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11 a 26 de maio de 2007

Equipe Edições Anteriores

MANIFESTO POVO
Ato público na abertura do Cine PE reivindica proximidade entre o cinema e a população
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )
Fotos: Ana Lira

m dos destaques da abertura da décima primeira edição do Cine PE – Festival do Audiovisual , em Pernambuco, não estava na programação oficial. Um grupo formados por músicos, artistas e e jovens, crianças e adolescentes da Comunidade do Pilar, localizada no Bairro do Recife, subiu a ladeira principal do Centro de Convenções de Pernambuco, onde estava ocorrendo o evento, para realizar um ato público a favor da democratização do audiovisual e da aproximação do cinema com a população.

Enquanto faziam o percurso entre a entrada do Centro de Convenções e o hall do cine-teatro, onde foi montada uma bela estrutura de recepção do público, com direito a tapete vermelho, os organizadores da manifestação, além de comunicarem aos presentes de que se tratava o ato público, distribuíram panfletos com um texto intitulado Manifesto Povo , que reivindicava, entre outras coisas, um papel menos acuado do cinema. A sétima arte, segundo o manifesto, deve ser “agressiva, mas de forma alguma violenta, deve ser persistente e estratégica, criar suas próprias possibilidades, deixar a timidez e assumir a loucura em querer um mundo de Amor!”

O texto foi lido por Anderson Correia, um dos organizadores do ato público, que usou um microfone ligado a uma bicicleta de som durante todo o percurso. Ele enfatizava para os participantes que “o mais importante era a obra e não o criador”, questionando a cultura de celebridades que tem movido mais a indústria de cinema, do que os próprios filmes, que, na visão deles, deveriam ser as motivações principais da atenção e da observação do público. Contudo, não era qualquer tipo de cinema a que Correia e o grupo que o acompanhava defendia, e, sim, um cinema que abre espaço de interação com a comunidade e não é fechado em si mesmo.

Por isso, além de integrantes de diversos movimentos sociais, artistas, como o cantor e compositor Zé Rocha, e colaboradores de projetos realizados na própria comunidade do Pilar, Anderson Correia foi acompanhado por crianças e adolescentes do grupo de percussão da comunidade, que dançavam e cantavam músicas tradicionais dos Afoxés e Nações de Maracatus locais. Um dos momentos mais aplaudidos da apresentação foi quando o garoto Evandro Lucas Santos entoou “Noite de Lua Cheia”, canção tradicional do Afoxé Oxum Pandá, que é bastante executada em celebrações da cultura popular da região.

A manifestação foi bem recebida pelo público que ainda estava fora do cine-teatro (e havia bastante gente). Correia informava que aquele era “um manifesto aos que são contra Deus e o Diabo e a favor do povo ”, fazendo referência ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol , de Glauber Rocha. Houve quem cogitasse que a abertura do festival começou um pouco mais tarde por conta do ato público, que após realizar este primeiro momento no hall do Centro de Convenções, convidou os presentes a assistirem uma mostra de filmes que seriam exibidos na rua, para a população, paralelamente à programação da noite de abertura do Cine PE.

Quem desceu para conferir a proposta dos organizadores, pôde ver que eles montaram uma tela de cerca de um metro por um metro e meio na praça dos táxis, que fica exatamente na principal via de acesso para o festival. O lugar da platéia foi improvisado com alguns bancos e cadeiras emprestadas dos bares e pedaços de papelão espalhados pelo chão, que logo foram tomados pelas crianças. A idéia era exibir o longa-metragem Ínfima Fronteira , de Pedro Augusto, e uma série de curtas-metragens realizados durante a participação dos jovens da comunidade no Projeto Informar.

Antes da exibição, contudo, Anderson Correia explicou mais uma vez o que era aquele momento, leu novamente o Manifesto Povo e comentou que, embora eles defendessem um modelo de cinema que não é fechado em si mesmo, as obras que iriam ser exibidas ainda não contemplavam um modelo de cinema feito pelo povo para o povo. O longa-metragem Ínfima Fronteira , para o organizador, ainda continha os resquícios de um tipo de erudição que não permite uma relação mais efetiva entre a população e o cinema.

Enquanto as pessoas se acomodavam, eles tentavam equacionar detalhes como enquadramento da tela e outras questões derivadas da estrutura simples que foi montada para que tantos os participantes do ato público quanto taxistas, transeuntes e algumas pessoas que esperavam ônibus, no local, pudessem assistir aos filmes. No entanto, no momento em que a exibição começou, uma chuva torrencial caiu sobre a região, de modo que foi possível assistir apenas aos dez primeiros minutos do filme. Mesmo assim, nos bastidores do evento, percebeu-se que a proposta de diálogo com o público do Cine PE se efetivou.