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11 a 26 de maio de 2007

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PELO TELEFONE
A polêmica da música que marcou o começo do processo de popularização do samba como gênero popular
por Marcelo Xavier ( marcelo@rabisco.com.br )
Fotos: Reprodução

1917. Donga e Mauro de Almeida, o cronista “ Peru dos Pés Frios” registram na Biblioteca Nacional a propriedade intelectual do samba “Pelo Telefone”. Batizam ali o gênero musical que até hoje leva esse nome. Gravado pelo então célebre cantor Baihano para a Casa Edson do Rio de Janeiro, consta que foi a primeira música censurada. Tiveram que mudar os primeiros versos.

O Chefe da polícia

Pelo telefone

Mandou me avisar

Que na Carioca

Há uma roleta

Para se jogar...

Em artigos de jornal, Mauro dizia que não havia motivos originais em "Pelo Telefone". O seu papel na criação era catalisar temas que flanavam pelas ruas, como os personagens de João do Rio. À época, o célebre "Peru dos Pés Frios" (como era conhecido) dizia que apenas ajuntou os versos para a música que Donga havia lhe apresentado. E a polêmica não acaba aqui. A própria letra também é uma caleidoscópica fonte de lendas que começa desde sua concepção até trechos meramente paródicos que a tradição cuidaria de incorporá-los à música.

O que se sabe é que a origem dos primeiros versos teria começado quando dois repórteres do jornal A Noite , Castelar de Carvalho e Eustáquio Alves, resolveram instalar, por mero chiste, uma roleta na entrada do vespertino, tentando provar que o Chefe da Polícia do Rio, Aureliano Leal, fazia vistas grossas à prevaricação na cidade, apesar do pretenso combate prometido. Por pelo menos dois dias, a redação se transformou na capital da jogatina.

Foi quando o jornal de Irineu Marinho publicou matéria denunciando a suposta negligência da polícia, tentando desmoralizar Aureliano. Como as diligências eram informadas por via telefônica, a história correu solta. E a letra ficou assim:

O Chefe da polícia

Pelo telefone

Mandou me avisar

Que na Carioca

Há uma roleta

Para se jogar...

Contudo, Donga disse, tempos depois, que a letra original era

O Chefe da folia

Pelo telefone

Mandou me avisar

Que com alegria

Não se questione

Para se brincar.

E adiantava que a alusão à roleta era uma paródia — esta sim, de autoria de Mauro de Almeida. Porém, se o “Peru” não tinha lá relação direta com o samba no começo, no fim o deboche atribuído ao cronista é a que iria se popularizar pelos anos seguintes. E o próprio Donga passaria a cantar a versão da “roleta” que, por sua vez, ilustrava com escárnio o histórico episódio. Daí a censura à música.

O chefe gosta da roleta,

Ô maninha

Ai, ai, ai

Ninguém mais fica forreta

É maninha

Chefe Aureliano

Sinhô, Sinhô

É bom menino

Sinhô, Sinhô

A letra gravada por Bahiano, em janeiro daquele ano, que se tornaria o primeiro sucesso comercial de um samba (ao contrário do que se acredita, “Pelo Telefone” não foi o primeiro, senão “Em Casa da Baiana”, gravada pela Fullhaber, em 1910, mas que não logrou êxito) rotulado como tal trazia ainda alusões à Mauro (o “peru”) e Norberto do Amaral (o “morcego”, diretor do Clube Democrático, onde a música estreou, em 19 de janeiro daquele ano), co-autores da versão em disco:

O Peru me disse

Se o Morcego visse

Não fazer tolice

Eu então saísse

Dessa esquisitice

De disse e não disse.

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, pouco tempo antes de morrer, Donga daria outra versão (dilatando cada vez mais a lenda): a de que os autores da paródia eram os repórteres e que a letra fora mudada para “evitar complicações com as autoridades”. Após o sucesso no Carnaval daquele ano, um jornal ainda publicou uma nova letra para “Pelo Telefone”, dessa vez criticando tal usurpação de seu derradeiro autor:

Pelo telefone

A minha boa gente

Mandou-me avisar

Que o meu bom arranjo

Era oferecido

Para se cantar

Ai, ai, ai, leva a mão à consciência, meu bem

Ai, ai, ai por que tanta presença, meu bem

Ó que caradura dizer na roda

Que o arranjo é teu

É do bom Hilário e da Velha Ciata

Que o bom Sinhô escreveu

Tomara que tu apanhes

Pra não tornar a fazer isso

Escrever o que é dos outros

Sem olhar o compromisso.

Assim, fica a bizantina divisão: autores como Almirante defendem a tese de que “Pelo Telefone” é criação coletiva, incluindo Donga e Mauro. Outros, como Sérgio Cabral, entendem que os louros cabem aos dois últimos. Do lado de Cabral está Lygia Santos, filha do compositor. Ela diz que ele nunca imaginou que registrar o tema causaria tanta dor de cabeça, e diz que foi o próprio Almirante quem seria o responsável por fomentar a controvérsia que, por sinal, não acabará nunca...

Polêmicas à parte, o puro e simples gesto de Donga, em catalogar aquele samba em dezembro de 1916 e levá-lo ao disco, no Carnaval do ano seguinte, teria um significado simbólico indiscutível: o de dar a um gênero então bastardo um nome e um destino, definindo o ritmo que as festas de Momo iram tomar dali em diante. Simbólica também é a sua postura em, ainda que de maneira despropositada, destacar o papel cultural do autor, ao tirar um tema popular do seu anonimato e dar-lhe cara e rótulo. Ali nascia o compositor popular.