Picosearch

 


Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

11 a 26 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

A ESPERANÇA É CINZA
Alfonso Cuáron oferece ao público uma aula de cinema em Filhos da Esperança
por Fábio Freire ( fabiofreire@rabisco.com.br )
Fotos: Divulgação

ficção científica não se resume apenas a guerras estelares, naves perdidas no espaço sideral ou guerra entre raças interplanetárias. Existe toda uma leva de filmes desse gênero cinematográfico que aposta na discussão de questões filosóficas e existenciais ou aponta suas lentes para um futuro pessimista da humanidade. Filhos da Esperança faz parte desse último tipo e prova que o gênero é um dos mais frutíferos do cinema atual.

Dirigido pelo mexicano Alfonso Cuáron ( Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e E Tua Mãe Também ) e custeado por um grande estúdio americano (Universal Pictures), Filhos da Esperança se passa na Londres de 2027. A humanidade está em processo de extinção e não há registro de nenhum nascimento há 18 anos. A Inglaterra é a nação mais desenvolvida e fecha suas fronteiras, discriminando estrangeiros e mantendo a ordem de forma autoritária. É no meio do caos e de um atentado que o espectador é apresentado a Theo (atuação silenciosa e precisa de Clive Owen), ex-ativista e hoje burocrata desiludido que, sem saber, está prestes a virar um herói involuntário.

Apesar de recorrer a temas batidos do gênero – governos autoritários e uma visão sombria e caótica do futuro -, Filhos da Esperança se mostra mais do que um amontoado de obviedades. Baseado em livro de P.D. James, o filme traz um roteiro direto que em pouco tempo apresenta seus elementos e estabelece a narrativa, deixando o espaço livre para que a estória flua de maneira precisa. Ao invés de explicar de forma didática como a humanidade chegou aquele ponto, o filme faz uso da direção de arte e de personagens secundários interessantes (como o interpretado por Julianne Moore, que em menos de dez minutos de tela nos faz esquecer de todas os filmes ruins que fez nos últimos tempos) para contextualizar a trama, demonstrando esmero com a produção.

Um exemplo do cuidado com o filme é o uso inteligente de um clichê bem batido do cinema hollywoodiano em geral: o envolvimento de uma pessoa comum em um turbilhão de acontecimentos extraordinários. Mesmo fazendo o papel de herói involuntário, em nenhum momento a produção transforma a personagem de Clive Owen em um super-homem típico dos filmes de ação. Theo funciona quase como um espelho do espectador, sempre perplexo com a situação e preocupado apenas com a segurança de Kee, a primeira mulher a engravidar em anos e que pode representar a salvação da humanidade.

É a partir desse fato que Filhos da Esperança discute não apenas o futuro, mas os dias de hoje. O futuro recriado por Alfonso Cuáron não é nada mais do que um retrato um pouquinho exagerado da sociedade atual, perdida entre frágeis normas e regras que parecem prestes a se romper. Na verdade, essa fragilidade é a mola mestra do filme e se não fôssemos informados que a trama se passa em 2027, poderíamos muito bem acreditar que estamos em 2007.

Se em Filhos da Esperança , um bebê é o estopim para conflitos de ordem política, na nossa realidade tudo parece ser desculpa para que a tênue linha entre a ordem e o caos seja colocada à prova: violência urbana, problemas étnicos e (ou) geográficos, disputas econômicas e políticas disfarçadas de questões religiosas. Uma bela cena no final do filme serve como síntese de toda a produção. No meio de um conflito, entre tiros, granadas e explosões, todos param para admirar impressionados o choro há muito tempo não ouvido de um bêbe, tudo para em questão de segundos o caos, a gritaria e a morte retomarem seus lugares.

Como se a riqueza narrativa e a discussão de assuntos urgentes não fossem suficientes, Filhos da Esperança é uma aula de cinema em termos de técnica. A direção de arte, a fotografia cinza e a edição são tão importantes para o filme quanto para a narrativa recheada de planos-seqüência impressionantes e de tirar o fôlego. Já a direção de Alfonso Cuáron é de um vigor invejável, demonstrando uma habilidade técnica e narrativa digna de palmas. O filme só não mereceu mais louros (foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado, edição e fotografia) por causa do péssimo lançamento nos cinemas, tanto norte-americanos quanto aqui no Brasil. Filhos da Esperança é sem dúvida o melhor e mais urgente filme de 2006. E Martin Scorsese que me perdoe, mas Cuáron é quem merecia todos os prêmios de direção ano passado. Infelizmente, assim como na ficção, na vida real nem tudo acontece.