AVESSA AO MARASMO
A trajetória de Niobe Xandó mostra o pioneirismo de uma artista que experimentou diversos caminhos das artes plásticas.
Por Priscila Tieppo ( priscilatieppo@gmail.com )
Fotos: Divulgação
olagem, serigrafia, nanquim, tinta a óleo ou acrílica, pinturas em madeira e composições com materiais simples, como papéis coloridos, estrelinhas, purpurina e embalagem de bombom. Destas diversas técnicas saem a obra e a criatividade de Niobe Xandó, que foram reunidas em uma belíssima exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo, atraindo um bom público até domingo passado, quando a mostra foi encerrada.
A arte de subverter a ordem das coisas trouxe as diversas facetas da artista plástica por meio de 182 obras produzidas ao longo de sua carreira, sendo separadas em 13 módulos que se basearam nas suas fases pictóricas. Entre elas estão o Figurativismo Inicial (1947-1955), onde Niobe pinta o cotidiano: o grupo escolar, o bar caiçara, personagens urbanos e imagens de santos; Flores Fantásticas (1956 - 1965), em que a artista retrata a natureza de forma tão próxima, que resulta na perda da identificação do objeto real; e as Máscaras (1966 – 1990), onde se percebe a influência africana e o auge do Realismo Fantástico, também representado nas Flores.
Para Antônio Carlos Abdalla, curador da exposição, o Realismo Fantástico se define como uma espécie de mundo paralelo, “uma forma de ver e interpretar a realidade com uma visão fantástica, num mundo que mescla os sentidos e o racional, talvez com a evidência maior dos sentidos. Niobe teve a sensibilidade, a percepção e deu forma ao seu interior lançando mão dessa interpretação personalíssima e quase irreal”, afirma. Esta escola artística atinge o auge nas décadas de 60 e 70. Na literatura, os maiores expoentes são o livro Cem Anos de Solidão (que completou neste mês 40 anos da sua primeira publicação), do colombiano Gabriel García Márquez e as obras do argentino Jorge Luis Borges. Nas artes, a mineira Xandó é pioneira no Brasil.
Abdalla conta que iniciou a catalogação das obras em 1998. Um trabalho que não foi fácil, já que algumas delas não têm paradeiro conhecido, pois Niobe vendeu ou presenteou os amigos com as primeiras criações. A variedade de técnicas traz, de certa forma, dificuldades para a montagem de um trabalho como este da exposição, segundo ele. “Eu escrevi que a obra de Xandó é complexa, cumulativa. É fato que todos os segmentos mais contemporâneos acumulam experiências de segmentos anteriores. Não foi simples formar uma visão da obra da artista, com as interpretações possíveis, e de forma mais ou menos cronológica e linear”, conta. Isso porque Niobe nunca foi linear, como o público pôde perceber na diversidade de suas obras. O nome da mostra revelou isso e foi um reflexo da própria vida artística da brasileira, segundo Abdalla.
Para a ocasião da exposição, foi feita também uma trilha sonora especial, por Anna Maria Kieffer e Vanderlei Lucentini, que traduziu em sons as criações de Xandó, além de um livro que leva o nome da mostra. “Defino a obra desta artista como uma verdadeira ‘caixa de surpresas'. Um mundo infinitamente talentoso e rico”, conclui o curador. Para tornar permanente todo este trabalho e reconhecimento, o curador edita um site na internet ( www.niobexando.com.br ) que cataloga todas as obras e relata a cronologia da vida da mineira, além de reunir as principais críticas feitas por especialistas.
Na Trilha das Artes
Desde 1947 Niobe, nascida em 1915, em Minas Gerais , experimenta técnicas e se aprimora nas artes. Com 16 anos casa-se com o comunista João Baptista Ribeiro Rosa e a partir de então começa a freqüentar espaços de intelectuais e artistas. Em 1940 dedica-se aos tuberculosos, em Campos do Jordão, com sua mãe.
As primeiras obras começam a surgir na década de 40 e, ao longo dos anos, Niobe Xandó participou de salões de arte, exposições renomadas e tornou-se reconhecida no meio artístico. Entre suas exposições mais expressivas estão sete Bienais, em São Paulo , Walton Gallery , em Londres, e muitas outras na Espanha, Estados Unidos e França.
Nos anos 80 adere ao Abstracionismo Geométrico, estilo em que se revela uma artista de traços e composições precisas. Seus últimos trabalhos datam de 1999. Devido a problemas de saúde, a artista plástica está sem novas obras e tem muitas dificuldades para falar. Por isso, Niobe Xandó não pôde dar entrevista à Rabisco , de acordo com sua assessoria de imprensa. 
|