coitadas das crianças, que desde cedo aprendem que a única resposta para seus problemas é achar a pessoa certa.

  Mas, pelo menos no cinema, ainda há salvação. Está enganado quem pensa que o casamento é, necessariamente, o desfecho de uma trama. Em A Igualdade é Branca , segunda parte da trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski, ele é apenas o ponto de partida. Momentos depois da cena inicial, Dominique (Julie Delpy), a esposa, decide se divorciar de Karol (Zbigniew Zamachowski) por ele não cumprir devidamente com seus deveres maritais.

Após o divórcio, Dominique deixa o ex-marido sem um centavo e ele acaba tendo que voltar para a Polônia recomeçar a vida. O filme segue um fluxo contrário do que geralmente se vê. O suposto final feliz é apenas o começo de uma série de eventos que culminam em um desfecho inesperado e nada parecido com os contos de fadas.

É engraçado observar as reações das pessoas em um casamento, ver como elas se emocionam e realmente acreditam que aquele casal vai se amar pelo resto da vida. Ou, de repente, as lágrimas são mesmo é de tristeza, por saberem muito bem o que os aguarda.

Eu estou mais para Noiva em Fuga, dirigido por Garry Marshall, que conta a história de Maggie Carpenter (Julia Roberts), uma mulher que foge do casamento sempre na hora H. Tudo bem, vai, não chego a tanto. Mas costumo fugir dos relacionamentos adultos e reais como o diabo foge da cruz. Tudo bem. Quem sabe um dia não me aparece um Richard Gere e eu acabo sossegando o facho?

Em último caso, me inspiro em O Casamento do Meu Melhor Amigo , dirigido por P.J. Hogan, onde dois amigos fizeram um acordo em que, caso estivessem solteiros até um certo ponto, se casariam um com o outro. Só que a coisa desanda quando Julianne (novamente Julia Roberts) descobre que seu velho “amigo-com-privilégios” Michael (Dermot Mulroney) está para se casar com outra mulher.

O ponto alto do filme é a cena em que o elenco canta “Say a Little Prayer”, música que fala sobre um amor que nunca vai acabar e de duas pessoas que devem ficar juntas para sempre. Mas será que isso realmente acontece? Será que conseguimos a proeza de só desejar uma pessoa até que a morte nos separe?

Vários amigos meus estão para se casar. O Johnny Depp já é casado, droga! Será que vamos ter que começar a seguir o exemplo dos pingüins e catar um par o mais rápido possível, antes que os bons fiquem todos indisponíveis? Será que nosso destino amoroso é mais ou menos parecido com um bufê de casamento? O que terá acontecido com aquele velho ditado de que cada panela tem sua tampa? Ou o que é do homem o bicho não come? Eu sou a favor da liberdade e espero que cada um faça da vida o que bem entender. Com ou sem casamento, desejo a todos um final feliz. FIM.