Picosearch

 


Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

11 a 26 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

LONGE DEMAIS DAS CAPITAIS
Após a gravação do disco MTV apresenta Relespública , o vocalista da banda curitibana conta como é fazer rock em uma cidade fria e com pouca história no pop nacional
por Luiz Rebinski ( jrrebinski@rabisco.com.br )
Fotos: Divulgação

os tempos em que iam aos shows do Ira! e vibravam com a voz rouca e os trejeitos de pugilista fora de forma de Nasi, só sobraram as lembranças para os rapazes da Relespública. Isso porque a banda curitibana viu sua tietagem virar parceria após o vocalista do Ira! participar de dois discos do grupo e se tornar uma espécie de quarto integrante do trio. Após cantar “A fumaça é melhor que o ar”, música inédita de Edgar Scandurra, em As histórias são iguais , disco de 2004, o cantor passou a acompanhar de perto os pupilos até o momento mais importante da banda, quando em meados de 2006 gravou, com a grife da MTV, um disco ao vivo distribuído nacionalmente.

De lá para cá, a banda passou a tocar em outras paragens, conquistando novos fãs Brasil afora. As parcerias, com Nasi e com a MTV, renderam bons frutos. Uma das bandas mais interessantes do cenário independente nacional e com um disco sensacional debaixo do braço, a Relespública espera que a exposição conseguida ano passado vingue em 2007, quando lança o quarto disco de inéditas.

Donos de um público que se espreme por um dos bares da cidade todas as quartas-feiras, na capital do Paraná, para cantar em uníssono as músicas da Relespública, Fábio Elias (voz e guitarra), Emanuel Moon (bateria) e Ricardo Bastos (baixo) esperam ver seu séqüito de fãs ampliado com próximo disco, já que a linha limítrofe do sudeste do país foi superada, com shows no norte e nordeste do Brasil em 2006.

Apesar de fazer parte do cenário de bandas independentes, a Relespública está na estrada há um bom tempo. Formada em 1989 pelos atuais integrantes, a banda passou por diversas fases, que inclui uma malfadada incursão pela gravadora Universal Music, onde gravaram o disco O circo está armado , em 2000. A trajetória do trio reserva ainda dramas como a morte do ex-guitarrista Daniel Fagundes e crises existenciais do principal letrista e vocalista.

Bastante identificados com a cidade onde moram, que marca a ferro quente as canções do grupo, a Relespública renasceu das cinzas após o lançamento do festejado As histórias são iguais . E não por acaso. O álbum é daqueles que pegam o ouvinte de primeira. Com um som inspirado em The Who , The Jam e bambas da geração Brock, o power trio faz um rock de pegada, com letras que garantem a diversão. O disco marcou o reencontro da Reles, como são chamados pelos fãs, com seu público, garantido fôlego necessário para tocar novos projetos.

Bastante espontâneo – e ácido em alguns momentos –, o vocalista Fábio Elias recebeu a reportagem do Rabisco para discorrer sobre a nova fase da banda, a gravação do disco pela MTV, a parceria com Marcos Valadão e, como não poderia deixar de ser, da relação – passional, como os leitores vão poder conferir abaixo – com a cidade natal.

Rabisco : Há uma diferença bastante grande entre os discos da Relespública gravados como quinteto e As histórias são iguais , último álbum de inéditas da banda. Com a atual formação, que é a originária, vocês encontraram o caminho certo?

Fábio Elias: A verdade é que hoje somos outra banda. Isso porque estamos tocando bem mais à vontade. Enquanto éramos um quinteto, portanto uma banda maior, haviam outros interesses musicais envolvidos no grupo. Eu, por exemplo, não conseguia ser totalmente pleno e isso me incomodava. Mas tudo bem, eu via aquela situação como uma nova experiência pela qual a banda tinha que passar. Sempre soube disso. Mas, por outro lado, sempre soube também que a Relespública era um trio e não um quinteto. Então, após o recomeço como trio, cada um fez o que queria dentro da banda. As idéias começaram a brotar e começamos a nos aceitar mais. Isso foi benéfico para nós. Hoje não sofremos mais pressão, seja de gravadoras ou mesmo de dentro da banda. Somos só nós três e nossas idéias.

