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11 a 26 de maio de 2007

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O CINEMA QUE PENSA
Mesa – redonda reuniu Nelson Pereira dos Santos, Ivana Bentes e Myrna Brandão para debater o audiovisual como instrumento de reflexão
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )
Fotos: Ana Lira

segunda mesa-redonda do ciclo de seminários que a equipe da Revista Rabisco acompanhou, na décima primeira edição do Cine PE , foi proposto pelo jornalista, crítico e pesquisador Alexandre Figueirôa, que coordena o Núcleo de Pesquisa Cinema e Audiovisual, da Intercom. O próprio Figueirôa mediou a mesa O Cinema Independente “Abre Cabeças”: A Arte Audiovisual como Instrumento de Reflexão , que teve a participação do cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos principais diretores do país; da pesquisadora Ivana Bentes, que apresenta o programa Curta-Brasil, na TV Educativa (TVE); e da jornalista Myrna Brandão.

O primeiro a falar foi o cineasta Nelson Pereira dos Santos. Ele fez uma reflexão breve sobre o que seria um cinema independente, a partir de referências como a sua própria vivência durante o Cinema Novo, acompanhado por outros nomes como Glauber Rocha, e também da sua observação de momentos do cinema mundial, a exemplo do cinema francês. O diretor acredita que considerando diversos aspectos, o cinema independente pode ser aquele que não é feito pelos grandes grupos do audiovisual, podia ser aquele feito em oposição à linguagem tradicional, como fazia Goddard e outros representantes da Nouvelle Vague, na França, ou até considerar este cinema como o cinema de autor.

Feiras estas considerações, Pereira dos Santos preferiu passar a palavra para as demais integrantes da mesa. Ivana Bentes questionou então o que seria este cinema independente e de que maneira ele se encaixava no tema proposto pela mesa, que era cinema independente “abre cabeças”. Bentes acredita que as produções abre cabeças são aquelas que “trazem interrogações, são filmes que estão de pé, que fazem a gente pensar coisas diferentes. O cinema que abre cabeças propõe linguagem nova, questões novas ou perspectivas novas de um assunto comum”, disse.

A apresentadora do Curta-Brasil crê que este novo momento do circuito audiovisual é muito importante para a sociedade, uma vez que as possibilidades de produção de imagens são muito grandes. Ivana Bentes destaca a nova geração que produz imagens com câmeras compactas, celular e outras novas tecnologias como um grupo singular de pessoas. “Eu vejo boas perspectivas nessa mudança radical da sociedade, de privilegiar as imagens. Essa coisa de produzir e colocar no You Tube para todo mundo ver é fantástico”, afirmou.

Por sua vez, a jornalista Myrna Brandão acredita que foi convidada para a mesa-redonda por que ela e o marido acompanham os festivais de cinema independente, no mundo. Ela diz que discutir o cinema independente é importante e observar a maneira como os festivais vão se transformando, por causa da relação com a indústria cinematográfica, é uma forma de conseguir ver de maneira mais ampla a relação com este tipo de produção. Como exemplo, ela traz o Sundance Film Festival , que começou como um projeto para agregar filmes feitos por diretores independentes. “Quando falamos em independente é daquele jeito mesmo, com ajuda de pai e mãe. O irmão que segurava a luz e assim por diante. O festival trazia uma variedade de bons filmes e boas idéias, mas o perfil com o tempo foi mudando”.

O que Brandão chama de mudança, segundo ela, é que “os grandes estúdios começaram a ver naqueles cineastas que apareciam em Sundance um bom investimento e muitos dos bons diretores que enviavam filmes para o festival foram cooptados por empresas estas cinematográficas de renome”. Assim, embora o Sundance Film Festival continue sendo conhecido como um festival de produção independente, o perfil dele mudou. O evento cresceu muito e tem perdido cada vez mais o seu caráter de agregar projetos que possuíam boas idéias, mas eram realizados de maneira bastante amadora.

Sobre o cinema “abre cabeças”, Myrna Brandão contou aos presentes que desenvolve um trabalho em executivos e gerentes de empresas de grande porte, no sentido de apresentar um outro lado do cinema. Especialmente para aquelas pessoas que trabalham com a área de publicidade de grandes corporações, Brandão traz atividades de reflexão sobre o audiovisual a partir de exibições de filmes que têm este caráter mais conceitual, como os filmes do Cinema Novo, da Nouvelle Vague, enfim, o cinema que, segundo ela, é conhecido por seu caráter questionador.

Para trabalhar, Myrna Brandão precisa pesquisar e ter acesso a filmes de diversas épocas, gêneros e linguagens estéticas. Por isso, a jornalista demonstrou bastante preocupação com as condições de preservação dos filmes antigos e das possibilidades de estruturar bons acervos para a produção que está em andamento. Sem o fortalecimento dos institutos de preservação, dos centros de documentação cinematográfica e outros espaços que possam ter iniciativas voltadas para a guarda deste material, Brandão vê dificuldade de se preservar a memória deste cinema independente que abre cabeças.

Voltando a este assunto, Nelson Pereira dos Santos retomou a palavra para dizer que “qualquer filme pode abrir cabeça. Se existem vários tipos de cinema, pode haver vários tipos de espectador, também. O problema é que o espetáculo cinematográfico foi feito para um grupo restrito da população. Há muita gente que nunca foi ao cinema”, disse. O cineasta afirmou, ainda, que é preciso aumentar a produção cinematográfica. Contudo, ele observa que, ao mesmo tempo em que se forma melhor os cineastas, o público não vai ao cinema.

