ALEGORIAS DIGITAIS
A fábula
também foi privilegiada como recurso narrativo
entre os curtas-metragens em vídeos digital
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )
s cinco documentários da categoria curta-metragem em vídeo digital foram acompanhados na competição por três ficções e duas obras em animação. A maioria destes trabalhos, apesar de ampliar um pouco mais os temas do gênero, curiosamente optou por um estilo de narrativa que se caracteriza pela fábula, com alegorias ao caos da vida moderna e à morte do romantismo, a exemplo das animações Na Corda Bamba e O Jumento Santo e a Cidade Que Se Acabou Antes de Começar e da ficção O Sapo. Os demais filmes, Ruínas e Chorume , mesmo trabalhando com aspectos diferenciados do universo do glamour, trataram, à sua maneira, de temas um pouco mais sérios, como o abandono e o preconceito entre classes sociais.
O Sapo arrancou muitos aplausos da platéia, tanto que recebeu o prêmio de melhor vídeo digital pelo júri popular. A história mostrava um garoto que estava disposto a fazer qualquer coisa para chegar mais perto do amor de sua vida. O diretor Adolfo Sarkis optou pela narração nos moldes tradicionais, como se O Sapo fosse um episódio de seriado de televisão. Então, do ponto de vista de formato, o espectador não experimentou algo muito diferente do que está habituado. Contudo, da mesma maneira que os folhetins televisivos, o cineasta ganhou o coração do público ao trazer para a tela as situações melancólicas e engraçadas deste primeiro amor infantil, e, assim, realizou o desejo de ver seu filme aplaudido por mais de três mil pessoas, no penúltimo dia do Cine PE .
Diferença
– Um segundo curta-metragem em tecnologia digital
trouxe o relacionamento amoroso, mas o principal foco
não era nesta relação. Chorume
mostra um momento da vida de um trabalhador de
carro de lixo que se vê usado como objeto por
uma menina que quer provocar ciúmes na amante.
A cena de provocação ocorre dentro de
uma festa à fantasia, em que o protagonista vai
parar por acaso, após ser atropelado pela moça.
Ao escolher o ponto de vista do lixeiro, o diretor Hélio
Villela Nunes optou por abordar tanto o preconceito
entre classes quanto a observação da vida
um determinado grupo social por alguém que se
situa em condição econômica oposta.
Nos primeiros momentos do lixeiro, dentro da festa, a câmera funciona como o olhar que vai percorrendo a casa, as pessoas e enfatizando situações que são entendidas, no contexto da sociedade, como caprichos fúteis de uma classe que valoriza pouco as benesses que possui. Neste sentido, é interessante notar detalhes da interpretação dos atores que ajudam a construir esta relação de conflito. A menina está o tempo todo à vontade, de cabeça erguida, fazendo caras e bocas e se comportando de acordo com a etiqueta social exigida naquele ambiente. O moço do lixo, por sua vez, está sempre de cabeça baixa, fechado, reticente, esperando uma ordem para ir até o local em que pode lavar o sangue do ferimento ocasionado pela batida do carro. Contudo, as paradas certeiras da câmera indicam que ele não está alheio àquele universo.
Este recorte apresentado em Chorume , mesmo com a cena de preconceito que é resumida na sinopse do filme (“e o prêmio de fantasia mais realista vai para... O lixeiro fedorento”), não coloca o trabalhador em uma posição de vítima indefesa, mas na de alguém que, mesmo acuado diante de uma situação humilhante, está atento e é crítico da situação. No entanto, apesar de incentivar estas possibilidades de leitura, o curta-metragem parece que não se propõe a ir além, desfazendo narrativamente o conflito à medida que os personagens vão voltando para as próprias rotinas. E, talvez, seja isso que cause a impressão de que o filme de Villela não tem muita coisa a dizer.
O outro – A última ficção em curta-metragem digital, Ruínas , de Emílio Gallo traz um encontro de um homem em situação decadente com um jovem que, pela postura, vestimenta e gestualidade, parece estar em pleno momento de estrelato. Este encontro serve como mote para uma discussão sobre os altos e baixos da vida e a maneira como os artistas são tratados pela indústria das celebridades. Gallo convidou os atores Otávio Augusto e Caio Blat para interpretarem os protagonistas do filme, que são acompanhados apenas por uma cadela vira-latas, que foi batizada de Sucata.