Rabisco : A Relespública entrou para a história de Curitiba por ser a primeira banda da cidade a gravar um disco em parceria com a MTv. Como rolou o convite para a gravação do álbum e do DVD?

Fábio Elias: A nossa história com a Mtv é bem legal, pois somos contemporâneos. Começamos a tocar quando a MTv apareceu no Brasil. Então sempre que lançávamos discos, nós íamos para São Paulo levar nosso trabalho na sede da emissora. Qualquer coisa que saía da Reles, nós corríamos divulgar. Criamos assim um contato legal com eles. Quando lançamos As histórias são iguais , fomos divulgar os clipes de “Nunca mais” e “Garoa e solidão”. Os dois entraram na grade de programação. Mas foram veiculados porque realmente são clipes legais, bem-feitos. Não precisamos puxar o saco de ninguém lá dentro, isso não aconteceu. A partir daí, como sempre abastecíamos a TV com material da banda – e às vezes penso que é isso que falta a muitos grupos independentes, que em vez de ficar reclamando deveriam se dedicar mais ao que fazem –, criamos um vínculo. E certo dia nos ligaram apresentando o projeto e nos convidando para participar. Em seguida fizemos contato com a Vila Biguá, uma gravadora de Curitiba que naquela época estava se lançando no mercado, e eles bancaram o projeto. Em princípio queríamos que o show fosse em Curitiba, mas os custos inviabilizaram a idéia. Então o recurso foi lotar dois ônibus com fãs da Reles e ir para São Paulo. E isso foi muito legal, porque em um momento tão especial para a banda pudemos tocar para a galera que vai aos nossos shows nos bares da cidade.

Rabisco : Apesar de Curitiba ter um cenário bastante ativo de música independente, poucas bandas da cidade conseguem superar os limites do Estado e deslanchar nacionalmente. Fazendo uma comparação óbvia com os vizinhos do Rio Grande do Sul, a exportação da cidade é bastante tímida, não?

Fábio Elias : O problema não é só de Curitiba, mas o Paraná. Se você for para Londrina ou Maringá [cidades de médio porte do norte pioneiro do Estado], ninguém sabe o que acontece no Paraná, porque todos lêem a Folha de São Paulo e não os jornais de Curitiba. Se você vai para o Rio Grande do Sul, as pessoas lêem os jornais de lá, o Zero Hora, e ligam nas rádios de lá, que tocam as músicas de lá. Outra coisa que acontece é que a mídia também não dá força. As rádios populares, que todo mundo escuta, não tocam as bandas da cidade. Só a rádio rock dá uma forcinha, mas não é suficiente. Os outros veículos não dão espaço. Então é complicado, já que a vontade de divulgar a cultura do Estado deveria partir dos próprios meios de comunicação. É preciso criar uma cultura de consumo dos produtos locais.

Rabisco : Mesmo com os vários problemas, Curitiba é uma cidade bastante cultural, onde, diferentemente do que se pensa, há uma produção fértil em diversos segmentos da arte. A Relespública é uma banda identificada com a cidade. De que forma Curitiba interfere no som do grupo?

Fábio Elias : As idéias sempre estão brotando. O cotidiano de uma forma geral é bastante inspirador. E Curitiba é uma cidade superinspiradora. Ao mesmo tempo em que eu reclamo de alguns aspectos da cidade, essa dificuldade também serve para dar força ao artista e inspirá-lo. E Curitiba traz ao artista elementos para transformar em música. “Garoa e solidão” [faixa do álbum As histórias são iguais e um dos maiores sucessos da banda], por exemplo, eu fiz sentado no sofá da minha casa olhando pela janela a rua vazia. E isso me despertou a letra inteira da música de uma vez só. Lembro até hoje que meus pais estavam na sala assistindo televisão e eu achando aquilo tudo um saco. “Nunca mais” eu escrevi em um Carnaval. Imagina só o que é o Carnaval de Curitiba, não tem nada. Então acho que sob esse ponto de vista a cidade é bastante inspiradora. Mas para mim, compor é um exercício que não me desgasta, me dá prazer.

