Picosearch

 


Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

11 a 26 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

EM BUSCA DO ELO PERDIDO
Representantes de vários setores do audiovisual mostram propostas e iniciativas para integrar a cadeia do audiovisual independente
por Ana Lira ( analira@terra.com.br )
Fotos: Ana Lira

primeira mesa-redonda do ciclo de seminários da décima primeira edição do Cine PE – Festival do Audiovisual foi intitulada A Cadeia Produtiva do Audiovisual: Registros, Pesquisas, Estudos e Experiências Inovadoras na Distribuição e Exibição . As discussões ocorreram no Hotel Recife Palace, em Recife, onde funcionou toda a produção do festival. A mesa foi coordenada pelo cineasta Geraldo Moraes, do Distrito Federal com a participação de Felipe Macedo, do projeto Pop Cine, de São Paulo; Emanoel Freitas, representante do Festival de Cinema de Belém; Petrus Barreto, da Distribuidora Conteúdo Brasil; Alexandre Ferreira, do Sebrae; Fernando Pimenta, do Conselho Nacional de Cineclubes; e do professor Stefano Florissi.

À medida que as pessoas foram se acomodando, o coordenador do debate, Geraldo Moraes, afirmou que a importância de uma mesa-redonda como aquela era responder a algumas questões do cinema brasileiro. Para o cineasta era muito incômodo que alguém demorasse dez anos para conseguir montar um filme no país e tivesse que colocar o produto na prateleira de casa por falta de espaço para circulação. Diante disso, eles decidiram unir forças com cineclubes, salas alternativas de exibição e projetos como o Cine Sesc e o Pop Cine, em São Paulo, que segundo o mediador são “projetos feitos com o coração e que ajudam os filmes brasileiros a circularem”.

Todavia, além da circulação, perguntas envolvendo a quantidade de produção de filmes brasileiros, o que fazer com estes filmes e como lidar com direitos autorais, entre outras, também precisavam ser debatidas e respondidas e, assim, o grupo decidiu promover encontros e seminários com o intuito de distribuir informações sobre estes temas e agregar mais gente para trabalhar junto e continuar pesquisando soluções. Assim, o seminário em Recife, mais do que discutir problemas da cadeia do audiovisual, mostrou como grupos de várias regiões do país têm atuado para conseguir levar o cinema para o maior número de pessoas possível.

Norte - O primeiro a falar sobre o assunto foi Emanoel Freitas, representante do Festival de Belém. O produtor disse que os filmes independentes brasileiros não chegam ao norte e ao nordeste do país. Freitas explica que para colocar um filme em uma sala de exibição comercial, os realizadores precisam fazer acordo com empresas localizadas em outros países, para que as obras entrem nos pacotes que terão exibição nacional, porque são estas organizações internacionais que ocupam o espaço dos cinemas comerciais brasileiros. A dificuldade, segundo ele, de negociar diretamente no Brasil é que, muitas vezes, o período livre oferecido para a exibição do filme é entre duas grandes produções. “Algumas vezes, o teu trabalho faz sucesso, tem boa bilheteria, mas não pode ficar em cartaz porque tem um filme grande para entrar na programação”, afirmou Freitas.

Neste sentido, além do Festival de Belém do Cinema Brasileiro , o produtor participa ainda do projeto Caixeiro Viajante , que agrega um núcleo de cinema itinerante que promove ações como “cinema vai às ilhas”, “cinema vai aos bairros” e “cinema vai às praias”, que aproveita os períodos de veraneio nos balneários e realiza mostras de filmes em horários de pouca atividade, entre o fim da tarde e o começo das festas realizadas no final da noite. Outro viés das exibições itinerantes ocorrem em presídios, orfanatos, asilos, leprosários, entre outros, dentro do programa “Cinema Pelo Social”. Emanoel Freitas diz ainda que “o objetivo do projeto também é levar o cinema até as pessoas que podem circular livremente, mas que, de certa maneira, deixam de freqüentar alguns lugares porque estão presas a rótulos que são socialmente excludente, como é o caso das prostitutas”, disse.

