CINEQUESTÕES
Depois de uma
semana de filmes e debates, o Cine PE encerra
sua décima primeira edição com
várias reflexões
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br
)
Fotos: Hugo de
Lima
décima primeira edição do Cine PE – Festival do Audiovisual mostrou que o festival pernambucano começa a apresentar, no início de sua segunda década, os benefícios e danos de um encontro cinematográfico de maior porte. Embora ainda seja apontado como um espaço de circulação da produção independente do país, é possível observar que a dinâmica do festival demonstra uma tendência de integração à lógica da indústria do cinema, que tem consumido outros festivais pelo país.
Um dos maiores exemplos estava na seleção dos filmes concorrentes. Quem é acostumado a ir a festivais e assistiu todas as noites do Cine PE foi capaz de adivinhar facilmente quem iria levar, ou não, as estatuetas para casa. As zebras foram mínimas. Quase todos sabiam que o prêmio de Melhor Filme iria ou para Cão Sem Dono , de Beto Brant e Renato Ciasca, que trata de uma forte relação amorosa, adaptada do livro homônimo do escritor gaúcho Daniel Galera, ou para Não Por Acaso , de Philippe Barcinsky, que entrecruza duas belas narrativas dramáticas sobre a tentativa de controlar os rumos da vida. Brant e Ciasca foram os premiados.
Não
é nem que estes foram, de longe, os dois melhores
longas-metragens do festival. Cinco Frações
de Uma Quase História , dirigido em um conjunto
por Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme
Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia, é
um trabalho surpreendente e poderia ter levado o prêmio.
Além disso, ainda havia outros bons trabalhos
como O Coco, A Roda, O Pneu e o Farol , de
Mariana Fortes, que foi feliz ao trazer para tela um
movimento que ficaria restrito ao circuito cultural
de Olinda se a diretora não se propusesse a mostrar.
O único que ficou aquém das expectativas,
e dos demais concorrentes, foi Atabaques Nzinga
, de Octávio Bezerra, que levanta boas perguntas,
mas não foi muito bem concretizado cinematograficamente.
Uma das poucas “zebras” ocorreu com o prêmio de Melhor Diretor, que foi para Ricardo Elias, por Os 12 Trabalhos , deixando muitas pessoas perplexas, uma vez que Barcinsky e a dupla Brant & Ciasca eram, mais uma vez, os favoritos para o prêmio. Contudo, a Calunga dada a Elias fez com que Os 12 Trabalhos fosse observado por outra perspectiva, uma vez que a pergunta “por que este prêmio foi merecido?” ficou em destaque. A discussão foi reforçada ainda pelo prêmio de Melhor Roteiro, que havia sido concedido antes ao mesmo longa-metragem. No mais, tudo correu dentro do esperado. Inclusive, em relação àqueles filmes que se sabia que, mesmo estando na competição, dificilmente receberiam uma estatueta.
Este é um dos pontos que precisam ser observados pela organização do Cine PE . A previsibilidade é boa para o festival? Vale a pena perguntar porque a seleção de longas-metragens foi quase toda composta por obras inéditas no país, exceto por Os 12 Trabalhos . Se a mostra competitiva possuía esta característica e, mesmo assim, o expectador foi capaz de perceber facilmente quem seria premiado, ou os curadores e jurados estão seguindo uma tendência ou é o próprio circuito de produção cinematográfica que está previsível. Em todo caso, está lançada a questão.
Personagens - Por outro lado, é preciso ressaltar que, pelo menos nas categorias de curtas-metragens em vídeo digital e curtas-metragens em 35mm, a seleção foi bem mais equilibrada que a do ano passado. Isso mostra que os projetos audiovisuais de menor duração continuam sendo os melhores laboratórios de futuros bons filmes. Este ano, porém, os trabalhos de ficção foram mais interessantes que os de 2006, com narrativas cotidianas bem contadas. Um exemplo foi Beijo de Sal , de Felipe Gamarano, que traz uma história de amizade que entra em crise após a inserção de uma terceira na relação.
Gamarano trouxe uma personagem forte e conflituosa, na pessoa de Rogério, que mexeu com o público. Por sinal, as personagens foram o grande destaque tanto das ficções quanto dos documentários do Cine PE . Ao sair de situações mais gerais para focar em pessoas, passagens e dramas mais específicos, os diretores abriram possibilidades maiores de diálogo com o público. Assim, sempre havia alguém que havia passado por uma situação semelhante à mostrada na tela ou que saía das sessões comentando sobre uma ou outra figura que havia chamado atenção.
De
fato, há pouco mais de uma semana do fim do festival,
ainda não foi possível esquecer a pequena
Joyce, com sua carta de amor; os irmãos Aniceto
questionando o papel dos cineastas diante das pessoas
que eles filmam; Stela do Patrocínio dizendo
“você me come tanto com os olhos, que eu já
não tenho de onde tirar forças para te
alimentar”; o Homem-Livro, que afirmava que Paulo Coelho
era a Xuxa da literatura brasileira; o desenhista e
escritor Lourenço Mutarelli, com aquele depoimento
pungente sobre si mesmo; entre outros, como o rapper
Diamondog e o artista plástico Kuta Ndumbu, refletindo
a essência dos conflitos em Angola e a vida no
Brasil.
