EM
PRIMEIRO PLANO
Documentários
digitais destacaram personagens singulares e pontos
de vista definidos dos cineastas
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br
)
Fotos: Divulgação
edição 2007 do Cine PE trouxe uma novidade para a área de vídeos digitais. Os curtas-metragens exibidos neste formato abriram espaço para diretores de todo o país. Até ano passado, a mostra de vídeos era restrita aos trabalhos da região nordeste, e os cineastas de outros estados do Brasil poderiam enviar curtas-metragens apenas em 16mm ou em 35mm. A abertura da categoria para talentos nacionais teve um impacto imediato nas inscrições do festival, que contou com 319 vídeos digitais inscritos. Destes, dez foram selecionados para a mostra competitiva e três para o Projeto Revelando Brasis, que ocorreu no penúltimo dia do festival, apenas com obras pernambucanas.
Entre
os dez selecionados para a competição,
havia cinco documentários. Eu Sou Como Um
Polvo , dirigido por Sávio Leite, foi o
primeiro do gênero a ser exibido no segundo dia
do festival. A obra trouxe um auto-retrato do desenhista
Lourenço Mutarelli, considerado um dos mais importantes
artistas contemporâneos da área, no Brasil.
Para estruturar a apresentação do vídeo,
que é narrada pelo próprio Mutarelli,
Sávio Leite escolheu junto com ele um relato
pessoal do artista. O vídeo tem apenas cinco
minutos, mas o relato de Lourenço Mutarelli é
perturbador o suficiente para marcar o espectador.
Esta apresentação pessoal traz um universo de medo, frustração, desesperança e impossibilidade que caracteriza uma parte importante da visão de mundo do artista e que o motiva a desenvolver os trabalhos com desenhos, histórias em quadrinhos e, agora, literatura. Mutarelli faz um paralelo entre si e um polvo. O animal, quando é atacado, solta uma tinta escura para se defender. O artista se protege desenhando. O elo entre o discurso angustiante e a força dos seus traços remete a histórias de outros gênios do universo dos quadrinhos que questionam a dinâmica social, a exemplo do americano Robert Crumb.
A visão que Lourenço fornece ao espectador, de si mesmo, é tão desconfortante quanto a sua obra e é isso que torna o resultado do trabalho de Sávio Leite tão sincero. Eu Sou Com Um Polvo foi exibido em cerca de 20 festivais de cinema e quadrinhos. O curta-metragem seria em 35mm, mas o resultado em tecnologia digital agradou o diretor, que decidiu não transformar o trabalho em película. Para conhecer mais sobre o trabalho de Mutarelli, há poucos anos o artista enveredou pela área do romance, e o primeiro filme baseado em uma obra sua, O Cheiro do Ralo, estreou este ano – no nordeste entrou em cartaz semana passada - protagonizado por Selton Mello. Além do filme e do próprio documentário de Sávio Leite, o leitor pode procurar pelos quadrinhos do artista, que chegou a ganhar cerca de 12 vezes o HQMix, que é o maior prêmio do setor, no Brasil.
Canto de dor - Um segundo
documentário que também tratou da arte
como forma de diálogo com o mundo foi Além
de Café, Petróleo e Diamantes , dirigido
por Marcelo Trotta, de São Paulo. O curta digital
nasceu de uma pesquisa do diretor para um longa-metragem
e uma coincidência o levou ao artista plástico
angolano Kuta Ndumbu Ngunga e ao jornalista e rapper
Diamondog, que embora oriundos do mesmo país,
lidam com a arte e com o mundo de maneiras diferentes
e complementares. O título do documentário
debate a existência de um contexto envolvendo
Angola, que é desconhecido por quem está
fora do país e que acaba influenciando a diáspora
de seus habitantes.
Os
conflitos do país, que passou por um processo
forte de guerra civil e matou milhares de pessoas, são
mostrados pelos dois personagens de uma maneira um pouco
diferenciada de outros documentários que procuraram
tratar da vida dos africanos no Brasil, a exemplo de
um outro trabalho apresentado no mesmo festival, em
35mm, chamado Identidades em Trânsito .
O que destaca o filme de Marcelo Trotta deste último
é não se contentar em relatar passivamente
a rotina dos dois refugiados em um país que,
mesmo possuindo diversas semelhanças culturais,
continua sendo uma terra estrangeira.
As reflexões de Kuta e Diamondog
mostram de que maneira a arte ajuda a dialogar com os
transtornos emocionais provocados pelo deslocamento
da terra natal e a busca deste novo espaço de
conforto em uma nação semidesconhecida.
No entanto, é possível perceber nos dois
entrevistados aquela sensação que os professores
de história, em algum lugar do esquisito relato
sobre a colonização do Brasil, ensinaram
a chamar de banzo . Os quadros com cores frias
de Kuta Ngunga e as letras indagadoras de Diamondog
se apresentam, na verdade, como canções
de lamento. É o soluçar de dor recitado
por Clara Nunes em “Canto das Três Raças”.
Marcelo Trotta foi muito feliz em realizar Além
de Café, Petróleo e Diamantes , pois,
ele é um documentário sutil, bem feito
e uma de suas maiores qualidades é não
ser confortável. Isso rendeu ao jovem cineasta
o prêmio de Melhor Diretor de Curta-Metragem em
Vídeo Digital.
