A ARTE ESCRITA EM LINHAS TORTAS
Fellini descreve a influência norte-americana no cenário italiano pela ótica de um jornalista (in)feliz.
por Rodolfo Tiengo Fernandes (rod_tfernan@yahoo.com.br)
e assim for possível, que gosto dar à vida? Doce, amargo, salgado, insosso? O mestre Federico Fellini tentou vislumbrar o sabor de uma, perdida em meio à esquizofrenia da ilusão moderna. Em ”La Dolce Vita”, a vida de Marcello era “dolce” como um suco misturado com pétalas de flores negras e com um pouco de pimenta para abrir o apetite do protagonista. Era doce como laranja podre; podre como era o próprio espírito encenado por Mastroianni.
O ambiente de Roma é cinematográfico. A Fontana Di Trevi , que notabilizou o filme e os atores envolvidos numa das cenas mais importantes da Sétima Arte, é uma ode à beleza clássica e ao europeísmo. Parece que ali se dissolvem todas as angústias e, por um ligeiro momento (o da cena), existe a possibilidade da realização humana, o beijo, o ponto crucial. Mas por que razão ser clichê, quando se pode entrar para a história? O ósculo não se concretiza. O quase beijo é tão genial quanto o lendário quase gol de Pelé, na Copa de 1970 — quando o atacante, com uma movimentação atilada e sem tocar na bola, tirou da jogada o arqueiro adversário. Todavia só é eterno porque não se concretiza; pois a ausência da conclusão gera a ansiedade e esta instiga a memória. É inevitável a pergunta: o que ocorreria com Marcello se ele tivesse beijado Silvia? Será que seus rumos teriam mudado? Ou a atriz seria mais uma dentre as figurinhas que ele colecionava?
Marcello e seu cotidiano eram cingidos por uma paisagem fantástica. As romanas ruas, sinuosas algumas, suntuosas outras, os passeios calmos engolidos pelas construções vigorosas e tradicionais. São caminhos obstinados por um período mágico, ainda que a sensação seja repleta de falsa utopia. Era um período maluco. Era o pós-guerra, era o rock'n'roll e Elvis, era o avanço tecnológico, era o cosmopolitismo. A cercania, que muitos séculos antes deu lugar ao império que dominava o mundo conhecido, agora estava jugulada, apaixonada, enlouquecida pelo american way of life; um establishment sensualmente simbolizado por Anita Ekberg, a estonteante Silvia, a loira que deixou de queixo caído — e sem beijo — o garanhão Marcello.
O perfil do jornalista era romântico e boêmio. Ali na Itália, na década de 1960, o bom vivant Marcello experimentava uma vida de bacana. De dia enrolava um pouco, trabalhava às vezes, de noite escapava para uma boa gandaia. Freneticamente encantado pelas festas da high society, experimentou tudo o que fugia do consenso apregoado pela igreja — lembrem-se que se está em terreno praticamente vaticano. Drogas e orgias conduziam por uma revel estrada o desequilíbrio do jornalista.
A falta de laços familiares, a decepção com relação ao pai — que queria se ver longe do filho — e ao “exemplar” amigo Steiner (que cometeu suicídio após matar um filho) transformou Marcello num cara cético, preso aos sentimentos individualistas. Sua namorada, embora cega e doente de amor, era a única que realmente o deixava nervoso, talvez porque lhe dizia verdades que jamais queria ouvir. E até os carros, em meio às luzes, por si só representavam a maluquice romana. Uma sociedade querendo se auto-afirmar moderna com os rugidos dos veículos, conduzidos por gente à procura de trabalho, de lazer, de confusão. De algo enfim para acreditar.
A mudança nos comportamentos implicava em quebras drásticas. A liberação dos hábitos fazia com que o ser humano se lambuzasse do ácido mais voraz; daquele que se prova e não se percebe o mal. Marcello Rubini era o produto da incerteza que a própria época vivia. Roma já não era Roma como antes; queria copiar a América. Preço alto a se pagar.
As pessoas perdem o sentido de suas existências em nome da ascensão e do status social. Quando se vêem no topo, se transformam em escravos do entretenimento desmedido, do situacionismo, da criação de um padrão de vida que por fim acaba se desfazendo. Esfarelando-se na areia como a baleia — o monstro decaído da civilização que sintetiza o filme no seu desfecho — morta em uma praia qualquer.
Acompanhando esse mórbido processo de degradação social, os papparazzi italianos correm atrás das celebridades, feito gralhas açodadas e saltitantes em seus velozes carrinhos — às vezes, a caricata movimentação dos automóveis da imprensa, nas ruas de Roma, nos leva a crer que o mundo construído por Fellini é de brinquedo. Os repórteres, hipnotizados pelo pseudoglamour do colunismo, munidos de suas câmeras fotográficas, de sua sede por fofocas e flashes valiosos, são abutres à caça do inusitado. E desde então, como sempre, a mídia constrói mitos, abusa da boa fé e da ingenuidade alheia — nem que para tanto seja necessário forjar uma aparição da Virgem Maria.
E na outra margem da história parece estar a solução para Marcello. No epílogo da película, aparece a ternura em forma de mulher, uma jovem encantadora, quiçá aquela que levaria o jornalista para uma vida realmente doce. Seria esta a vida doce que ele ansiava, ou o doce criado por Fellini era a atmosfera em que já estava Marcello, defrontando ironicamente suas dores diante das alegrias fáceis e efêmeras?
Fica a incerteza. O diálogo entre Marcello e a bela menina na praia não é inteligível para os dois. Por quê? O beijo entre o jornalista e a atriz Silvia não acontece. Por quê? A arte é não aquilo que esclarece, mas o que deixa a oscilar pelo céu das dúvidas mais bestas. Fellini escreveu por linhas tortas. E, cercado pelo enredo, o telespectador não consegue endireitá-las, por mais que compreenda as possíveis e tácitas intenções. 
|