Nestas categorias, ao contrário dos longas-metragens, se verificou uma distribuição mais uniforme dos prêmios. A única exceção foi o trabalho pernambucano O Jumento Santo e A Cidade Que Se Acabou Antes de Começar , que levou quatro estatuetas na categoria vídeo digital, ou seja, a metade das premiações do gênero. Entre os curtas-metragens em 35mm, o grande vencedor foi Vida Maria , do cearense Márcio Ramos, também com quatro Calungas - este filme, inclusive, está na seleção do Festival Entretodos, que ocorre até o dia 20 de maio, em São Paulo.
A categoria de curtas-metragens em 35mm possuía uma lista de quinze premiações e contemplou outros bons projetos. Entre eles Joyce , de Caroline Leone; O Homem , que deu o prêmio de melhor ator ao estreante Nando Cunha, que fazia o papel de um guarda de trânsito inescrupuloso; Fúria, de Marcelo Laffitte, que foi baseado no livro A Fúria do Corpo , de João Gilberto Noll, e recebeu as estatuetas de Melhor Direção de Arte e Melhor Atriz, para Joana Seibel; e Noite de Sexta Manhã de Sábado , de Kleber Mendonça Filho, que ficou com o prêmio de Melhor Diretor.
Público – A
sorte de uma seleção melhor de curtas-metragens
foi da platéia do CinePE , uma vez que
o gênero ainda sofre com pouco espaço para
exibição, principalmente dos mais jovens,
que eram freqüentadores assíduos das sessões.
Com os ingressos vendidos a quatro reais (meia-entrada)
e oito reais (inteira) o festival foi acompanhado, majoritariamente,
de pessoas na faixa etária entre 15 e 30 anos.
No entanto, aquelas pessoas que precisavam acordar muito
cedo para trabalhar durante a semana, não estiveram
tão presentes ao festival; exceto os cinéfilos.
Ainda assim, os três mil lugares do Teatro Guararapes
estiveram quase todos ocupados durante boa parte do
evento. Quem estava sentado mais próximo ao local
em que os cineastas apresentavam os filmes, percebia
o olhar assustado deles ao ver aquela platéia
esperando para ver e avaliar as exibições.
Contudo,
foi possível perceber que o maior número
de pessoas compareceu, mesmo, no fim-de-semana, quando
o tempo era maior e as celebridades estariam presentes
no local. Este casamento entre fim-de-semana e gente
famosa que fez o público comparecer, a ponto
de ser quase impossível descer as escadas do
cine-teatro, é que reforça este reflexão
sobre a inserção do festival nesta lógica
da indústria do cinema. É possível
pensar até na existência de dois encontros
cinematográficos dentro do mesmo Cine PE
: aquele que ocorre durante a semana e agrega as
pessoas interessadas em conhecer novos filmes, cineastas
e linguagens, e um outro que ocorre no fim-de-semana
e acaba servindo um pouco ao ambiente de culto às
celebridades.
Isso porém, não diminuiu a influência da resposta popular sobre os diretores. Nas coletivas de imprensa, era sempre recorrente a frase “eu fiquei feliz porque as pessoas receberam bem o meu filme”. É a demonstração de que, na falta do amor dos críticos, o carinho do público ajuda a motivar carreiras. Este ano, não houve nenhum caso de vaias, o que deixou os realizadores mais tranqüilos. O público, também, deu a alguns cineastas, não premiados pelo júri, a oportunidade de receber uma Calunga na cerimônia de encerramento. Neste sentido, a ficção infanto-juvenil O Sapo , o curta-metragem Cabaceiras e o longa-metragem O Mundo Em Duas Voltas , dirigido por David Schürman, um dos integrantes da famosa família de navegadores brasileiros, que filmou a mais recente aventura dos pais, foram os principais beneficiados.
Discussões – Além dos filmes, o Cine PE realizou o tradicional ciclo de seminários, no Recife Palace Hotel, com mesas-redondas propostas por cineastas, pesquisadores, produtores, distribuidores e outras áreas do ramo audiovisual. Este ano, as discussões privilegiaram o cinema como instrumento de reflexão, tema de uma das mesas-redondas, que foi proposta pelo crítico e professor pernambucano Alexandre Figueirôa.
O primeiro seminário discutiu A Cadeia Produtiva do Audiovisual: Registros, Pesquisas, Estudos e Experiências Inovadoras na Distribuição e Exibição. O segundo seria Cinema e Turismo: Identidades, Divergências e o Papel dos Film Comissions , mas a discussão precisou ser adiada por conta de problemas com os aeroportos do país, que impediram a chegada dos participantes na data da mesa-redonda.