Singular - Outro documentário bastante incômodo, do ponto de vista da personagem, mas que foi executado com bastante poesia pelo diretor Marcio de Andrade se chama Stela do Patrocínio – A Mulher Que Falava Coisas . A obra traz quatorze minutos dos delírios extremamente lúcidos desta pessoa chamada Stela, que quase ninguém sabe de onde veio, mas que deixa o espectador vidrado no telão. É impossível não se sentir invadido por seus questionamentos e ficar atordoado com as diversas verdades que a figura dela vai implantando em cada pessoa da platéia, ao longo do filme.
É claro que a seleção
dos trechos foi do jornalista e diretor, que teve o
mérito de construir uma narrativa a partir dos
fragmentos de frases, imagens e referências que
sobraram da vida de Stela do Patrocínio. Ainda
assim, a personagem que ele escolheu para trabalhar
é muito forte e percebe-se uma tentativa de Andrade
de neutralizar a influência de uma figura externa
na montagem do discurso, de modo que a personalidade
de Stela flua na tela. Ela pinta e borda com os conceitos
de verdade, mentira, realidade, ficção,
loucura e sanidade que os espectadores possuem.
Além disso, Márcio de Andrade integrou as imagens referentes à vida de Stela com desenhos e texturas que privilegiaram uma construção mais surrealista, enfatizando o caráter singular que a personagem ocupava na sociedade. É neste ambiente que ela diz pérolas como “você está me comendo tanto com os olhos, que eu já não sei de onde tirar forças para te alimentar”. Entre o meio e o final do documentário, o envolvimento com esta mulher é tão forte que o espectador vem se dar conta que o filme terminou quando começam a aparecer cenas de pessoas que conviveram com ela e foram responsáveis pelos registros dos depoimentos e das fotografias.
Andrade
quis homenagear as pessoas que o ajudaram, em uma espécie
de pósfácio cinematográfico, mas
dividiu a opinião da platéia. Para algumas
pessoas, o ideal é que a filosofia de Stela continuasse
ecoando sozinha sem interferências externas, outras
não se incomodaram com aquela homenagem. O filme
foi premiado na cerimônia de encerramento do Cine
PE com um troféu da Associação
Brasileira de Documentaristas (ABD), e, entre os curtas-metragens
em vídeo digital foi um dos que mais agradou
aos expectadores do segundo dia do festival.
Da Vinci - Além de Lourenço Mutarelli e Stela do Patrocínio, outro personagem retratado em documentário que chamou atenção pela trajetória peculiar foi o artista paraibano David Ferreira. A vida dele foi contada no vídeo A Encomenda do Bicho Medonho , de André da Costa Pinto e Carlos Carvalho. Ao contrário dos demais documentários, que colocaram as pessoas retratadas em primeiro plano ao longo de toda a obra, o trabalho de Costa e Carvalho oscilou entre os relatos de Ferreira em primeiro plano e os depoimentos das filhas, que contam como era o convívio com o pai e seus inventos.
David Ferreira chegou a ser comparado a Leonardo Da Vinci, por causa de suas criações. As engenhocas são tão fascinantes que até a história do bicho medonho, que se propõe a ser o impulso do filme, acaba ficando em segundo plano, quando o público toma contato com produção artística do paraibano de 94 anos. Ferreira tem noção do valor de sua arte e os diretores optaram foi por reforçar esta característica de criador consciente e inovador, ao longo da narrativa. Embora não traga novidades estéticas, A Encomenda do Bicho Medonho vale mesmo pelo registro da vida de Ferreira e por apresentar ao público um artista fora de série que boa parte da população nem sabe que existe.
Recado - O único documentário apresentado em formato de curta-metragem em vídeo digital que se deslocava completamente de todos os outros foi Rapsódia do Absurdo , de Claudia Nunes. A jornalista trabalhou durante muitos anos cobrindo os conflitos que envolvem a ocupação de terra no Brasil e registrou tanto o cotidiano das pessoas quanto diversos momentos de tensão entre a polícia e os integrantes do movimento sem-terra. Contudo, para realizar o documentário, ela também contou com imagens fornecidas pelo Centro de Mídia Independente, de Goiás; pelo próprio Centro de Documentação do MST; e pelo cinegrafista Brad Will, que foi morto durante os conflitos na cidade mexicana de Oaxaca, em 2006.
As
imagens que constam no documentário de Nunes
foram retiradas de dois episódios importantes,
na história das ocupações de terra:
as lutas na Fazenda Santa Luzia e no Parque Oeste Industrial,
em Goiás. Integrando imagens, música,
silêncio e som ambiente, ela constrói um
enredo opinativo sobre o tema, sem usar texto ou recursos
como narração em off ; e nem
precisa. A maneira como a seqüência de cenas
foi estruturada deixa um recado bem claro. Acostumada
a ver os movimentos de luta pela terra quase sempre
associados à ilegitimidade, a platéia
do Cine PE ficou entre a aceitação
e o mal-estar, diante de um trabalho que merece ser
visto e debatido com mais atenção.

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EM PRIMEIRO PLANO - Documentários digitais destacaram personagens singulares e pontos de vista definidos dos cineastas
ALEGORIAS DIGITAIS - A fábula também foi privilegiada como recurso narrativo entre os curtas-metragens em vídeos digital. |