O BELO INTÉRPRETE DOS MARES
Com um blockbuster em cartaz nos cinemas, Johnny Depp é um astro (não) por acaso.
por Lon Andrade ( eron_frezan@yahoo.com.br )
Fotos: Divulgação
ohnny Depp talvez seja um esquizofrênico. Poderia ser somente um bom ator ou um líder de bandas de garagem, um eterno drogado ou um simples trabalhador. Antes fosse só um intérprete dedicado que após fazer seu trabalho vai para casa jantar com a família. Mas, de todo modo, Depp é desigual e irregular. E um artista completo até a insolência. É difícil acreditar que ele não tenha nascido com mãos de tesoura, que não seja o Ed Wood tentando fazer filmes de terror com efeitos especiais duvidosos ou o Willy Wonka que agora resolveu sair disfarçado de pirata.
É claro que boa parte dessa dose de loucura é empreendimento de Tim Burton, um diretor que soube ver as características de Edward Mãos de Tesoura em Depp. Na época, Depp era ator de uma série de tv e assim como Edward estava rotulado com uma imagem que o tornava prisioneiro. Era o ídolo do público adolescente enquanto na verdade ansiava outra coisa. Burton percebeu o encaixe perfeito com a fábula que pretendia contar. Uma fábula gótica sobre um ser diferente no ‘ modo de vida norte-americano' , um garoto que após perder o seu inventor tem que se adaptar à sociedade. Eis que surgiu a ocasião perfeita para ‘o moço bonito de uma série de tv' se colocar como um personagem tão doce quanto estranho, tão Depp quando Edward.
Depois de seis trabalhos (incluindo o inédito Sweeney Todd ) , Burton diz que trabalha com Depp pela possibilidade de ver algo diferente. Para Burton, o ator a cada novo trabalho vai sempre tentar algo totalmente diferente do tom, que não se pareça com nada que ele já tenha feito, e isso é a possibilidade de um trabalho com a tão interessante dose de esquizofrenia. Essa mudança constante, de um filme para outro, não parece ser feita de modo aleatório, mas sim com a precisão de quem sabe do que seu personagem necessita. Para os que achavam que todo pirata tinha der ser meio Errol Flynn, meio Douglas Fairbacks, atores que eternizaram a imagem do ladrão dos mares, Johnny Depp buscou inspiração em um roqueiro, o Keith Richards, e no personagem Pepe Legal. Maluco? Bem, foi o que pensaram os executivos da Disney antes da série Piratas do Caribe se tornar a maior bilheteria do estúdio. E a essa atuação se deve o entretenimento à parte dos filmes da série e a compreensão, de um modo geral, do jeito Depp de arriscar – interpretar. É claro que isso só pôde acontecer graças a um blockbuster, um filme que rendeu dinheiro e tornou Johnny Depp ‘acessível' aos olhos da indústria.
Porém Depp é assumidamente anti-hollywood e vira e mexe faz declarações que perfuram a áurea americana. Contudo, quando um jornalista o tenta lisonjear denegrindo a própria Hollywood, ele sempre se recusa a embarcar nessa demagogia. Para ele, o que invalida não só Hollywood, mas os Estados Unidos como um todo, é a transformação de tudo em um grande balcão de negócios. Não à toa resolveu morar na França. Antagônico? Não. Depp sabe que Jack Sparrow é um filho Hollywoodiano, concebido para levar as pessoas ao cinema, mas nem por isso o recusou, apenas soube transformá-lo em um filho bastardo, desses que entram pela porta dos fundos para mexer com a tão bucólica harmonia do lar. Jack Sparrow, aliás, ilustra uma passagem: Depp tinha certeza que os produtores não iriam aceitar suas idéias para o visual do pirata, principalmente em relação ao dentes de ouro. Solução? Ele encheu a boca com placas de ouro e se apresentou. Os produtores, depois de muita conversa, permitiram que ele ficasse com apenas alguns dentes dourados, exatamente como Depp ocultamente pretendia.
A questão sobre Hollywood não é o único dilema que circula em torno de Depp. Ele é um astro que odeia a fama. Um homem rico que sempre esnobou o dinheiro. Esse último paradoxo por sinal pode parecer distante de qualquer lógica racional, mas o sucesso de seus trabalhos fala por si: somente um ator verdadeiramente interessado pelo projeto – e não por sua rentabilidade – pode fazer personagens como Edward, Gilbert Grape, Ichabod Crane e James Barrie de maneira crível e fascinante. Cabe aí, perfeitamente, uma citação do crítico Ralph Waldo Emerson: “As coisas podem ser bonitas, elegantes, suntuosas, graciosas, atraentes, mas enquanto não falam à imaginação não são belas”. Com pouco mais de vinte anos de carreira, o ator talvez seja um ingênuo, desses que só querem fazer algo que fale à imaginação, e toda essa loucura dos tipos esquisitos que interpreta seja mais ficção que realidade. Talvez. Imaginá-lo vestido de preto, alheio ao que pensam e destoante de tudo ao seu redor é até mais instigante. Meio louco, meio apaixonado, seja como for, Johnny Depp é um dos mais belos intérpretes de sua geração. |