PELO
TELEFONE
A polêmica da música
que marcou o começo do processo de popularização
do samba como gênero popular
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br
)
Fotos: Reprodução
1917. Donga e Mauro de Almeida, o cronista “ Peru dos Pés Frios” registram na Biblioteca Nacional a propriedade intelectual do samba “Pelo Telefone”. Batizam ali o gênero musical que até hoje leva esse nome. Gravado pelo então célebre cantor Baihano para a Casa Edson do Rio de Janeiro, consta que foi a primeira música censurada. Tiveram que mudar os primeiros versos.
O Chefe da polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na Carioca
Há uma roleta
Para se jogar...
Em artigos de jornal, Mauro dizia que não havia motivos originais em "Pelo Telefone". O seu papel na criação era catalisar temas que flanavam pelas ruas, como os personagens de João do Rio. À época, o célebre "Peru dos Pés Frios" (como era conhecido) dizia que apenas ajuntou os versos para a música que Donga havia lhe apresentado. E a polêmica não acaba aqui. A própria letra também é uma caleidoscópica fonte de lendas que começa desde sua concepção até trechos meramente paródicos que a tradição cuidaria de incorporá-los à música.
O que se sabe é que a origem dos primeiros versos teria começado quando dois repórteres do jornal A Noite , Castelar de Carvalho e Eustáquio Alves, resolveram instalar, por mero chiste, uma roleta na entrada do vespertino, tentando provar que o Chefe da Polícia do Rio, Aureliano Leal, fazia vistas grossas à prevaricação na cidade, apesar do pretenso combate prometido. Por pelo menos dois dias, a redação se transformou na capital da jogatina.
Foi quando o jornal de Irineu Marinho publicou matéria denunciando a suposta negligência da polícia, tentando desmoralizar Aureliano. Como as diligências eram informadas por via telefônica, a história correu solta. E a letra ficou assim:
O Chefe da polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que na Carioca
Há uma roleta
Para se jogar...
Contudo, Donga disse, tempos depois, que a letra original era
O Chefe da folia Pelo telefone
Mandou me avisar
Que com alegria
Não se questione
Para se brincar.
E adiantava que a alusão à roleta era uma paródia — esta sim, de autoria de Mauro de Almeida. Porém, se o “Peru” não tinha lá relação direta com o samba no começo, no fim o deboche atribuído ao cronista é a que iria se popularizar pelos anos seguintes. E o próprio Donga passaria a cantar a versão da “roleta” que, por sua vez, ilustrava com escárnio o histórico episódio. Daí a censura à música. O chefe gosta da roleta,
Ô maninha
Ai, ai, ai
Ninguém mais fica forreta
É maninha
Chefe Aureliano
Sinhô, Sinhô
É bom menino
Sinhô, Sinhô
A letra gravada por Bahiano, em janeiro daquele ano, que se tornaria o primeiro sucesso comercial de um samba (ao contrário do que se acredita, “Pelo Telefone” não foi o primeiro, senão “Em Casa da Baiana”, gravada pela Fullhaber, em 1910, mas que não logrou êxito) rotulado como tal trazia ainda alusões à Mauro (o “peru”) e Norberto do Amaral (o “morcego”, diretor do Clube Democrático, onde a música estreou, em 19 de janeiro daquele ano), co-autores da versão em disco:
O Peru me disse Se o Morcego visse
Não fazer tolice
Eu então saísse
Dessa esquisitice
De disse e não disse.
Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, pouco tempo antes de morrer, Donga daria outra versão (dilatando cada vez mais a lenda): a de que os autores da paródia eram os repórteres e que a letra fora mudada para “evitar complicações com as autoridades”. Após o sucesso no Carnaval daquele ano, um jornal ainda publicou uma nova letra para “Pelo Telefone”, dessa vez criticando tal usurpação de seu derradeiro autor:
Pelo telefone
A minha boa gente
Mandou-me avisar
Que o meu bom arranjo
Era oferecido
Para se cantar
Ai, ai, ai, leva a mão à consciência, meu bem 
Ai, ai, ai por que tanta presença, meu bem
Ó que caradura dizer na roda
Que o arranjo é teu
É do bom Hilário e da Velha Ciata
Que o bom Sinhô escreveu
Tomara que tu apanhes
Pra não tornar a fazer isso
Escrever o que é dos outros
Sem olhar o compromisso.
Assim, fica a bizantina divisão: autores como Almirante defendem a tese de que “Pelo Telefone” é criação coletiva, incluindo Donga e Mauro. Outros, como Sérgio Cabral, entendem que os louros cabem aos dois últimos. Do lado de Cabral está Lygia Santos, filha do compositor. Ela diz que ele nunca imaginou que registrar o tema causaria tanta dor de cabeça, e diz que foi o próprio Almirante quem seria o responsável por fomentar a controvérsia que, por sinal, não acabará nunca...
Polêmicas à parte, o puro e simples gesto de Donga, em catalogar aquele samba em dezembro de 1916 e levá-lo ao disco, no Carnaval do ano seguinte, teria um significado simbólico indiscutível: o de dar a um gênero então bastardo um nome e um destino, definindo o ritmo que as festas de Momo iram tomar dali em diante. Simbólica também é a sua postura em, ainda que de maneira despropositada, destacar o papel cultural do autor, ao tirar um tema popular do seu anonimato e dar-lhe cara e rótulo. Ali nascia o compositor popular. 
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