SUSTOS POLÍTICOS
O Hospedeiro revitaliza os filmes de monstros e traz referências à briga política entre Coréia e Estados Unidos.
por Luiz Andreghetto ( andreghetto@rabisco.com.br )
Fotos: Divulgação
ilmes de monstros sempre foram uma constante no cinema, desde macacos apaixonados ( King Kong ), dinossauros ( Jurassic Park ), peixes assassinos ( Tubarão , Piranha e similares), alienígenas ( Alien e Predador ), até mutações japonesas ( Godzilla e afins). Depois de algum tempo em hibernação, “esses monstros” voltam ao cinema em um exemplar que promete revitalizar um gênero que parecia estar quase em extinção. E , por mais estranho que possa parecer, o país responsável por essa revitalização é a Coréia do Sul, com o filme O Hospedeiro ( The Host , 2006).
Diferente de seus “conterrâneos” asiáticos (Japão e China), a Coréia não possui nenhuma tradição cinematográfica no ocidente, fato que pode estar mudando com o sucesso de Park Chan-wook, diretor de Old Boy (2003), Zona de Risco (2000) e Lady Vingança (2005) e Kim Ki-duk diretor de Primavera, verão, outono, inverno e primavera (2003), O Arco (2005), Casa Vazia (2004) e Time (2006). Agora é a vez de Bong Joon-ho, diretor de O Hospedeiro , inscrever seu nome no cinema ocidental ao apresentar um “filme de monstro” bacana, como há muito tempo não se via.
O filme começa com uma crítica ambiental e política das intervenções americanas em terras coreanas (fato que se repete em outras passagens no decorrer da história): vários resíduos tóxicos e poluentes são lançados, por ordem de um americano, no Rio Han. Tempos depois essa ação desencadeia a criação de um ser mutante, que em um belo dia de sol sai das águas do rio e ataca as pessoas que estão ali se divertindo. Nesse ataque Gang-Du (Song Kang-ho, ator constante na filmografia de Park Chan-wook), tem sua filha raptada pelo monstro e, acreditando que ela esteja viva, parte, juntamente com o pai, o irmão e a irmã, para salvá-la.
As ousadias de Bong Joon-ho se iniciam ao fazer O Hospedeiro trafegar por diversos gêneros: drama, comédia, ação e suspense. Gang-Du vive com o pai e a filha em um trailer/lanchonete ao lado do Rio Han, do qual tiram o sustento para sobreviver. Gang-Du é um “looser” desacreditado por toda a família, que adquire forças heróicas quando precisa salvar a filha. O irmão é um desempregado, que está sempre criticando a falta de oportunidades que recebe do país, enquanto a irmã faz parte da equipe de arco e flecha coreana.
Se toda essa história mais parece um drama de relações familiares, é sobre esse alicerce que O Hospedeiro se desenvolve. As personagens são todas bem construídas e desenvolvidas, fato raro em filmes de ação e, principalmente, com monstros mutantes. Com o drama familiar de base, Bong Joon-ho ainda adiciona momentos de comédia pastelão, com vários tombos, desencontros e erros estratégicos de seus protagonistas, guardando a melhor surpresa cômica para um momento chave de forte tensão e suspense, bem no final do filme. Sem contar ainda com a presença de Gang-Du, o protagonista do filme, que dentro de todo seu drama é uma presença de grande comicidade e simpatia, que nos faz respirar um pouco dentro de toda a tensão criada pelo peixe mutante.
Se essa miscelânea por si só já não fosse suficiente, Bong Joon-ho ainda acrescenta uma pitada de crítica política, que é pincelada no decorrer do filme, na óbvia alusão ao uso do “agente laranja”, gás tóxico que pode matar o monstro e, consequentemente, infectar a população, que demonstra o descaso do governo para com seu povo e as intervenções do colonialismo americano, em um país que se ressente de estar dividido ao meio.
Talvez toda essa diferença de seus similares (comédia pastelão e drama familiar em filme de monstro e de ação), afaste o espectador que esteja mais acostumado com a cartilha hollywoodiana de filmes desse gênero, mas quem se aventurar e estiver disposto a descobrir novidades, O Hospedeiro é uma grata surpresa nesse manancial de pasmaceira que o cinema de gênero vem se tornando. Pode-se dizer que Bong Joon-ho apóia-se em clichês (alguns até inevitáveis) e “refilma” algumas cenas como homenagem á alguns filmes e diretores ( Tubarão , Os Pássaros ), mas faz tudo isso com tamanha inventividade e frescor que é impossível resistir à precisão das escolhas temáticas do “criador” e aos sustos provenientes da “criatura”.  |