O ANJO DEFORMADO
Serafim Ponte Grande exibe a crítica social perspicaz e a literatura revolucionária de Oswald de Andrade.
por Adilson Lira ( pazlira@terra.com.br )
erafim Ponte Grande é muito mais do que a vida de um barão papista. Ou do hábil manipulador da psicologia feminina. Ou do garanhão em todas as latitudes. Ou do discípulo de São José. Ou do irmão da Ordem de São Cornélio. As peripécias do herói oswaldiano perpassam a história das camadas médias urbanas e denunciam a influência do capitalismo pelo mundo. Nesse escrito encontram-se os sonhos, as desilusões, as lutas de parcela da sociedade. Um funcionário público, sempre endividado, em conflito com a esposa, é o mote para o autor desvendar o consumismo que invade o mundo: o shoppingar , o cinematógrafo, o piano, as férias na praia, o Stradivarius, as novas valsas; “Lálá quer passar o inverno em Santos. Já fiz os cálculos e vi que...” .
Enquanto os laços matrimoniais e as obrigações profissionais são apodados de rendez-vous de consciência, o nosso herói não se apega a uma riqueza aviltante, assassinatos e traições (modos característicos de um sistema social cuja ética apóia-se no lucro). O tédio decorrente da falta de perspectiva de uma função social daquele mundo é encontrado nos devaneios de divórcio a vínculo (que, na década de 1930 ainda não era permitido no Brasil), no alpinismo social, e na classe falida que “as quintas e sábados de procriar” se transforma em cáften, prostitutas (tos), cabaretier e bordeliza nos navios, nos hotéis e no próprio lar.
O desencanto (em francês ennui , considerado um mal de siécle na época dos escritores franceses Lamartine e Chateubriand) da personagem Solanja que, sem perspectiva, vivia pelo mundo viajando de navio, ilustra parte de setores à beira da destruição. Oswald de Andrade, em sua ficção, exemplifica este contraste por meio de uma confusão criada em torno do assassinato de uma lumpen (Dorotéia, mal vestida, cheirando a alho), em que a homicida é linchada pelos espectadores. Por outro lado, a internacionalização do capital pode ser vista na difusão do jazz, do boxe, do Charleston (“o pé-espalhado”), na difusão da língua inglesa, e nos turistas com suas Kodaks. Para alguns é o desbunde ( Paris é uma festa ), mas para Oswald de Andrade o capitalismo é o responsável pela camorra da miséria, da degenerescência, o trotoir ao redor do mundo.
Com este livro, lançado em 1933, o autor precede Nelson Rodrigues que em suas crônicas fez duras críticas a Dom Helder Câmara dizendo que este “só olha para o céu para ver se vai chover”. Oswald de Andrade trouxe observações deste gênero na boca dos personagens de Serafim Ponte Grande - “estes padres de hoje, meu senhor, não acreditam nem em Deus” -, e foi atualíssimo ao escrever trechos como “por cem becos de ruas falam as metralhadoras na minha cidade natal. (...) É a hora em que eu, Serafim Ponte Grande, empregado de uma Repartição Federal, saqueada, e pai de diversas crianças desaparecidas, me resolvo a entregar à voracidade branca de uma folha de papel (...)”.
A irreverência do autor, cuja lucidez genial manifesta-se no ardor blasfemo, ao lado do proselitismo ideológico, vai mais longe do que repudiar Mário de Andrade, Graça Aranha, debochar o romance naturalista ou gritar “raça dos apólogos de Machado de Assis, nunca”. Oswald apresenta Serafim nas ruas a palitar os dentes e alegrar-se com o vazio do lar, após o divórcio, como oportunidade para “peidar à vontade”. Em outro trecho uma noviça se refere a São José como padroeiro dos trouxas, para destacar a possível condição de marido traído do personagem principal.
