VENCEDOR INCONTESTÁVEL
Boca Junior é campeão da Taça Libertadores pela sexta vez e se torna o maior vencedor de competições internacionais.
por Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )
Fotos: Boca Junior F.C – Grêmio F.C – Rubens Chiri (Grêmio X São Paulo)
Boca Juniors (ARG) não tomou conhecimento do Grêmio e aplicou 5 x 0 nas duas partidas da finalíssima e se sagrou campeão da Taça Libertadores 2007 . No jogo de ida foi 3 x 0 no estádio de La Bombonera , na capital do tango. Na volta, no último dia 20, os brasileiros não viram a cor da bola novamente e perderam por 2 x 0. Foi a maior diferença de gols da história da competição em um mata-mata decisivo.
Foi a sexta conquista para os boquenses, que é o segundo maior ganhador da história, perdendo apenas para o rival Independiente, que tem sete vitórias. Foi a quarta taça da competição em sete anos, tendo as outras vitórias ocorrido em 2000, 2001 e 2003 – as primeiras em 1977/78. Com este feito, o Boca também alcançou 16 troféus internacionais, se consolidando como a equipe que mais tem campeonatos deste tipo no mundo.
Nem tão avassalador assim
Apesar de tudo isso, ao contrário das conquistas anteriores, o Boca não tinha uma equipe forte no conjunto, com uma defesa segura, um meio campo fantástico e um ataque arrasador. O goleiro Caranta nunca passou confiança, a dupla de zaga não é das melhores, o meio campo não é um primor na marcação e o ataque sofreu com a atuação apagada da revelação Palacios, tendo apenas o experiente (e mediano) Palermo para completar de cabeça os cruzamentos na área.
Contudo, tinha a qualidade e a magia do meio-campista Riquelme, que veio emprestado pelo Villareal, da Espanha, apenas para disputar o torneio sul-americano e recolocar a equipe de Buenos Aires de volta ao topo do mais importante campeonato das Américas. E foi o que fez. Nos momentos em que mais precisou do astro amado pelos inchas do Boca, ele apareceu, principalmente nas duas partidas finais, com três gols e duas assistências. Outro fator preponderante para o triunfo foi a experiência. Além de Riquelme, Palermo, Ibarra, Clemente, Rodriguez e Battaglia já haviam sido campeões da Libertadores pelo Boca.
Começo difícil
Mesmo assim, o campeonato não começou muito animador para os argentinos. Preocupados com o Torneo Clausura, competição nacional daquele país, o Boca se classificou somente na última rodada. Isso porque perdera dois jogos fora de casa, respectivamente para Toluca (0 x 2) e Cienciano (0 x 3), tendo apenas empatado, na estréia, com o Bolívar, sem gols. Na primeira partida de casa, penou para vencer o Cienciano pelo placar mínimo, em confronto realizado no estádio Nuevo Gasômetro, do San Lorenzo, pois a Bombonera estava interditada temporariamente.
Depois, passou fácil pelo Toluca por 3 x 0 (ainda jogando fora do estádio, desta vez no campo do Vélez Sarsfield) e necessitava de uma vitória por 4 x 0 na última rodada para chegar as oitavas de final. Fez mais que isso: ganhou de 7 x 0 do fraco Bolívar, preferindo jogar contra o Vélez Sarsfield na outra fase, ao invés de enfrentar novamente uma longa viagem e mais um jogo na altitude, pois, caso fizesse “apenas” quatro, pegaria de novo os mexicanos do Toluca. E deixou a todos a impressão que, se precisasse, faria ainda mais gols.
Nas oitavas-de-final, colocou, de cara, 3 x 0 no Vélez, praticamente eliminando o rival. Na volta, no estádio José Amalfitani, um 3 x 1 que não deixou em perigo a vaga xeneize, já que, na fase mata-mata, excetuando-se a final, o gol fora de casa tem peso dobrado.