Para que os projetos dêem certo, o produtor afirma que é preciso ter muita organização e programar as sessões com cerca de um mês de antecedência, de preferência fazendo parcerias com prefeituras e instituições, de modo que as mostras possam até aparecer no calendário de atividades de cada município. “É que tudo isso é feito com mídia alternativa e transportado em carro, em ônibus, em barco. Às vezes, o deslocamento é muito grande até uma determinada ilha para se correr o risco de não ter a exibição. Nós trabalhamos com filmes em 35mm e em DVD, mas nas ilhas ficamos apenas com DVD porque a energia é produzida através de gerador”, afirmou Freitas.

Além da circulação dos filmes, ele diz que o programa tem investido na formação das pessoas, criando grupos de discussão sobre cinema. O grupo que ele participa tem contabilizado cerca de duzentas ações em andamento tendo o cinema como foco. Em paralelo, o produtor afirma que eles trabalham com a população para sensibilizar as pessoas para os seus direitos. “Em uma das exibições em uma localidade, nós colocamos cadeiras e uma senhora estava em pé. Nós, então, perguntamos: a senhora não vai se sentar? Ela respondeu: não, as cadeiras são para as autoridades. Ela achava que não tinha direito de ocupar uma cadeira porque a cultura é de privilegiar quem tem poder”, disse. O projeto itinerante é ligado ao Festival de Belém que traz mais informações no site do evento.

Salas independentes - O segundo conferencista a conversar com o público foi Felipe Macedo, um dos organizadores do projeto Pop Cine, de São Paulo. Antes de falar sobre a iniciativa de salas de cinema populares, Macedo fez uma breve exposição o problema do controle dos espaços de exibição por um grupo restrito de empresários. Segundo ele, quando as distribuidoras eram independentes, os representantes das salas de cinema possuíam mais liberdade de negociação, uma vez que se eles não podiam mostrar o filme de um estúdio “x”, bastava adquirir os direitos de exibição da concorrência.

“O problema é que depois as empresas se fundiram em três grandes grupos: Fox, Warner e Columbia. Então, eles se organizaram e passaram a trabalhar com acordos fechados, preços fixos, prejudicando principalmente o pequeno exibidor. Assim, as salas de cinema no Brasil foram fechando. Os cinemas de bairro, os cinemas do interior foram todos fechados”, contou Macedo. Ainda segundo o representante do Pop Cine, apenas 8% da população brasileira freqüenta o cinema uma vez por ano e, entre o número de pessoas que compõem esta percentagem, apenas 1% delas vêem filmes brasileiros. Se o número é pequeno, assusta ainda mais pensar que cerca de 92% da população nunca foi ao cinema.

Outro grande obstáculo ao crescimento do circuito cinematográfico nacional, de acordo com Macedo, é que o mercado, no Brasil, se organiza de maneira parecida com o do cinema americano, ou seja, com salas multiplex e ingressos que custam cerca de 5% do salário mínimo. “Para piorar, o que se vê são ações que, ao invés de repensar este modelo, se estruturam para fortificá-lo. Em Bauru, por exemplo, existe uma sala de cinema que o ingresso custa 40 reais e você é servido por um garçom”, comenta. Felipe Macedo diz, ainda, que para se montar uma sala de cinema do porte de um multiplex, hoje, no país, é preciso investir cerca de um milhão e meio, o que é algo inviável para a maioria dos independentes.

Por este motivo, o modelo do Pop Cine foi pensado. A estrutura completa custa cerca de 150 mil reais, mais os apoios e patrocínios necessários para fazer o cinema chegar ao público. No caso deles, o apoio foi dado pelo cineasta João Batista de Andrade, que foi secretário e, assim eles montaram vinte salas de cinema no interior de São Paulo. O projeto não é organizado por nenhum grupo econômico e, sim, pelo Centro de Produção de Cinema (CPCine), que é uma organização não-governamental. A estrutura foi pensada para não permitir apropriação de gestão e prejudicar a iniciativa.