“Eles colocam a culpa nos realizadores, mas existe público para ir ao cinema. O problema é que o número de salas é pequeno e o ingresso é caro”, disse, enquanto Ivana Bentes argumentava que, mesmo assim, o acesso à produção podia se dar por meio das vídeos locadoras. Pereira dos Santos, contudo, enfatizou que “pode ter as locadoras, mas o acesso da população às salas de cinema é reprimido”, trazendo para o público a reflexão de que para se ter liberdade, o público deve escolher que ser ver no cinema ou na locadora, e não ser forçado a utilizar a segunda opção, ou outras similares.

O cineasta ampliou o debate dizendo que o fazer cinema, no Brasil, nasceu como vontade de ter esta arte entre a produção cultural. No entanto, a produção cinematográfica nacional sempre foi cercada de conflitos, e um exemplo que ele traz é o do preconceito que envolve o chamado cinema de autor. Para Pereira dos Santos, falar em cinema autoral é algo que causa incômodo em diversos setores do meio audiovisual e afirma que, por outro lado, o cinema de mercado no país não desenvolve. “Aqui as coisas não funcionam, porque fazer cinema industrial significa ter produção, distribuição e público e, no Brasil, há apenas produção”, disse.

Este problema foi reforçado por Myrna Brandão. A jornalista estava envolvida com a produção de um filme e procurou uma empresa para realizar as cópias dos filmes que seriam distribuídas. “Eles me disseram que não poderiam fazer o serviço porque os horários estavam todos comprometidos com a realização de cópias para Homem – Aranha 3, que está em fase de distribuição para os multiplex do país. Então, imaginem, se todas as vezes que a gente precisar copiar um filme, tiver que esperar que estes grandes estúdios sejam atendidos. Fica difícil”, contestou.

A discussão sobre as dificuldades que o cinema independente tem enfrentado diante desta concorrência com os grandes grupos ganhou destaque e Ivana Bentes chamou atenção para elementos que passam despercebidos do debate. “Uma coisa que a gente esquece é do balconista de vídeo locadora como formador de gosto. Ele não é percebido como alguém que tem este papel, mas ele vê diversos filmes e quando chega um cliente ele diz ‘olha, veja este que é legal´ ou ‘eu vi este, mas ele é muito lento, não sei se você vai gostar´ ou se ele sabe que a pessoa gosta mais de comédia, indica apenas isso e, assim, ele vai direcionando o perfil do consumidor, que acaba não vendo outras coisas”, comentou.

Bentes destacou, assim, o papel da educação cinematográfica na vida de qualquer pessoa. Ela disse ser a favor do copyleft porque é uma das maneiras mais eficientes de ampliar o acesso. A pesquisadora não discorda de quem defende que baixar filmes da internet é crime porque, para certas profissões e para a formação do público em geral, o acesso à obra está acima de qualquer interesse econômico. “Eu não sou contra, não. Quem eu vou estar lesando? O diretor vai receber o dinheiro?”.

Ampliando ainda mais o debate sobre a educação, ela diz que além dos filmes centrais, é preciso que o espectador esteja atento às periferias experimentais. Ela foi curadora do Itaú Rumos e viu coisas impressionantes, produzidas nestes espaços. Bentes acredita que as periferias, hoje, são verdadeiros laboratórios de produção cinematográfica, e que um olhar especial deve ser debruçado sobre elas, nesta discussão de um cinema independente que abre cabeças. Ela citou como focos interessantes projetos como Nós do Morro, do Rio de Janeiro.

Por fim, o mediador Alexandre Figueirôa abriu para as questões. Então, a jornalista e crítica da Revista de Cinema pediu um espaço para fazer um comentário sobre uma discussão que alguns cineastas tiveram com a Associação Brasileira de Documentaristas (ABD) e ler um trecho de um texto que foi publicado no livro que a instituição lançou no Cine PE . Ela estava coordenando, também, uma oficina de crítica de cinema e pediu desculpas aos palestrantes caso um grande grupo de pessoas se retirassem, porque eles precisavam concluir as atividades do dia em outro espaço do Recife Palace. Contudo, a própria mesa-redonda não se estendeu muito, como foi o caso da que debateu A Cadeia do Audiovisual , de modo que no final da tarde as discussões estavam concluídas.

ESPECIAL CINE PE

MANIFESTO POVO - Ato público na abertura do Cine PE reivindica proximidade entre o cinema e a população.

EM BUSCA DO ELO PERDIDO - Representantes de vários setores do audiovisual mostram propostas e iniciativas para integrar a cadeia do audiovisual independente.

O CINEMA QUE PENSA -
Mesa – redonda reuniu Nelson Pereira dos Santos, Ivana Bentes e Myrna Brandão para debater o audiovisual como instrumento de reflexão.

EM PRIMEIRO PLANO
- Documentários digitais destacaram personagens singulares e pontos de vista definidos dos cineastas

ALEGORIAS DIGITAIS
- A fábula também foi privilegiada como recurso narrativo entre os curtas-metragens em vídeos digital.