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14 a 31 de julho de 2007

Equipe Edições Anteriores

 A TERCEIRA CAUSA
Livro-reportagem retrata os problemas, as histórias e as possíveis soluções para o trânsito, que resulta na morte de 34 mil pessoas no Brasil.
por Priscila Tieppo ( priscilatieppo@gmail.com )
Fotos: Divulgação/ Acervo pessoal Marc Tawil

egundo as estatísticas, o trânsito será a terceira causa de mortes no Brasil em 2020. Este foi um dos dados apurados pelo jornalista Marc Tawil, entre tantos que estão em seu livro Trânsito Assassino – As mortes aumentam, ninguém liga, lançado em junho deste ano. Parece que realmente ninguém liga. Andando pelas ruas é possível perceber as impudências e o descaso dos motoristas e pedestres nas vias públicas. Para elucidar isto ao leitor, Tawil ouviu personagens que sofreram com os acidentes, autoridades e sindicatos em algumas capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e Porto Alegre.

O livro escrito no formato de uma grande reportagem facilitou o debate entre os entrevistados e permitiu que o jornalista aprofundasse o tema. “Infelizmente, os jornais dão cada vez menos espaço para boas reportagens. Um livro-reportagem permite ao leitor entrar no assunto, conhecer melhor o tema. Além disso, permite a quem escreve flertar mais com a literatura, como o texto em forma de crônica. Dá prazer de escrever”.
Segundo o autor, o tema polêmico se tornou necessário, por se tratar de um assunto que sempre o intrigou. “Antes de ser polêmico, o trânsito é um tema necessário, que precisa ser discutido em sociedade. Acaba sendo polêmico porque, infelizmente, é tratado com negligência pelas nossas autoridades”, explica.

E este descaso é só a ponta do iceberg. O livro, escrito em apenas dois meses, revela dados surpreendentes que não são levados em conta pelo governo. Entre eles, está a constatação de que as pessoas são imprudentes porque sabem que não serão punidas. O sistema é falho desde o primeiro contato com um carro na auto-escola para ter a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) até as condições das vias públicas para se dirigir.

E não param por aí. O Brasil não prioriza a educação no trânsito em cursos de formação, o que faz do automóvel ou da motocicleta não apenas um meio de condução, mas também uma arma.

Entre as possíveis soluções mostradas por Tawil, está um grupo teatral chamado Via Certa Teatral, formado em Ribeirão Preto , interior de São Paulo, que leva peças a escolas, ruas, semáforos, praças, postos de gasolina e terminais de ônibus. Eles usam a alegria, a música e roupas coloridas para chamar a atenção e alertar sobre a importância de uma conduta correta no trânsito.

Histórias reais - Marc Tawil selecionou personagens conhecidos, como o locutor Osmar Santos (que sofreu um acidente em 1994, no interior de São Paulo) e de cidadãos comuns, como Tatiana de Queiroz que perdeu seu namorado Leonardo atropelado no Rio de Janeiro.

Além de mostrar a garra dos que venceram, como Osmar, o jornalista teve a sensibilidade de mostrar a dor das pessoas que perderam parentes e amigos para um trânsito considerado uma verdadeira terra de ninguém.

Para selecionar as histórias, “o critério escolhido foi um só: humanizar o tema, isto é, encontrar pessoas que dessem relatos reais, tocantes, e não apenas números e estatísticas. No capítulo de motos, por exemplo, ouvi desde socorristas a psicólogos, bem como sindicalistas e, claro, as vítimas dos acidentes. Procurei traçar um panorama amplo sobre os assuntos”, conta.

Dentro deste panorama, algumas causas debatidas no livro são o álcool, o celular, a distração, as condições das vias, a neblina e os rachas.

No caso desta “corrida sem sentido” chamada racha, os “velocistas” querem mostrar a potência do carro e a superioridade. Retratam, assim, de forma esdrúxula, o poder que um carro pode lhes oferecer. No trânsito, talvez isto seja mais acentuado, mas muitos motoristas não respeitam o próximo. As histórias de cada personagem mostram como poucos segundos podem interromper uma vida de sonhos e objetivos e deixar tantas outras com a dor da perda. Até quando?

A arte imita a vida - O filme brasileiro Não por Acaso (em cartaz nos cinemas) tem como pano de fundo a cidade de São Paulo e suas peculiaridades: o café, a rotina e o trânsito. As personagens principais do filme, interpretados por Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros, têm suas vidas entrelaçadas a partir de um mesmo acidente de trânsito, que muda em segundos os destinos de cada um, apesar de não se conhecerem.

O engenheiro de trânsito Ênio controla suas emoções da mesma forma que lida com os congestionamentos paulistanos. Já o jogador de sinuca Pedro, acha que a vida é feita das repetições, assim como reproduz cada tacada no jogo. Neste cenário, os dois perdem as mulheres mais importantes de suas vidas em um mesmo acidente de trânsito. O fato, que já é comum na cidade, muda os rumos destes homens que são lançados em uma jornada de perdas e descobrimentos.

O filme não pretende em sua essência retratar apenas o trânsito, mas o usa como ponto determinante para a uma virada jamais prevista pelas personagens. E assim é com tantos brasileiros que morrem pelas próprias imprudências ou pelas dos outros, perdem o direito à vida e deixam famílias desoladas. “É a educação para o trânsito que permite salvar vidas, formar motoristas e pedestres conscientes. A falta dessa formação acaba, lá na frente, criando maus motoristas, facilitando acidentes, provocando multas e mortes - nem sempre nessa ordem”, opina Tawil.