Assim, eles conseguem manter um cinema com ingressos custando 4 reais (inteira) e 2 reais (meia-entrada). A capital de São Paulo possui duas salas do Pop Cine e tem mais dez em vias de instalação. Embora não ligados ao projeto Pop Cine, existem salas de cinema com o mesmo perfil em outras cidades do Brasil. Em Recife, também existem dois espaços de exibição similares ao Pop Cine, os Cine-Teatros do Parque e Apolo, que são mantidos pela Prefeitura da Cidade do Recife. As sessões do Parque, no entanto, possuem o preço único de 1 real e o local possui capacidade para mil pessoas.

Recursos escassos - O problema levantado por Felipe Macedo sobre a manutenção das salas de cinema foi discutido pelo professor e economista Steffano Florissi. Há alguns anos, Florissi vem se envolvendo com questões relacionadas à economia da cultura e disse que está se aproximando de pessoas ligadas a diversas áreas do audiovisual com o intuito de fazer parcerias. O economista argumenta que a sua área de atuação pode contribuir muito para o audiovisual, no sentido de oferecer possibilidades de solução para os problemas enfrentados pela área atualmente e até de calcular o impacto das ações pensadas, pelos produtores e realizadores, na vida das pessoas.

Steffano Florissi acredita que é importante pensar em uma maneira o Governo Federal ajustar recursos vindos da iniciativa privada para dar suporte a projetos que visem democratizar o audiovisual. A principal preocupação do economista são os recursos públicos. “Nós precisamos ver como isso pode ser feito. Se não há recursos privados, precisamos pensar como é que estruturaremos os projetos com recurso público. O que não pode é ficar usando o recurso público como se ele fosse abundante e eterno, e ele não é. Infelizmente, é assim que o recurso público vem sendo tratado e se não tiver cuidado, um dia acaba. Então, como vai ser?”. Florissi também está propondo o desenvolvimento de um estudo que identifique subsídios para políticas públicas visando o aumento da competitividade da indústria do entretenimento do audiovisual.

Liberdade de exibição - Após as considerações do economista, a palavra foi dada ao secretário do Conselho Nacional de Cineclubes, João Batista Pimentel, que iniciou sua participação dizendo que o principal problema era continuar tratando a questão das artes como cultura. Pimentel acredita que a primeira coisa que deve ser transformada é a cultura de se falar em artes como cultura. Para ele, cultura é uma coisa muito mais ampla e as artes necessitam resolver questões urgentes.

Para ele, o grande diferencial entre o trabalho que eles desenvolvem e o que os demais colocam em prática, é que enquanto a intenção de muitas iniciativas é formar platéias, a deles é organizar platéias. “Os cinemas itinerantes são legais, mas você exibe hoje e vai passar de novo quando? Então, o que você está oferecendo é entretenimento, mas não está formando platéias. O que a gente quer é criar pontos de exibição permanentes”, disse. O obstáculo mais forte, como os demais participantes colocaram, também é, na visão de João Pimentel, a relação entre cinema e mercado. “O Conselho Nacional de Cineclubistas está trabalhando com a licença Creative Commons, que tem facilitado todo o processo de circulação de obras”, comentou.

O uso do Creative Commons e de licenças que permitem a exibição livre de filmes, desde que respeitem os critérios adotados por cada autor ou responsável pelos direitos da obra, tem sido uma boa estratégia para lidar com questões de ordem política, como a concentração de informação, segundo Pimentel. Além disso, ele vê na democratização do audiovisual e na ocupação dos espaços públicos com cinema de qualidade uma forma de amenizar a questão da violência. Para o secretário do CNC, o que não pode ocorrer mais é o Governo Federal pagar para estruturar o circuito cinematográfico e o povo não ter acesso.

