Cronista da solidão
Cristovão Tezza fala sobre sua literatura e dos 20 anos de Trapo , romance que o revelou nacionalmente como escritor.
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@rabisco.com.br )
Fotos: Joel Rocha e Artur Makos
atarinense de nascimento e curitibano por opção (chegou a Curitiba com dez anos), Cristovão Tezza fez da capital paranaense o pano de fundo ideal para seus romances. Seus personagens, misteriosos e introspectivos, são representativos da cidade em que vivem suas desventuras. Fato que coloca Tezza cabeça a cabeça com Dalton Trevisan, outro bamba das letras nacionais, como principal cronista do jeito peculiar e solitário de se viver em Curitiba.
Autor de 12 livros de ficção – o mais novo rebento, O filho eterno , sai no final de julho –, Tezza vem marcando a ferro quente seu nome no romance nacional com livros que se caracterizam pela sobriedade da escrita e pelas tramas criativas.
Com mais de 30 anos de carreira literária, iniciada no longínquo 1975, com A cidade inventada , e do alto de seus 55 anos, o escritor vê uma de suas principais criações completar duas décadas de existência. O romance Trapo , responsável pelo aparecimento de Tezza como escritor em âmbito nacional, completa 20 anos da primeira edição e ganha de presente uma nova publicação, desta vez pela editora Record, que também relança O fantasma da infância (1994) e Aventuras provisórias (1989) – além do já citado romance inédito do autor.
Bicho-grilo nos anos 1970, Tezza participou de uma comunidade alternativa em Antonina, litoral do Paraná, sob a batuta do guru Wilson Rio Apa, e teve seu momento on the road como mochileiro por paragens da Europa, quando aportou em Portugal em plena “Revolução dos Cravos” (1974).
Foi relojoeiro no exterior para só depois de muito chão entrar para a academia, carreira que segue ainda hoje com igual brilho na Universidade Federal do Paraná (UFPR) como professor da cadeira de Língua Portuguesa – Tezza publicou em 2003 o elogiado ensaio Entre a Prosa e a Poesia: Bakhtin e o formalismo russo .
Escritor “tardio”, conforme sua própria definição, Tezza tem ganhado rasgados elogios da crítica especializada com romances como Breve espaço entre cor e sombra (1998). A consagração definitiva veio com o prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL) de melhor romance brasileiro de 2004, conquistado com O fotógrafo .
Foi para falar sobre esse e outros assuntos que Tezza recebeu a reportagem do Rabisco em sua casa – a poucas quadras do esconderijo do Vampiro mais famoso da cidade. Com um senso de humor que pouco lembra seus pares curitibanos, o escritor discorreu sobre sua trajetória como romancista, sua faceta de crítico literário, que exercita regularmente no caderno Mais! da Folha de São Paulo, e de seus próximos projetos literários.
Rabisco: Trapo , um de seus principais livros, está na iminência de completar 20 anos. Você acha que o livro ainda é atual? Por quê?
Cristovão Tezza: Na verdade o Trapo foi escrito em 1982. Aí ele correu muitas editoras, foi recusado por diversas delas, perdeu alguns concursos também (risos...) e só saiu em 1988. Portanto levou seis anos para ser lançado. Eu lembro que quando eu mandei o livro para a Brasiliense, o Caio Graco Prado, que era o editor na época, queria que eu encurtasse a história para que fosse publicada na “Cantadas Literárias” [coleção que publicou nomes como Caio Fernando Abreu e Ana Cristina César]. Com a minha recusa em reduzir o texto, Trapo foi publicado só anos depois em outra coleção da editora, que era a “Circo de Letras”.
Rabisco: Mas como você o vê hoje?
Cristovão Tezza: O pior sentimento de um autor é se sentir datado (risos...). Mas eu acho que o Trapo sobreviveu muito bem. É um livro que traz a marca dos anos 80, mas com uma temática que permanece, como a inquietação da juventude, o sentimento de desajuste com relação ao sistema, que faz parte da formação de todo mundo que tenha sensibilidade. Enfim, ele tem um charme que o mantém vivo. É um livro que já teve sete edições, oito com esta da Record, e que me dá uma resposta muito boa dos leitores jovens. Então acho que ele acabou se tornando uma referência e sobreviveu bem.
Rabisco: Trapo é um livro em que o sentimento de rebeldia característico aos jovens está muito presente. Hoje, depois de 20 anos, esse sentimento de desajuste ainda se faz presente em sua literatura de alguma forma?
