MANIFESTO
POVO
Ato público
na abertura do Cine PE reivindica proximidade
entre o cinema e a população
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br
)
Fotos: Ana Lira
m dos destaques da abertura da décima primeira edição do Cine PE – Festival do Audiovisual , em Pernambuco, não estava na programação oficial. Um grupo formados por músicos, artistas e e jovens, crianças e adolescentes da Comunidade do Pilar, localizada no Bairro do Recife, subiu a ladeira principal do Centro de Convenções de Pernambuco, onde estava ocorrendo o evento, para realizar um ato público a favor da democratização do audiovisual e da aproximação do cinema com a população.
Enquanto
faziam o percurso entre a entrada do Centro de Convenções
e o hall do cine-teatro, onde foi montada uma bela estrutura
de recepção do público, com direito
a tapete vermelho, os organizadores da manifestação,
além de comunicarem aos presentes de que se tratava
o ato público, distribuíram panfletos
com um texto intitulado Manifesto Povo , que
reivindicava, entre outras coisas, um papel menos acuado
do cinema. A sétima arte, segundo o manifesto,
deve ser “agressiva, mas de forma alguma violenta, deve
ser persistente e estratégica, criar suas próprias
possibilidades, deixar a timidez e assumir a loucura
em querer um mundo de Amor!”
O texto foi lido por Anderson Correia, um dos organizadores do ato público, que usou um microfone ligado a uma bicicleta de som durante todo o percurso. Ele enfatizava para os participantes que “o mais importante era a obra e não o criador”, questionando a cultura de celebridades que tem movido mais a indústria de cinema, do que os próprios filmes, que, na visão deles, deveriam ser as motivações principais da atenção e da observação do público. Contudo, não era qualquer tipo de cinema a que Correia e o grupo que o acompanhava defendia, e, sim, um cinema que abre espaço de interação com a comunidade e não é fechado em si mesmo.
Por
isso, além de integrantes de diversos movimentos
sociais, artistas, como o cantor e compositor Zé
Rocha, e colaboradores de projetos realizados na própria
comunidade do Pilar, Anderson Correia foi acompanhado
por crianças e adolescentes do grupo de percussão
da comunidade, que dançavam e cantavam músicas
tradicionais dos Afoxés e Nações
de Maracatus locais. Um dos momentos mais aplaudidos
da apresentação foi quando o garoto Evandro
Lucas Santos entoou “Noite de Lua Cheia”, canção
tradicional do Afoxé Oxum Pandá, que é
bastante executada em celebrações da cultura
popular da região.
A manifestação foi bem recebida pelo público que ainda estava fora do cine-teatro (e havia bastante gente). Correia informava que aquele era “um manifesto aos que são contra Deus e o Diabo e a favor do povo ”, fazendo referência ao filme Deus e o Diabo na Terra do Sol , de Glauber Rocha. Houve quem cogitasse que a abertura do festival começou um pouco mais tarde por conta do ato público, que após realizar este primeiro momento no hall do Centro de Convenções, convidou os presentes a assistirem uma mostra de filmes que seriam exibidos na rua, para a população, paralelamente à programação da noite de abertura do Cine PE.
Quem desceu para conferir a proposta
dos organizadores, pôde ver que eles montaram
uma tela de cerca de um metro por um metro e meio na
praça dos táxis, que fica exatamente na
principal via de acesso para o festival. O lugar da
platéia foi improvisado com alguns bancos e cadeiras
emprestadas dos bares e pedaços de papelão
espalhados pelo chão, que logo foram tomados
pelas crianças. A idéia era exibir o longa-metragem
Ínfima Fronteira , de Pedro Augusto,
e uma série de curtas-metragens realizados durante
a participação dos jovens da comunidade
no Projeto Informar.
Antes
da exibição, contudo, Anderson Correia
explicou mais uma vez o que era aquele momento, leu
novamente o Manifesto Povo e comentou que,
embora eles defendessem um modelo de cinema que não
é fechado em si mesmo, as obras que iriam ser
exibidas ainda não contemplavam um modelo de
cinema feito pelo povo para o povo. O longa-metragem
Ínfima Fronteira , para o organizador,
ainda continha os resquícios de um tipo de erudição
que não permite uma relação mais
efetiva entre a população e o cinema.
Enquanto as pessoas se acomodavam, eles tentavam equacionar detalhes como enquadramento da tela e outras questões derivadas da estrutura simples que foi montada para que tantos os participantes do ato público quanto taxistas, transeuntes e algumas pessoas que esperavam ônibus, no local, pudessem assistir aos filmes. No entanto, no momento em que a exibição começou, uma chuva torrencial caiu sobre a região, de modo que foi possível assistir apenas aos dez primeiros minutos do filme. Mesmo assim, nos bastidores do evento, percebeu-se que a proposta de diálogo com o público do Cine PE se efetivou.  |