Cadeia produtiva - O representante do Sebrae, Alexandre Ferreira foi bem breve em sua exposição. Ele informou ao público presente que a instituição realizou um mapeamento da chamada cadeia produtiva do audiovisual e que os bons resultados para a área podem ser apontados com o crescimento dos Centros de Tecnologia Audiovisual (CTAV), como o que estava sendo aberto em Recife, na mesma época do Cine PE. Ele destacou a importância da parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, na figura da produtora Isabella Cribari e pediu que fosse divulgado o e-mail para as pessoas que estivessem interessadas em receber os resultados do mapeamento pela internet. O endereço

Direito e distribuição - O último a tecer considerações na mesa-redonda foi o representante da Distribuidora Conteúdo Brasil e advogado Petrus Barreto. Ele foi convidado pelos organizadores do seminário para falar sobre as implicações jurídicas que emperram o processo de distribuição do audiovisual, no Brasil. Barreto afirmou que isso é uma questão central porque, na visão dele, a produção audiovisual é uma relação jurídica do começo ao fim. “Qualquer detalhe que você deixa de observar faz diferenças e pode ocasionar perdas, do ponto de vista jurídico”.

Um dos exemplos dados por Petrus Barreto é a equipe de um filme que organiza um contrato com os atores para e esquece de acertar detalhes de exibição da obra em outros espaços do circuito cinematográfico, como canais abertos e televisões a cabo, por exemplo. “Então, surge a oportunidade de assinar um acordo e ele acaba não se efetivando porque na elaboração do contrato alguém esqueceu de levar isso em consideração. Então, mesmo que a gente tenha o filme em mãos e haja interesse das partes, ele não pode ser veiculado por causa desta lacuna”, disse.

Barreto afirma ainda que isso é bastante recorrente e se deve, muitas vezes, ao amadorismo como feitos alguns contratos. Segundo ele, e outros participantes da mesa, às vezes, para fechar projetos, há produtores que copiam contratos da internet com as questões básicas e não se preocupam em pensar um formato que seja ideal para as necessidades da produção que está sendo executada. Ele acredita que é necessário ampliar este conhecimento jurídico entre as pessoas do meio.

Como exemplo de uma relação jurídica eficiente, ele cita os contratos de licenciamento feitos em Creative Commons. Petrus Barreto diz que esta licença, além de facilitar a distribuição, é, em essência, o pleno exercício do direito autoral, uma vez que o autor é quem decide onde, como e para quem aquela obra pode ser veiculada. Assim, na visão do advogado e distribuidor, o ideal é investir em informação para que este amadorismo seja colocado de lado, de modo que iniciativas como o que ele participa, na Distribuidora Conteúdo Brasil, possam continuar ajudando a produção audiovisual.

O seminário encerrou quase sem abrir espaço para debate, porque estava quase na hora do começo das exibições no Centro de Convenções de Pernambuco, que se localizava na ponta oposta ao Recife Palace Hotel, onde estava montada a organização do evento. O coordenador da mesa Carlos Moraes agradeceu a participação do público e desejou que projetos similares pudessem ser criados com o intuito de abrir cada vez mais espaço de produção e circulação do cinema brasileiro.

ESPECIAL CINE PE

MANIFESTO POVO - Ato público na abertura do Cine PE reivindica proximidade entre o cinema e a população.

EM BUSCA DO ELO PERDIDO - Representantes de vários setores do audiovisual mostram propostas e iniciativas para integrar a cadeia do audiovisual independente.

O CINEMA QUE PENSA -
Mesa – redonda reuniu Nelson Pereira dos Santos, Ivana Bentes e Myrna Brandão para debater o audiovisual como instrumento de reflexão.

EM PRIMEIRO PLANO
- Documentários digitais destacaram personagens singulares e pontos de vista definidos dos cineastas

ALEGORIAS DIGITAIS
- A fábula também foi privilegiada como recurso narrativo entre os curtas-metragens em vídeos digital.