Cristovão Tezza: Acho que na essência de minha literatura permanece o sentimento de inadequação da condição humana. Eu trabalho muito com o sentimento do sujeito sem lugar. E essa característica está tanto no Trapo quanto em O fotógrafo [último livro de Tezza, lançado em 2004].
Rabisco: Quando Trapo foi lançado falou-se que o livro se parecia muito com a literatura de Charles Bukowski. Eu já vi você falando que não tem nada a ver. Como surgiu a história?
Cristovão Tezza: Na verdade quem inventou a história do Bukowski foi o Leminski. O Trapo teve uma trajetória meio traumática pela demora em ser editado. E no momento em que escrevi o livro eu não conhecia Bukowski, não tinha lido. Ele na verdade estava começando a entrar em circulação no Brasil. E a Brasiliense colocou um posfácio do Leminski, na época sem me consultar, – talvez seja o único caso cujo posfácio não é favorável ao livro (risos...) – em que ele escrevia que eu era visivelmente influenciado pelo Bukowski. Mas não é tão absurdo o que ele diz, há realmente alguns pontos de contato, não propriamente com o Bukowski, mas com toda uma geração de autores. Claro, eu fui um cara que curtiu os anos 70, e todos os autores da época, como os Beatniks. Então não é tão absurdo dizer que tem algum parentesco. Mas não é nada proposital. E se fosse, não teria problema em dizer, já que cito O cobrador , do Rubem Fonseca, ao longo do Trapo .
Rabisco: Mas o Trapo não é um pouco como o Paulo Leminski foi?
Cristovão Tezza: Ele mesmo achava que sim. O próprio Leminski disse que achava que o Trapo era ele – e talvez seja essa a razão da má vontade dele com o livro. Agora não foi nada proposital. Não escrevi nada pensando em referências secretas. Nada disso. Eu tinha inclusive amigos que estavam mais próximos ao tipo de pessoa que era o Trapo.
Rabisco: A sua experiência com Wilson Rio Apa em Antonina foi muito importante para você como escritor. Como foi essa experiência?
Cristovão Tezza: Aos 15 anos eu tive duas experiências com o teatro: uma foi na primeira peça da Denise Stoklos [também paranaense, de Irati], Círculo na lua, lama na rua , em 1968, em que trabalhei como iluminador; a segunda foi com o Rio Apa, também em 1968, com o grupo de teatro “Centro Capela de Artes Populares”, em Antonina. E aí comecei a trabalhar com o Rio Apa, participando das montagens. Foi nessa época que comecei a escrever meus primeiros livros. Foi uma experiência muito rica, já que vivíamos em uma comunidade alternativa. Eu estava fora do sistema. Era uma postura agressiva diante do mundo, de não fazer parte da sociedade. Foi uma experiência marcante.
Rabisco: E depois disso você foi para Portugal?
Cristovão Tezza: Sim, passei um ano em Portugal. Foi também uma experiência muito interessante. Consegui uma passagem só de ida – naquele tempo ainda era possível fazer isso – e fiquei em Coimbra 14 meses. Isso em 1975, portanto acompanhei a Revolução dos Cravos [revolução deflagrada em 25 de abril de 1974]. E esse foi um período muito rico para mim, bem marcante mesmo. E só depois é que virei professor e segui a carreira acadêmica.
Rabisco: Além de romancista, você também escreve resenhas na imprensa, principalmente no caderno “Mais!” da Folha de São Paulo. Como é esta atividade de crítico para você?
Cristovão Tezza: Eu na verdade me considero um comentarista cultural de livros. Não sou crítico profissional, pois não estou toda semana comentando a produção literária sistematicamente. Sou eventualmente convidado a escrever resenhas sobre livros. E esse é um trabalho que me agrada, porque é uma atividade desejável para quem escreve, já que você tem um intercâmbio com a produção contemporânea. É também um exercício de texto porque há um espaço limitado para escrever. Eu acho que mais arriscado para mim não foi propriamente escrever crítica de livros, mas ser professor universitário e lidar com teoria. Esse sim é um risco maior de se transformar em um teórico. Acho que não tem coisa mais chata do que um romance escrito como se fosse uma tese e uma tese escrita como se fosse um romance.
Rabisco: E como é ser professor universitário, conviver com o rigor acadêmico, e escrever literatura? Dá para desligar uma atividade da outra?