A crítica social é ampliada quando um dos personagens, um religioso, ante as águas do rio Jordão, pregava aos turistas que, para salvar a humanidade, era preciso usar Água de Colônia. O mesmo mote pode ser visto em sua obra quando um outro religioso justifica a escolha do lugar do Calvário como “visão econômica, meus caros”, pois era melhor utilizar um país estéril a fim de não estragar uma Suíça ou Itália; ou, por fim, no diálogo da guarda sobre o Santo Sepulcro: “não há nenhum...nunca houve...quem?...Cristo nasceu na Bahia”.
Algumas das construções célebres deste livro foram parafraseadas por muitos, inclusive pelo atual presidente Luiz Inácio da Silva. Em uma das cenas em que Serafim conversa com Solanja questiona “Madame, vóis sois americana?” e ela responde: “- não, sou solitária”. Há uns quinze anos questionaram ao atual presidente: “- o senhor é marxista?”, ao que Lula respondeu “– não, sou torneiro mecânico”. Além disso, na última Ditadura Militar (1964-1985), Henfil promoveu enterros célebres - os mortos vivos - uma idéia já abordada em Serafim Ponte Grande ; e, na contracultura, o famoso lema hippie “a castidade dá câncer”, foi uma espécie de cópia do trecho “a castidade é contra-higiênica”, encontrada nesta obra.
Em sua deglutição, Oswald de Andrade faz alusões a Camões nos anagramas (um dos poemas mais famosos dele é Anatercia , que é um anagrama Catarina), ao trazer um poema é assinado por Mifares, sendo este Serafim; a Napoleão, em um discurso que lembra a frase “Legionários, do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”; aos Comunardos, quando Ponte Grande afirma que estes são os avós dos bolcheviques; a Edgar Allan Poe, por meio do trecho célebre never more, never more , do poema O Corvo ; a Aluízio de Azevedo, com suas críticas aos prenomes; e ao uso da pinga (cachaça) com pólvora como estupefaciente – já usada na Ressurreição Pernambucana, em 1630.
Nesta obra que alguém define como bricolagem, mosaicada, Haroldo de Campos destaca: “é um livro, compósito, híbrido, feito de pedaços ou “amostras” de livros possíveis, todos eles propondo e contestando uma certa modalidade do gênero narrativo ou da assim dita arte da prosa”. Quem sabe se Oswald de Andrade não estaria participando da problemática instaurada por George Luckacs sobre o fim do romance (a partir de 1916) e que Ference Feher tentou desvendar com o seu O Romance Está Morrendo? (1974).
Muitos dos aspectos que fazem de Pedro Páramo , de Ruan Rulfo (1956), um trabalho emblemático já se vislumbram na obra de Oswald de Andrade: não-linearidade, interpolação da trama narrativa, coloquialismo, várias vozes, elementos mágicos. Se o autor mexicano traz-nos diálogos entre mortos, Serafim Ponte Grande interfere na trama, expulsa o secretário do romance; o expulso retorna à trama, posteriormente, sem nenhuma explicação lógica, exceto a lógica literária de um grande escritor, muito além de seu tempo. A genialidade de Oswald envolve, também, a poesia e o teatro. Pela quebra dos padrões estéticos, dizem-no predecessor de Samuel Beckett e todos os demais. No mundo da poesia, a sua criatividade dispensa qualquer apreciação, e no romance a classificação de um não-livro, ou não-romance, pelo seu revolucionarismo, é um divino achado.
Do ponto de vista ideológico, Oswald de Andrade avantaja-se a Jorge Amado, Eduardo Galeano, Afonso Schmidt e muitos outros: o seu anticapitalismo é gritado a fim de estourar os tímpanos daquilo que o autor considera injusto, contra-revolucionário. Abominava o direito autoral e queria ter o Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas, como maneira de repudiar o capitalismo. Por todos estes motivos, ele deve ser lido, comparado, analisado e, em respeito a sua vontade, deformado através do contato com a sua vasta produção literária. 
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