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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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11 a 26 de maio de 2007

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NÃO HÁ MAIS SONHOS
Livro de Honoré de Balzac acaba com as Ilusões Perdidas
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

vida é cheia de ilusões, pois sem elas, não conseguiríamos ter forças para acreditar no possível e lutar por consegui-lo. Esta afirmação costuma ser consenso, afinal, o que seria do ser humano sem os sonhos, sem a busca por alcançar aquilo que circunda seus pensamentos? Mas e quando tudo o que é planejado por nossa mente fecunda e pura, quando somos jovens, encara a dura e vil realidade do cotidiano das relações humanas, em que o ser não significa nada e o ter é o que aproxima ao poder e ao reconhecimento? Como isso funciona na cabeça de um jovem e ambicioso poeta que faria de tudo para alcançar seus objetivos mais nobres, mesmo que os meios para isso não sejam bem qualificados?

Esse cenário psicológico pode ser bem o resumo do que Honoré de Balzac (1799-1850) estabelece em Ilusões Perdidas (Cia. Das Letras, 216 páginas), grande clássico francês do século 19, que se eternizou por retratar com fidelidade canina o (sub)mundo do jornalismo, especificamente na França de 1820, da disputa entre liberais e monarquistas pelo poder, anos após a Revolução Francesa que modificaria e influenciaria todo o panorama no país e na Europa. Esta adaptação, feita por Silvana Salerno, conta com ilustrações de Odilon de Moraes e traz um encarte pedagógico e um apêndice com informações sobre a vida e a obra do autor.

A história é centrada no personagem Lucien Chardon, um poeta que vive no interior e resolve ir à Paris para conseguir prestígio com seus trabalhos: um romance histórico e uma coleção de sonetos. Visto como um jovem promissor em sua terra natal, ele não passará de mais um pobre garoto do interior. Isso porque, ao chegar na cidade grande, percebe que, mais do que uma boa obra, o autor precisa estar bem relacionado com a imprensa, pois é ela quem dita, para o bem e para o mal, os rumos do mercado literário à época.

Após ter suas obras achincalhadas por editores, ele decide se tornar jornalista e entra para um mundo repleto de interesse, vaidade, ambição, falsidade, trapaça, corrupção, suborno, ganância, em que o dinheiro e a luta pela sobrevivência – tanto no trabalho quanto para manter algum status – são as únicas coisas importantes, e não o trabalho duro de escritor e a glória pelo resultado obtido. Tendendo a uma vida fácil, Lucien passa a venerar os prazeres que a ascensão social lhe faz experimentar, sendo agora temido pela acidez de sua pena sobre as peças teatrais, os livros e quem mais se opusesse à sua frente.

Numa época em que os jornalistas eram, mais do que nunca, comerciantes de palavras e mantinham os impressos em colunas de picuinhas pessoais, o poeta pode criticar a quem quiser para fazer com que seu livro seja comprado e passe a ser respeitado no universo literário. Só que Lucien também começa a ter muitos inimigos, que o invejam e querem afastá-lo deste sucesso repentino e avassalador. É, neste momento, que ele começa a perceber no buraco de mentiras em que ele se meteu, e se vê, mais uma vez, sozinho na capital de seu país.

Esse retrato não é nada muito diverso do que vemos hoje, em que uma crítica pode favorecer ou prejudicar um autor, em que editoras fazem de tudo para terem seus trabalhos lidos e falados, fugindo do limbo editorial, afinal, há muita obra para pouco leitor. Mas o mérito de Balzac é o de retratar a vida das pessoas de uma forma mais real, em contraste as narrações fantasiosas de até então, com informações mais precisas, descrições de cenários, além de personagens que parecem existir, e existem, apesar dos nomes diferentes e dos personagens criados. Todos com características do próprio escritor, que destila toda a sua vivência semelhante à de Lucien, como um garoto do interior que vai tentar a sorte em Paris, além de traços de sua personalidade em cada um dos personagens.

Balzac tira elementos do que observa, ouve, sente, da disputa entre nobres e burgueses, tão própria e encarniçada naquele período, em que a burguesia ascende com dinheiro próprio e ameaça a aristocracia que sobrevive com seu nome, porém está, há muito, empobrecida. Todo esse pano de fundo vem à tona nas linhas de sua obra, não só em Ilusões Perdidas , , mas em outras que compuseram a Comédia Humana , livro que consumiu todas as suas forças e concentrou boa parte de sua produção em noventa e cinco textos, em oposição à Divina Comédia , de Dante Alighieri. Balzac mostra sua essencialidade ao marcar a passagem do Romantismo para o Realismo, na literatura, por conta da inovação que ele introduz naquele tempo. Mas ele faz mais que isso: desnuda nossos olhos puros e crus de que não há ilusões em um mundo regulado por interesses e disputa por poderes.