O
terceiro dia trouxe e tema O Cinema Independente
“Abre Cabeças”: A Arte Audiovisual como Instrumento
de Reflexão . Este foi, talvez, o mais freqüentado
dos debates, com a presença de Nelson Pereira
dos Santos, da pesquisadora Ivana Bentes e da jornalista
Myrna Brandão. O último seminário
foi intitulado As Oportunidades de Investimentos
No Produto Audiovisual e ocorreu paralelamente
ao de Cinema e Turismo , que acabou sendo alocado
no último dia de discussões.
Entre os seminários citados, a Revista Rabisco acompanhou as discussões apresentadas no primeiro e no terceiro dias. Os leitores podem conferir os resultados nesta edição. No entanto, as novidades e discussões do Cine PE não pararam com as mesas-redondas. A Cinemateca Brasileira e o Ministério da Cultura aproveitaram a oportunidade para lançar a Programadora Brasil, que está cadastrando cineclubes e pontos fixos de exibição de universidades, associações comunitárias, entre outros, para realizar contratos licença de exibição de filmes nacionais por um prazo de dois anos.
Além disso, o público interessado em cinema também teve a oportunidade de se inscrever e participar de oficinas técnicas de produção de cinema, figurino e crítica cinematográfica. Esta última, ministrada pela jornalista Maria Rosário Caetano e pelo também jornalista Luiz Zanin, realizou uma de suas atividades durante o seminário O Cinema Independente “Abre Cabeças” , fazendo uma integração entre dois espaços de discussão do Cine PE . O encontro serviu, ainda, para a reunião do Congresso Brasileiro de Cinema, do Encontro de Representantes de Cineclubes, do Fórum dos Festivais, do Programa Cinema do Brasil e da reunião da APCNNE.
Boas surpresas – Estes encontros e discussões serviram, inclusive, como base para anunciar duas boas novidades para o circuito cinematográfico local: a instalação do Centro de Tecnologia Audiovisual (CTAV) Nordeste, na sede do cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), e de um Núcleo de Produção Audiovisual, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Os anúncios foram feitos durante a cerimônia de premiação do Cine PE pelos representantes das próprias instituições.
A produtora Isabela Cribari, da Fundaj, convidou todos os realizadores da região para conhecer o projeto e usufruir os benefícios que o CTAV vai trazer para o nordeste. O Reitor da UFPE, Amaro Lins, por sua vez, afirmou o Núcleo Audiovisual trabalhará em parceria com a Televisão Universitária, de modo que as produções poderão ser absorvidas pela programação da TVU. Além disso, esta integração abriu espaço para que fosse acelerado o debate sobre a inserção de um curso de Cinema, no Departamento de Comunicação da universidade, de modo que a área ainda tem muito a ganhar, no Estado.
Especial – Para trazer ao leitor mais sobre a diversidade de discussões do Cine PE , a Revista Rabisco decidiu realizar um especial completo sobre o encontro cinematográfico, dividido em três edições. Na edição atual, os leitores poderão conferir os debates envolvendo os seminários A Cadeia Produtiva do Audiovisual: Registros, Pesquisas, Estudos e Experiências Inovadoras na Distribuição e Exibição e O Cinema Independente “Abre Cabeças”: A Arte Audiovisual como Instrumento de Reflexão , e ler, ainda, uma matéria sobre o Manifesto Povo , ato público que artistas independentes e integrantes da Comunidade do Pilar realizaram no dia de abertura do evento.
Em
relação às obras, esta edição
traz um panorama dos curtas-metragens em vídeo
digital exibidos nos formatos documentário, ficção
e animação. Os vinte curtas-metragens
em 35mm e seis longas-metragens que participaram da
Mostra Competitiva do festival serão debatidos
na edição 93 do Rabisco, paralelamente
ao texto que registra a conversa da equipe com dois
funcionários do Centro de Convenções
que tiveram a oportunidade de assistir, entre as brechas
da rotina de trabalho, algumas exibições.
A edição 94, por sua vez, agregará
todas as entrevistas e conversas realizadas com cineastas,
produtores e atores nos bastidores e coletivas de imprensa
do Cine PE . Nas três edições,
contudo, procuraremos informar sobre a participação
dos filmes em outros festivais para que, além
de ler sobre as obras, os leitores possam ir assistir,
também, caso tenham oportunidade. 
ESPECIAL CINE PE
MANIFESTO POVO - Ato público na abertura do Cine PE reivindica proximidade entre o cinema e a população.
EM BUSCA DO ELO PERDIDO - Representantes de vários setores do audiovisual mostram propostas e iniciativas para integrar a cadeia do audiovisual independente.
O CINEMA QUE PENSA -
Mesa – redonda reuniu Nelson Pereira dos Santos, Ivana Bentes e Myrna Brandão para debater o audiovisual como instrumento de reflexão.
EM PRIMEIRO PLANO -
Documentários digitais destacaram personagens singulares e pontos de vista definidos dos cineastas
ALEGORIAS DIGITAIS -
A fábula também foi privilegiada como recurso narrativo entre os curtas-metragens em vídeos digital. |