Cronista da solidão
Cristovão Tezza fala sobre sua literatura e dos 20 anos de Trapo , romance que o revelou nacionalmente como escritor.

Bardo Redimido
Lançado em 1988, Trapo chega a uma nova edição colocando à prova o sucesso de 20 anos.

Chá de Penico
A Banda Tropicalista é o melhor disco menos conhecido de Rogério Duprat.

A Descoberta do Mundo
Exposição sobre Clarice Lispector lembra os 30 anos de sua morte e reaviva o interesse pela boa literatura brasileira.

Vencedor Incontestável
Boca Junior é campeão da Taça Libertadores pela sexta vez e se torna o maior vencedor de competições internacionais.

O Belo Intérprete dos Mares
Com um blockbuster em cartaz nos cinemas, Johnny Depp é um astro (não) por acaso.

Avessa ao Marasmo
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Quase Cult
Danny Boyle faz um dever de casa acima da média com Sunshine – Alerta Solar.

Sustos Políticos
O Hospedeiro revitaliza os filmes de monstros e traz referências à briga política entre Coréia e Estados Unidos.

O Som que Faz Transcender Pensamentos
Orquestra Sinfônica da USP encanta Sala São Paulo com apresentações de obra do compositor finlandês Jean Sibelius.


Uma cidade estranha como entrelinha de uma história de amor.


Perdizes, o morro elegante de Cardozo de Almeida.


A Banda Tropicalistaé o melhor disco menos conhecido de Rogério Duprat.


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27 de junho a 11 de julho de 2007

Equipe Edições Anteriores

QUASE CULT
Danny Boyle faz um dever de casa acima da média com Sunshine – Alerta Solar.
por Fábio Freire ( fabiofreire@rabisco.com.br )
Fotos: Divulgação

primeira vista, assim meio de longe, Sunshine – Alerta Solar tem a maior cara de ficção científica B disfarçada de blockbuster feito para fazer sucesso nos cinemas. Lembra vagamente um O Núcleo – Viagem ao Centro da Terra ou um Impacto Profundo . Se fosse um filme ruim e mais barulhento, certamente seria comparado ao bombástico (no pior sentido do termo) Armaggedon ou ao equivocado Planeta Vermelho . Mas apesar da premissa batida – astronautas e cientistas viajam até o Sol (ou qualquer outra coisa que o valha: meteoro, planeta etc.) com o objetivo de “reanimar” a estrela, ou seja, salvar a humanidade – o longa é muito mais do que isso.

Para começar, Sunshine é dirigido pelo escocês Danny Boyle. O cara até já cometeu erros como o bobinho Por Uma Vida Menos Ordinária e o apedrejado A Praia . Mas, em compensação, mostrou ser um cineasta de verdade no cultuado Trainspotting; deu uma roupagem pop aos filmes de zumbi com o acelerado Extermínio; e já tem um lugar garantido no paraíso dos cineastas. Só o nome do rapaz nos créditos já faz a diferença e destaca Sunshine no meio da multidão.

Enfim, Sunshine é um filme bom. É recheado de clichês, é verdade. Remete a produções clássicas do gênero: 2001 – Uma Odisséia no Espaço e Alien – O Oitavo Passageiro , para citar as mais óbvias. Traz semelhanças a outros longas-metragens menores, como O Enigma do Horizonte e Contato . Mas, apesar de todo o potencial para a cópia e o pastiche, a produção funciona bem. Mesmo seguindo todos os passos de uma fórmula já testada e usada até pelo avesso, Danny Boyle imprime ao filme uma marca própria que se não prima pela originalidade, pelo menos mantém a dignidade do longa-metragem.

A produção começa com a tripulação em pleno espaço sideral, ou seja, nada de pieguices mostrando a família dessas pessoas chorando ao vê-los partir em uma missão suicida. Mas, mesmo não criando uma bagagem sentimental para essas personagens, o espectador torce por elas. Elas são humanas e têm emoções. Elas são o mais próximo que podemos chamar de heróis.