Cristovão Tezza: Acho que dá sim. Eu tomei certos cuidados, pois sou professor da área de língua portuguesa e não de literatura. E isso me livrou de uma série de problemas, como encarar a literatura como material didático permanente todos os anos. A língua portuguesa é uma área bem mais aberta para a minha perspectiva. Tudo é assunto para uma aula. Então eu preservo minha produção como escritor, não misturando isso em sala de aula.
Rabisco: Quando O fotógrafo foi lançado, o livro recebeu uma crítica bastante negativa na revista Bravo!, feita pelo jornalista Daniel Pizza. Meses depois o livro acabou sendo considerado pela Academia Brasileira de Letras como o melhor romance de 2004 e ganhou também o prêmio de melhor livro da própria revista Bravo!. Como é a sua relação com a crítica?
Cristovão Tezza: Eu não tenho nada contra a atividade crítica e nem contra a discussão da produção contemporânea. Aprendi ao longo dos anos a conviver com críticas boas e críticas ruins. Eu também já tenho um conjunto de obras que me deixa relativamente tranqüilo com relação a isso. Às vezes sinto que conheço mais os meus livros do que a própria crítica. A crítica negativa às vezes é mais sentida pelos autores jovens, que pensam que os críticos podem acabar com uma carreira literária. Para mim isso é bobagem, a crítica não tem essa força. Com relação à revista, não foi a Bravo ! que falou mal do livro, mas sim um colunista. E o prêmio da revista também é outra coisa. Além dos dois prêmios que você citou, o livro também foi finalista de diversos outros concursos, como o Portugal Telecom de Literatura.
Rabisco: A sua identificação com o romance é bem grande. Como você se decidiu pelo romance e não por um outro gênero literário, como o conto, por exemplo?
Cristovão Tezza: Eu não escolhi o romance, fui escolhido. Essa idéia de que o escritor é um cartorário que escreve e faz o que quer não é verdadeira. O romance passou a ser minha linguagem e eu me senti muito mais à vontade com ele. De um ano para cá eu recomecei a escrever contos. Inclusive estou organizando um livro com um mesmo personagem – que é uma idéia de romancista. Mas os contos são autônomos.
Rabisco: Outra identificação sua é com Curitiba. Como a cidade participa de sua criação literária?
Cristovão Tezza: Tematicamente Curitiba me forneceu um pano de fundo. Uma matéria-prima. Vários romances meus se passam na cidade. Eu uso a cidade – se bem que ninguém usa Curitiba, é Curitiba que te tem. Esse espaço da atmosfera curitibana é totalmente involuntário, não consigo pensar sobre isso objetivamente. Mas eu acho que a cidade tem algumas qualidades boas que favorecem a atividade literária, já que é um lugar bastante solitário, você fica sempre meio escondido, isolado, e isso te dá certo conforto de tempo para escrever, pois não é uma metrópole como São Paulo. E também tem a discrição, a maneira silenciosa, um pouco refratária de viver. E você acaba sendo absorvido por isso. Eu não sairia mais daqui.
Rabisco: Você tem acompanhado a produção nacional? Quais os escritores da nova geração lhe agradam?
Cristovão Tezza: Olha, não dá para acompanhar tudo o que acontece, a geração mais nova, é muito difícil. Com a idade parece que o tempo vai ficando mais curto. Eu participei há alguns anos como jurado de um concurso da revista Cult , e para mim foi uma experiência fantástica. Li uns quatrocentos romances de gente desconhecida e foi muito bom. Mas da minha geração, que é posterior a de escritores como Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, eu lembro de dois nomes que são marcantes na literatura brasileira, que é o Bernardo Carvalho e o Milton Hatoum. São nomes fortes em duas vertentes importantes da literatura brasileira hoje. Isso na prosa. Na poesia a dificuldade de avaliação é bem maior. Acho que o tamanho da poesia do João Cabral, do Carlos Drummond e do Manuel Bandeira elevou a poesia brasileira a um patamar altíssimo e criou uma sombra enorme para os novos poetas. A responsabilidade é muito grande. Acho que a sombra da poesia é bem maior do que a da prosa no Brasil. Na poesia atual eu gosto muito, como síntese de uma linguagem poética contemporânea de alta qualidade, do Paulo Henriques Brito, que é da minha geração. Mas claro que são apenas referências; há muita gente fazendo coisas boas. O problema é que a literatura é uma arte de absorção muito lenta – é engraçado, mas um autor de 40, 50 anos, acaba sendo um autor “novo”. 
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