O
CINEMA DA MODA
O Diabo
Veste Prada reabriu o leque de filmes que tratam
do universo fashion
por Natalia Klein
( blanca_nk@yahoo.com.br
)
Fotos: Divulgação
igam o que quiserem. Elogiem
a atuação de Meryl Streep à vontade.
Mencionem a trama divertida, o elenco jovem e bonitinho,
o fato da história ser baseada em fatos reais.
Somem todos esses fatores, multipliquem
por dez e, ainda assim, eles não chegarão
nem perto do verdadeiro protagonista do filme. É
o figurino impecável, organizado pela estilista
americana Patrícia Field, que fez o ingresso
valer a pena. Por duas horas, nos deleitamos com peças
de Valentino, Chanel, Donna Karan, Calvin Klein, Dolce
& Gabbana, e nos sentimos, mesmo que por um curto
espaço de tempo, parte daquele mundo deslumbrante,
exagerado e fetichista.
Field diz ter se inspirado em Bonequinha de Luxo para compor a personagem Miranda Priestley. A comparação pode não fazer muito sentido do ponto de vista dramático: enquanto Priestley é a implacável editora-chefe da fictícia revista de moda Runway, em Bonequinha de Luxo , Holly Goligthly é uma adorável prostituta que se empenha em conquistar um milionário. Só que a espevitada garota de programa tem mais classe do que se pensa e veste um figurino assinado pelo francês Hubert de Givenchy.
Audrey Hepburn, a atriz que deu vida a Holly, tem o toque de Midas. Tudo o que veste reluz feito ouro - não foi é toa que se tornou um ícone da moda no cinema. Desde A Princesa e o Plebeu , lançado em 1953, Audrey se transformou em uma diva fashion , título que manteve por anos, em clássicos como Sabrina e Cinderela em Paris . Este último trata especificamente do mundo da moda e conta a história de uma vendedora de livros descoberta por um fotógrafo, interpretado por Fred Astaire, que decide transformá-la em uma modelo.
Da
década de 50 para cá, inúmeras
figuras povoaram nosso imaginário e mantiveram
nossos olhos vidrados na telona. Em 1994, o escrachado
Prêt-à-Porter , de Robert Altman,
nos deixa a par do lado absurdo e grotesco do mundo
da alta-costura, retirando o véu de Maia que
os filmes sobre o assunto geralmente se esforçam
em manter. Com um elenco de cair o queixo, incluindo
os veteranos Marcello Mastroianni e Sophia Loren, além
de alguns rostos bem anos 90, como Kim Basinger, Julia
Roberts, Tim Robbins, entre outros, vemos a aura de
um universo inatingível se dissolver, e nos deparamos,
pura e simplesmente, com uma porção de
gente fútil. O filme é uma sátira
e beira o excesso, mas diverte ao mostrar o outro lado
da moeda.
Em “O Diabo Veste Prada”, chega a existir uma certa reflexão a respeito dos exageros dos fashionistas, mas ela perde feio para o deslumbramento provocado pelo figurino. Saímos ávidos por consumir, mesmo sabendo que, muito provavelmente, jamais teremos um guarda-roupa daqueles. O mesmo efeito foi provocado pelos filmes de Hepburn, em que todas as mocinhas saíam das salas de cinema direto para os salões de beleza, para ter o mesmo corte de cabelo que a atriz.
Agora, percebendo que falar de moda voltou a dar dinheiro, a indústria cinematográfica – que não é boba nem nada – já está investindo em filmes com essa temática. O primeiro resultado pôde ser visto recentemente em Maria Antonieta , da cult e bem vestida Sofia Coppola. O filme conta, de uma forma bastante inusitada, a história da princesa austríaca mandada à França aos quinze anos para se casar com o futuro rei. A personagem foi para a História como uma mulher fútil e irresponsável, capaz de gastar fortunas em roupas e acessórios – talvez a primeira vítima da moda que se tenha notícia.
Novamente,
o filet mignon do longa-metragem é o
figurino, assinado por vários medalhões
como Karl Lagerfeld, John Galiano e Christian Dior,
e orquestrados pela estilista italiana Milena Canonero.
Não por acaso, foi o vencedor do Oscar de 2007.
A idéia de Coppola foi tornar tudo “doce para
os olhos” – e a analogia fica evidente na cena em que
Antonieta escolhe o que vai vestir ao som de “I Want
Candy”, em meio a diversas sobremesas deliciosas. Tudo
parece ser comestível e nós, pobres de
nós, somos mais uma vez devorados por esse irresistível
mundinho. Coincidência ou não, Sofia Coppola
também já foi estilista.
Seguindo o embalo, voltam à cena as quatro nova-iorquinas preferidas da televisão. Carrie Bradshaw, Samantha Jones, Charlote York e Miranda Hobbes reaparecem, três anos após o fim da série Sex and the City , para o tão esperado longa-metragem. Entre os rumores e as crises de estrelismo de Kim Cattrall (Samantha), responsável pela demora na realização do projeto, parece que a coisa finalmente vai andar. O momento não poderia ser mais oportuno. Para os desavisados, Patrícia Field, a figurinista de O Diabo Veste Prada , é responsável pelo guarda-roupa do quarteto fashion. E como a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, é bom que as mulheres se preparem. No que diz respeito aos bolsos, a temporada está difícil para os amantes de cinema e moda.  |