Ao invés de apostar em astros, Boyle opta por bons atores que, mesmo conhecidos, passam longe de serem grandes estrelas do cinema. Para quê gastar contratando Bruce Willis, Robert Durvall ou Hillary Swank para interpretarem matemáticos ou físicos, se o filme já conta com o próprio astro-rei? Essa escolha dá uma dinâmica diferente a Sunshine . Ainda que saibamos que as personagens morrerão uma a uma, o filme não perde sua força.

Além da escalação do elenco competente – Cillian Murphy ( Batman Begins ), Chris Evans ( Quarteto Fantástico ), Michelle Yeoh ( O Tigre e o Dragão ), Troy Garity ( Vida Bandida ) -, a escolha de muitos ângulos colados aos atores reforça essa característica e nos aproxima do ponto de vista dessas personagens. É através dos olhos delas que contemplamos o horizonte, a luz cegante e onipresente do Sol e a trajetória de uma missão fadada ao fracasso. E é nessas escolhas de Danny Boyle que recai a qualidade de Sunshine .

O roteiro é preciso, apesar de ser mais do mesmo. Primeiro somos apresentados às personagens, à trama e à própria espaçonave, depois algo de inesperado acontece e, logo em seguida, começa o banho de sangue ou, aqui, uma coleção de queimaduras de primeiríssimo grau, para depois chegarmos ao desfecho trágico. Novidade nenhuma. A estrutura do roteiro é caretinha, mas pelo menos não atrapalha.

Os pequenos detalhes fazem, então, a diferença. Ao invés de meter uma narração em off ou inserir flashbacks para explicar o porquê da Terra estar devastada, Boyle mostra o apego de Michelle Yeoh à natureza (a última cena dela é tocante) e exibe a importância da missão através da apresentação da personagem de Cillian Murphy, simplesmente brilhante.

Já a parte técnica do filme é um primor da competência. A direção de arte precisa e a fotografia límpida (ambas merecedoras de prêmios) são de cair o queixo e as cenas que demonstram o poder do Sol são filmadas de forma apaixonada por um Boyle totalmente deslumbrado pelas possibilidades visuais do tema. Os efeitos especiais são fundamentais e discretos. E a trilha sonora (composta com a ajuda dos DJs do projeto Underworld) também é essencial para o clima do filme.

Inicialmente, a música é minimalista e estabelece uma narrativa mais contemplativa que domina a primeira parte do longa-metragem, emoldurando as seqüências e estabelecendo certa aura existencial à trama. Logo em seguida, ela acompanha a mudança de perspectiva do filme - que deixa de lado o caráter de admiração para ganhar ares de ação - acelera a narrativa e atribui suspense, tensão e urgências às cenas.

Contudo, é justamente essa mudança de foco que impede que Sushine alce vôos mais altos. A mistura de uma pretensa discussão sobre as conseqüências de o Homem enfrentar Deus ao tentar mudar um destino já traçado para a humanidade não combina com o ritmo acelerado e a edição picotada dessa segunda parte. Ao invés de se assumir apenas como um (interessantíssimo) exercício estilístico que objetiva incensar a Luz ao mais alto patamar da salvação e da perdição humana, o filme quer ser mais do que é. E perde-se tentando pincelar um tema complexo demais para a correria que toma conta do último ato.

Ao abandonar uma condução mais lenta, e que privilegia a plasticidade dos planos, para adotar uma câmera epilética digna dos filmes de Michael Bay ( Pearl Harbor , A Ilha ), Sunshine enfraquece um pouco. Já perto do final do longa-metragem, a beleza das imagens dá lugar a cortes e mais cortes que impedem que qualquer ser humano normal consiga acompanhar o que realmente está acontecendo. A chegada de um vilão que cai de pára-quedas na estória também não ajuda e acaba prejudicando a narrativa. Mas ainda que Boyle ceda a alguns maneirismos do cinema atual, ele mantém Sunshine em um patamar bem acima da média. Não chega a ser um clássico, mas tem potencial de sobra para virar cult .