A DESCOBERTA DO MUNDO
Exposição sobre Clarice Lispector lembra os 30 anos de sua morte e reaviva o interesse pela boa literatura brasileira.
por Priscila Tieppo ( priscilatieppo@gmail.com )
Colaboração: Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )
Fotos: Divulgação/ Fundação Casa de Ruy Barbosa
o segundo andar do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo , a exposição dedicada à jornalista e escritora Clarice Lispector chama a atenção de um público variado. Crianças, adolescentes e adultos se misturam na grande multidão que conhece, descobre e relembra esta escritora singular da literatura nacional. “Está todo mundo saindo daqui apaixonado por Clarice Lispector”, comenta a vendedora de catálogos da exposição, que foi batizada da A Hora da Estrela , em homenagem a uma de suas obras mais famosas.
Imensos painéis espalhados na primeira sala da mostra levam os rostos de Clarice e revelam pouco, mas relevantes resquícios de sua obra, por meio das frases em destaque. Dentro do olho da autora, por exemplo, a frase: “Ver é a pura loucura do corpo”, retirada do romance A paixão segundo G.H. , estimula as expectativas dos visitantes. Ver Clarice escritora e Clarice mulher traz ao público revelações e descobertas. Na parede clara, frases cravadas revelam-na em sua literatura – o seu lado exposto. Em uma sala do Museu, repleta de gavetas, vê-se o mais íntimo – o seu lado mulher: as amizades, o amor aos filhos, as cartas pessoais, fotos do cotidiano e anotações diárias.
Clarice Lispector – registrada com o nome de Haia - nasceu em 1920, na Ucrânia. Veio morar no Brasil com quase dois meses de idade. Passou pelas cidades de Maceió, Recife e Rio de Janeiro, considerando-se, além de brasileira, nordestina. Lutou pela cidadania com afinco, enviando incessantes cartas a Getúlio Vargas, cujas originais também estão expostas no Museu.
Pouco falava de sua vida e não gostava de dar entrevistas. Mas uma em especial, concedida ao jornalista Junio Lerner da TV Cultura, está sendo exibida na mostra. A pedido da própria escritora, esta entrevista realizada em fevereiro de 1977 só pôde ser veiculada após sua morte, em dezembro de 1977. Clarice morreu em d ecorrência de um câncer no ovário, um dia antes do seu aniversário. No bate-papo, Lispector revela que não está em um dia bom e que, por enquanto, estava “morta”, literariamente falando, mas esperava renascer.
Para os fãs, ela renasce por meio das publicações póstumas, como as crônicas publicadas pelo Jornal do Brasil e reunidas pelo filho Paulo Gurgel Valente em A Descoberta do Mundo. O acervo cedido pela Fundação Casa de Rui Barbosa traz ainda a carteira de jornalista da Guanabara; roteiros de contos, crônicas e romances; as primeiras publicações, inclusive em inglês, alemão e espanhol; e livros de escritores amigos, autografados à Clarice. Contos de Aprendiz , de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, vai à escritora com as seguintes palavras: “À mestre Clarice, de seu devoto aprendiz, Drummond - 04/01/69”.
Visitar a exposição torna-se necessário não só pela obra inquietante, intrigante e apaixonante, mas pela beleza impressa nas paredes, nos vidros, nas fotos e em um acervo que conta um pouco da história literária do nosso país.
“Nelson, você gostou de me dar esta entrevista?”
- Gostei profundamente. O que conta na vida são os momentos confessionais. (Nelson Rodrigues)
Além da exposição em homenagem à escritora, um site e um livro também foram lançados em maio. O site, feito pela mesma editora do livro, traz informações, entrevistas e pensamentos de Clarice Lispector ( www.claricelispector.com.br ). O livro, lançado pela Editora Rocco, intitulado Entrevistas (232 págs, R$ 29,00) mostra o lado jornalista da escritora. No período de maio de 1968 e outubro de 1969, Clarice colaborou para a revista Manchete , entrevistando personalidades para a coluna Diálogos Possíveis com Clarice Lispector, voltando a prática em 1976, na revista Fatos e Fotos –Gente , onde trabalhou até alguns meses antes de falecer.
Entre as personalidades entrevistadas estão Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Nelson Rodrigues, Emerson Fittipaldi, Elis Regina e Paulo Autran. A coletânea traz ainda 19 entrevistas que não foram publicadas. O livro revela não só o lado jornalístico, mas os costumes da época e a personalidade de Clarice. Em uma entrevista feita com Vinícius de Moraes, por exemplo, a escritora cita que não suportaria ser ídolo. Em outra, ela diz para Chico Buarque que ele é o rapaz que todas as mães desejam para as filhas em idade de casar.
Na sinopse, divulgada pela editora, o trabalho da escritora é definido da seguinte forma: “Relatando pequenos detalhes de cada entrevistado, surge uma Clarice Lispector bem-humorada, curiosa e determinada a informar e entreter, sem deixar de induzir à reflexão sobre o momento político brasileiro”. As perguntas simples e complexas ao mesmo tempo fazem do livro uma intensa (re)descoberta, não só das personalidades, mas da própria escritora.
“A exposição pretende fazer com que novos leitores apareçam”
A curadora Júlia Pelegrino foi uma das pessoas responsáveis pelos novos leitores que a obra de Clarice Lispector ganhou depois que a exposição A Hora da Estrela entrou em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. “Ao todos nós temos 65 documentos entre cartas, documentos pessoais e manuscritos e 37 livros de Clarice e de outros autores”, conta, afirmando que gostaria muito de expor os originais de Clarice, mas não tinha espaço.
Escolher o que entraria ou não, na exposição, foi o mais difícil. “Nós levamos cerca de 3 meses e meio para montar a exposição. O critério adotado para a seleção dos documentos foi o de passar para o espectador a idéia do processo de criação dela e depois dar uma pequena amostra da vida da escritora. O nosso parâmetro para a seleção das frases foi, em primeiro lugar, que elas fossem compreendidas independentes do restante do texto. Tudo isso para que o espectador pudesse sair da exposição querendo conhecer mais de Clarice Lispector”, disse Pelegrino.
O resultado agradou, também, aos familiares da escritora, que falava pouco de si e não costumava dar entrevistas. “A família da Clarice é tão discreta quanto ela. Eles estiveram visitando a mostra no dia da abertura e sei que gostaram muito”, informou a curadora, falando a respeito das cartas e fotos do cotidiano de Lispector, que estão em exibição. “A exposição pretende dar uma idéia da vida e obra de Clarice. Ela pretende fazer com que apareçam novos leitores. A maioria das pessoas se identifica com aquelas frases e muitas acham que poderiam ter escrito ou que elas foram escritas para elas”, afirma Julia Pelegrino, acrescentando que a oportunidade ajudou no aprofundamento de seus conhecimentos sobre a autora. “Estou muito contente com o resultado da exposição”.
A Hora da Estrela
Museu da Língua Portuguesa
Até o dia 2 de setembro de 2007
Praça da Luz, s/nº - próximo ao metrô Luz
De terça a domingo das 10 às 17 horas
R$ 4,00 (estudantes pagam R$2,00)
Aos sábados a entrada é franca
Informações: (11) 3326-0775 
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