Rabisco : Nas suas letras dá para perceber que você tem uma relação bastante próxima com o ato de escrever. Você é um grande leitor e escreve algo mais além de letras de música?

Fábio Elias : É engraçado porque sempre fui muito mais de escrever do que ler. Leio pouco e escrevo muito. Tudo que eu leio acaba me influenciando de forma muito direta. Eu leio algo e já penso em fazer uma letra sobre aquele tema. Tem uma música nova chamada “Medo e delírio” que surgiu quando eu estava lendo uma matéria sobre catástrofes naturais. Aí quando terminei a leitura peguei as frases e as remontei e fiz a música. Só depois fui saber da existência de um livro com o mesmo título [ Hell's angels – medo e delírio sobre duas rodas , do jornalista Hunter S. Thompson, pai do chamado jornalismo gonzo ] . Aí depois fui ler o livro. Em suma, eu gosto muito da palavra.

Rabisco : E a parceria com o Nasi, do Ira!, como rolou? De que forma isso beneficiou a banda?

Fábio Elias : Somos fãs do Nasi desde moleque, como todo mundo que gosta de rock dos anos 80. Sempre quando eles tocavam em Curitiba, nós íamos aos shows, ficávamos na fila do gargarejo e tudo mais. Éramos fãs mesmo, tietassos. E em todo show nós levávamos o nosso material para o pessoal do Ira! Isso durante alguns anos. Até que um dia o Nasi me ligou. Não sei como conseguiu meu telefone, mas ligou. Ele me disse que o Ira! estaria na cidade e que, uns dois dias antes, ele, Nasi, gostaria de tocar conosco em algum boteco de Curitiba. Aí fizemos o show e foi superbacana. E dali para frente não paramos mais. Sempre que ele tem uma brecha na agenda do Ira!, ou de seu trabalho solo, liga para nós para marcar algo. E dessa forma já fizemos altas loucuras na estrada com ele. O Nasi é uma pessoa muito massa, um cara bem rock n' roll. E fora isso, aprendemos muita coisa com ele, tanto dentro como fora do palco.

Rabisco : Entre os quatro discos, qual é o mais importante para a banda?

Fábio Elias : Cada um é especial de uma maneira. Desde o nosso primeiro compacto, todos têm seu valor. E o rock n' roll Brasil? , por exemplo, foi nossa primeira experiência em estúdio, e graças a ele conseguimos um contrato com uma major , a Universal Music. Assim como O circo está armado , que gravamos no Rio de Janeiro, nos melhores estúdios e com os melhores arranjadores etc. Já As histórias são iguais é o nosso momento de reafirmação como trio. Foi o disco em que reencontramos os nossos fãs e nossa maneira de fazer rock. Este disco é um marco em nossa carreira. Hoje estamos bem mais tranqüilos com relação aos novos projetos. Além disso, tem o CD e o DVD, que foi um sonho realizado, já que gravamos um show com uma estrutura legal. Foi a primeira vez que pudemos nos ver tocar com imagens legais.

Rabisco : E como foi a repercussão do álbum gravado pela MTv?

Fábio Elias : Desde o lançamento do disco, tocamos fora todo final de semana, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Onde passamos deixamos amigos e pessoas que conheciam ou estavam curiosas para conhecer nosso som. Dois mil e seis foi um ano intenso de shows, em que tocamos em vários lugares legais, conhecendo gente bacana. O que nós queremos é só que nossa cidade seja mais porra-loca, que dê mais incentivos às bandas e que aproveitem o material humano e físico que a cidade tem.

Rabisco : Após os bons ventos de 2006, o que a Relespública está preparando para este ano?

Fábio Elias : Até o meio do ano nós devemos lançar um disco novo de inéditas. Mas o importante é que nunca paramos de compor e produzir. Estamos sempre preparando coisas novas. Em 2007 não será diferente, estaremos levando o nosso sonho adiante.