Cronista da solidão
Cristovão Tezza fala sobre sua literatura e dos 20 anos de Trapo , romance que o revelou nacionalmente como escritor.

Bardo Redimido
Lançado em 1988, Trapo chega a uma nova edição colocando à prova o sucesso de 20 anos.

Chá de Penico
A Banda Tropicalista é o melhor disco menos conhecido de Rogério Duprat.

A Descoberta do Mundo
Exposição sobre Clarice Lispector lembra os 30 anos de sua morte e reaviva o interesse pela boa literatura brasileira.

Vencedor Incontestável
Boca Junior é campeão da Taça Libertadores pela sexta vez e se torna o maior vencedor de competições internacionais.

O Belo Intérprete dos Mares
Com um blockbuster em cartaz nos cinemas, Johnny Depp é um astro (não) por acaso.

Avessa ao Marasmo
A trajetória de Niobe Xandó mostra o pioneirismo de uma artista que experimentou diversos caminhos das artes plásticas.

Quase Cult
Danny Boyle faz um dever de casa acima da média com Sunshine – Alerta Solar.

Sustos Políticos
O Hospedeiro revitaliza os filmes de monstros e traz referências à briga política entre Coréia e Estados Unidos.

O Som que Faz Transcender Pensamentos
Orquestra Sinfônica da USP encanta Sala São Paulo com apresentações de obra do compositor finlandês Jean Sibelius.


Uma cidade estranha como entrelinha de uma história de amor.


Perdizes, o morro elegante de Cardozo de Almeida.


A Banda Tropicalistaé o melhor disco menos conhecido de Rogério Duprat.


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27 de junho a 11 de julho de 2007

Equipe Edições Anteriores

BARDO REDIMIDO
Lançado em 1988, Trapo chega a uma nova edição colocando à prova o sucesso de 20 anos atrás.
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@rabisco.com.br )
Fotos: Guilherme Pupo


epois de 20 anos de seu lançamento, Trapo , romance que revelou nacionalmente Cristovão Tezza como escritor, chega a uma nova edição sem sentir a passagem dos anos. Com o mesmo frescor de outrora, o livro se mantém em pé depois de duas décadas e sete edições. Para comemorar a data, a editora Record coloca nova edição na praça no mês de julho – a mesma casa editorial também lança o romance inédito de Tezza, O filho eterno , e reedita O fantasma da infância (1994) e Aventuras provisórias (1989).

Emblemático da atmosfera literária dos anos 80, Trapo vai fundo na tentativa de traduzir questões existenciais típicas da juventude. A desesperança, o inconformismo e a vontade de mudar o mundo movem o jovem protagonista que dá nome ao livro, que diante da falta de perspectivas acaba com a própria vida em um gesto desesperado e ao mesmo tempo premeditado.

De difícil gestação, Trapo poderia ser outro livro a marcar história na hoje clássica coleção “Cantadas Literárias”, ao lado de títulos como Morangos mofados e Feliz ano velho . Mas quis o destino que o livro tomasse outro rumo e fosse editado, anos depois, na série “Circo de Letras”, também da editora Brasiliense.

Ambientado na fria e solitária Curitiba, o romance de Tezza conta as desventuras do poeta Paulo/Trapo, que aos 20 anos é encontrado morto em um quarto de pensão com um tiro na cabeça. Com a morte do inquilino mais carismático, Izolda, dona do pensionato, submete os escritos de Trapo ao professor de língua portuguesa aposentado Manuel. Reticente diante da missão de avaliar a obra de um poeta desconhecido, o professor vai aos poucos se deixando envolver com a traumática história de Trapo e com todas as pessoas que fizeram parte da vida do jovem, a começar pela insinuante Izolda. Regrado e sistemático, Manuel é o retrato do curitibano médio, com seu recolhimento que beira a falta de educação. É ele quem irá dar um tom mais sóbrio à narrativa, já que o romance é escrito de forma fragmentada.

O outro lado da moeda são os escritos de Trapo, que narra boa parte da história por meio de poemas, cartas, recados e esboços inacabados de contos. Apaixonado por literatura, julga-se um gênio incompreendido e vê nas palavras sua única forma de redenção.

