CINEMA
AO AR LIVRE
Parque da Juventude
exibe filmes brasileiros em supertelão
por Rodrigo Herrero (
rodrigo@rabisco.com.br
)
Fotos: Thiago Vieira (
thiago@rabisco.com.br
)
 á
pensou assistir a um filme em um telão de cinema
montado à noite dentro de um parque? Essa idéia,
que pode parecer maluca, ocorreu durante seis noites
no Parque da Juventude, situado onde, até pouco
tempo, era o presídio do Carandiru, na zona norte
de São Paulo. Filmes como Antônia ,
Trair e Coçar é só Começar
, Doutores da Alegria, Irmã Vap – O
Retorno, Cinema, Aspirina e Urubus , puderam ser
vistos gratuitamente pelo público paulistano.
Trata-se de uma tentativa de democratizar o acesso ao
cinema a um maior número de pessoas, que, por
muitas vezes, não têm condições
de assistir filmes, ainda mais no caso de películas
nacionais, tão pouco exibidas nas grandes e caríssimas
redes de cinema dos shopping-centers da capital paulista.
A
reportagem do Rabisco esteve na estréia
do evento, ocorrida no feriado de 1º de maio, quando
ocorreu a exibição de Antônia
, filme de Tata Amaral, em que q uatro amigas de
infância sonham em viver da música e formam
um grupo que faz sucesso até enfrentar problemas
com o dia-a-dia violento em que vivem . O problema é
que era uma terça-feira fria, que espantou um
pouco o público, não chegando a trezentos
espectadores, frustrando a expectativa dos organizadores
de receber mil pessoas por sessão. Difícil
de compreender, já que a estação
Carandiru do metrô fica ao lado do parque. A provável
e rotineira pouca divulgação de um evento
cultural no Brasil, aliada ao feriado, também
pode ter contribuído para essa ausência.
Idéias se multiplicam, mas suas execuções
sempre sofrem para alcançar as pessoas que são
o objetivo de ações como essa.
Um enorme descampado foi disponibilizado
para abrigar o público. O chão era composto
por pedras pequeninas, assemelhando-se ao cascalho.
A organização do evento pedia que fosse
levado de casa uma toalha, almofada ou cadeira para
todos se acomodarem. Mas poucos aderiram, preferindo
sentar no gramado ou mesmo ficar em pé. Ainda
assim foram dispostas pelos próprios organizadores
algumas cadeiras de plástico, todas tomadas pelo
pessoal que chegou mais cedo.
O
público, formado em sua maioria por jovens e
adolescentes, aproveitou o programa noturno de fim de
feriado prolongado. A beleza da lua cheia em um céu
limpo trouxe um clima romântico para os casais
que podiam comer pipoca de um velho carrinho, com o
costumeiro senhor de idade a vender pipoca doce ou salgada,
ao gosto do freguês. Guardas do parque garantiram
a segurança do local, que ainda está em
obras, com áreas fechadas de serviços
inacabados aos montes.
Para viabilizar um cinema ao ar livre
de qualidade, a Rain Brasil Cinema Digital, organizadora
do evento, que contou com o apoio do Governo do Estado
de São Paulo e do Ministério da Cultura,
colocou uma tela de cinco metros de altura por nove
metros de largura, ou seja, uma verdadeira tela de cinema,
montada em uma estrutura metálica. Um projetor
digital de alta definição foi disposto
há 40 metros da tela para exibir os filmes com
a melhor precisão possível.
O
áudio proporcionava alguns poucos ecos, nada
grave. Somente as crianças que brincavam no playground
do parque, nas costas da platéia, interrompiam
o silêncio dos que prestavam atenção
na estória das “Antônias” do filme. A pouca
luz do parque, iluminado apenas por pequenos postes
de luz laranja, fez com que o local se assemelhasse
a uma sala de cinema, excetuando-se os prédios
carregados de luzes diversas, o movimento da avenida
Ataliba Leonel em frente e do metrô pelo alto,
que passava de tempos em tempos e trazia um colorido
diferente atrás do telão.
A uma hora e meia de exibição
do filme ocorreu em um clima bastante agradável,
indicando que a iniciativa poderá ter o retorno
desejado caso seja contínua, com mais apresentações
da sétima arte para o público que carece
tanto de acesso à cultura.  |