A
presença do animal no filme, como única
amiga do homem decadente, lembra um pouco a fidelidade
de Baleia, a cadela morfina de Vidas Secas ,
que acompanha a família sofrida em busca de dias
melhores. Em Ruínas , o espectador é
convidado a refletir se existem dias melhores para alguém
que ofertou a própria existência em troca
de um ideal no universo da fama – seja este o de produzir
arte ou de servir ao mercado das celebridades. Assim,
se Baleia recebeu aquele nome para contrastar com a
condição de miserabilidade em que se vivia
no sertão, Sucata acaba sendo uma extensão
do próprio homem a quem faz companhia.
Os diálogos entre os personagens enfatizam este processo de melancolia diante do declínio e do esquecimento. É como se a única coisa que restasse àquele ser moribundo que vaga pelo parque, a esperar o momento de sua morte, fosse relembrar os seus dias de glória, em uma espécie de busca pelo próprio valor. Assim, Emílio Gallo traça uma visão bastante pessimista do percurso dos artistas, no Brasil, e o título do curta-metragem evidencia isso. A ruína, os restos do que alguém foi um dia, como perspectiva de futuro. O filme deu a Otávio Augusto o prêmio de Melhor Ator da categoria, nesta edição do Cine PE.
Fábula – O argumento de Na Corda Bamba , curta de animação dirigido por Marcos Buccini, parece concordar com a perspectiva de Ruínas , de que a tendência do homem é ser engolido pela roda viva, como dizia o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, no conto obra-prima A Dama da Noite . O enredo de Buccini, no entanto, não é tão primoroso quanto o de Abreu e nem parece querer se debruçar sobre indagações semelhantes às de Gallo. O curta-metragem se consola em constatar que é preciso transformar a indiferença da vida contemporânea em qualquer outra coisa mais alegre e produtiva.
A mesma trama foi desenvolvida em outros diversos filmes e este, apesar de ser divertido, não oferece uma perspectiva marcante. Na verdade, vendo Na Corda Bamba e outras animações que foram exibidas neste Cine PE , bateu uma saudade enorme de Historietas Assombradas , exibida no ano passado, pois, além de bem feita, o diretor e o roteirista sabiam contar histórias. O problema de Na Corda Bamba é que ao invés de deixar o espectador com vontade de rever o filme, desperta o desejo de reviver outros momentos alegres, como uma boa sessão de circo.
Sensacional! – Contudo,
houve um projeto que se destacou a ponto de receber
metade das premiações destinadas aos curtas-metragens
em vídeo digital. A obra pernambucana O Jumento
Santo e a Cidade Que Se Acabou Antes de Começar
, dirigida por William Paiva e Leonardo Domingues,
e roteirizado por André Muhle e Léo Falcão,
mostra mais uma narrativa engraçada, envolvendo
elementos da cultura popular e da religiosidade nacional.
Nesta obra, o jumento Limoeiro é enviado à
terra para salvar a humanidade dos desvios patrocinados
pelo Diabo, no momento em que Deus
percebe que algumas de suas idéias falharam no
processo de elaboração do mundo.
A matriz cultural da narrativa vem de outros tempos, mas O Jumento Santo e a Cidade Que Se Acabou Antes de Começar foi contaminado pela parte criativa do processo. Embora tendo sido produzido pelo mesmo núcleo de animação de Na Corda Bamba , o filme de Paiva e Domingues foi mais bem estruturado que o anterior. O trabalho dos dois jovens pernambucanos, além de contar com a força de Léo Falcão, que tem uma carreira destacada como bom roteirista, conseguiu aproveitar elementos que são bastante recorrentes na tradição popular e fazer um trabalho que soma um pouco mais, ao invés de simplesmente repetir o mesmo enredo em outros formatos. Ao receberem cada um dos prêmios de Melhor Vídeo, Melhor Roteiro, Melhor Montagem e Prêmio Especial da Crítica, os diretores saudaram o público e a imprensa gritando “Sensacional!”. 
ESPECIAL CINE PE
MANIFESTO POVO - Ato público na abertura do Cine PE reivindica proximidade entre o cinema e a população.
EM BUSCA DO ELO PERDIDO - Representantes de vários setores do audiovisual mostram propostas e iniciativas para integrar a cadeia do audiovisual independente.
O CINEMA QUE PENSA - Mesa – redonda reuniu Nelson Pereira dos Santos, Ivana Bentes e Myrna Brandão para debater o audiovisual como instrumento de reflexão.
EM PRIMEIRO PLANO - Documentários digitais destacaram personagens singulares e pontos de vista definidos dos cineastas
ALEGORIAS DIGITAIS - A fábula também foi privilegiada como recurso narrativo entre os curtas-metragens em vídeos digital. |