Sem saber ao certo o que fazer com o espólio do garoto que não conheceu, Manuel resolve ir atrás das pessoas que conviveram com Trapo. Sem ânimo para enfrentar um projeto duvidoso e aparentemente maluco – que na verdade não sabe ao certo o que é, se uma compilação de poemas, contos, cartas ou uma biografia –, mas ao mesmo tempo estimulado pela perspectiva de algo que lhe tire da inércia imposta pela aposentadoria, o professor aos poucos é submerso por um turbilhão de fatos que não o deixam retornar à pacata vida que levava. Assim o macambúzio professor passa a conviver com pessoas esquisitas, como o cartunista Hélio, melhor amigo de Trapo, e a recatada Leninha, ex-namorada do poeta. Tudo isso em benefício da memória de Trapo.

Leminski e Bukowski

A identificação de ruas conhecidas da capital paranaense ao longo da narrativa faz com que a descrição da paisagem urbana ganhe importância especial na história, sendo o cenário parte do romance também. Aliás, esta tem sido uma aposta recorrente de Tezza desde seus primeiros livros. Fazer de Curitiba palco de suas narrativas, e ser identificado por tal característica, tem sido uma marca em sua trajetória. Se Dalton Trevisan imortalizou em seus contos uma Curitiba que não existe mais, com moças recatadas e meninos de joelhos ralados com pacotes de Bala Zequinha nas mãos, Tezza tem retratado com muita propriedade uma cidade mais afinada com os tempos modernos, mas que ainda mantém seu quinhão provinciano intacto.

Dessa forma Trapo é um livro que trafega entre a tradição, representada na figura do professor Manuel, e o novo, já que o personagem central é uma colcha de retalhos composta pelas mais diversas influências – dos programas de auditório à literatura. Esse aparente antagonismo dá ao livro um aspecto interessante, já que coloca lado a lado personagens com visões de mundo completamente distintas.

Sobretudo Trapo fala da e sobre a juventude, seus sonhos, ideais e, principalmente, frustrações. Trapo é um personagem atípico porque suas angústias, desilusões e alegrias são jorradas para fora com intensidade pouco comum. Fora isso, Trapo é um jovem “normal”, cheio de dúvidas e com poucas certezas. Suas preocupações são, genericamente, as mesmas de todo jovem de 18 ou 20 anos. A diferença aqui é que o personagem de Tezza vive mais intensamente suas neuroses, o que o destaca. Além disso, o autor consegue fazer com que o cenário de fundo do livro contribua para reforçar a imagem de maldito e solitário de Trapo. As referências ao modo peculiar de viver do curitibano, encaixam-se muito bem à figura do jovem poeta.

Além da óbvia qualidade do livro, uma série de histórias ajudaram a criar pequenos mitos em torno do romance. Talvez a mais conhecida seja a comparação entre Trapo e o poeta Paulo Leminski, que em 1988 escreveu o prefácio da obra – sem a consulta prévia do autor por parte da editora. E realmente a analogia é inevitável. Além do personagem de Tezza ser um poeta maldito (de nome Paulo) que flertava com o concretismo – mas não só – e ter uma relação estreita com o álcool e as drogas, Trapo, a exemplo de Leminski, era publicitário.

Ainda que admita algumas semelhanças, Tezza é categórico em dizer que não há relação direta entre Trapo e a figura do autor de Catatau , nem com a prosa despretensiosa de Charles Bukowski, a quem o próprio Paulo Leminski comparou Tezza. Na verdade o texto de Tezza está muito distante da literatura confessional do Velho Safado, sendo, neste caso, a temática da vida errante a única característica comum entre os dois autores.

  Independentemente dos mitos sobre o livro, Trapo sobreviveu bem às intempéries do tempo. Além de ser o trabalho responsável por colocar Tezza no cenário dos bons romancistas brasileiros, a obra foi o ponto de partida para que o autor elaborasse livros mais maduros, tal como Uma noite em Curitiba (1995) e Breve espaço entre cor e sombra (1998).

Ainda que não seja um livro perfeito, Trapo conseguiu fugir de clichês mesmo falando diretamente de temas tão propícios ao lugar-comum. Assim como outros livros de temática jovem, como o clássico O apanhador no campo de centeio , do norte-americano J.D. Salinger, e Baixo-astral , do chileno Alberto Fuguet, o romance de Tezza fala das incertezas da pós-adolescência e juventude sem ser pueril ou superficial. O seu relançamento é pertinente e tem tudo para testar, 20 anos depois, a aceitação de Trapo por parte de uma nova geração de leitores.