Nas quartas-de-final, um adversário que cresce a cada ano, mas permanece sem tradição, nem torcida: o Libertad, do Paraguai. Na ida, um susto em Buenos Aires: 1 x 1, apesar do erro de arbitragem, que anulou um gol legítimo dos argentinos. Os paraguaios foram muito bem, se fecharam e não sentiram a pressão de atuar na famosa caixa de bombons. Porém, em Assunção, o Boca mostrou porque é, atualmente, o mais poderoso time da América, e ganhou por 2 x 0, sem deixar o adversário atacar, nem deixar torcer, pois muitos inchas foram até o Paraguai acompanhar a equipe.
Na semifinal, pela frente a grata surpresa Cúcuta Deportivo, da Colômbia. Com um futebol de toque de bola, bastante envolvente, assombrava como o Once Caldas de 2004, no entanto, com muito mais futebol para mostrar e alegrar quem assiste a Libertadores, acostumados sempre a um futebol chato, de marcação e pouca criatividade, mas muita raça e jogo coletivo. O primeiro jogo foi em Cúcuta. Estádio lotado três horas antes da peleja começar. Euforia total. Mas, numa das poucas grandes atuações de Palácios no torneio, ele abriu o marcador ainda no primeiro tempo, complicando o sonho dos locais, que gritavam “si, se puede”. Na etapa final, a virada ocorreu, encerrando o placar em 3 x 1, dando um alento enorme aos colombianos.
Na volta, porém, o imponderável ocorreu. Além da sandice da seleção panamenha em tirar o centroavante Blás Pérez, o melhor jogador do Cúcuta, para a Copa Ouro nos Estados Unidos, uma neblina sem proporções invadiu Buenos Aires no dia do jogo, atrasando-o em uma hora, ainda com uma interrupção durante os 90 minutos. Dois a zero bastava aos xeneizes, que engoliram o adversário, perdido naquele nevoeiro e naquela pressão toda. Foi 3 x 0 e foi pouco, dado o massacre presenciado na Bombonera.
Apoteose de um craque
Chegou a final. O Grêmio, repleto de histórias de superação para contar, com oponentes complicados na lista de derrotados e com toda a mística da imortalidade da camisa tricolor. Só que do outro estava um dos maiores campeões das Américas, com histórias tão ou mais preciosas e épicas como a dos gremistas. E com tanta tradição quanto.
A diferença, no frigir dos ovos, foram duas, já comentadas: a experiência dos atletas do Boca, em comparação a juventude (na idade e no torneio) de muitos, e Riquelme. Claro, pois o meia participou dos cinco gols das duas finais, mostrando mesmo que estava se despedindo do clube e que desejava fazê-lo de uma forma que se tornasse inesquecível. E foi, para ambas as torcidas. A boquense, que viu seu grande herói decidir o caneco e a gremista, que deu um show na arquibancada e se resignou a gritar o nome do time, mesmo depois do fim do jogo.
No primeiro confronto, em Buenos Aires, o Grêmio até atuou direitinho na fase inicial, atrás, impedindo os avanços do Boca, mesmo este tendo aberto o placar, numa falha dupla: da zaga, que só olhou, e do assistente, que não marcou impedimento. Mas, no segundo tempo, os argentinos foram para cima e, ajudados com a justa expulsão do volante Sandro Goiano, no primeiro terço da etapa derradeira, os xeneizes destruíram o Grêmio com um 3 x 0 impensável.
A torcida acreditava para a volta que seria possível inverter um placar pela terceira vez na competição, depois de virar sobre São Paulo, Defensor e segurar o Santos na Vila Belmiro. Mas, o Boca é o Boca, por mais pouco informativo que isso possa ser. Entretanto, é futebol, e o inexplicável e o aparentemente óbvio dizem muita coisa. O time que tem (não por acaso) as cores da bandeira sueca manteve uma postura magistral em Porto Alegre. Barrou as investidas do adversário, marcou na frente e foi ao ataque a hora que quis, fazendo os gols nos momentos certos, enterrando toda e qualquer possibilidade do Grêmio tentar alguma coisa. Não que os gaúchos tivessem tentado algo. Os jogadores pouco fizeram para reverter essa jornada, parecendo já saber que o impossível não ia se repetir. Não desta vez.  |