CANÇÃO PARA AMÉLIE
Álbum de estréia de Casey Dienel, Wind-Up Canary traz serenidade e versos marcantes.
por Eduardo Carli de Moraes ( educmoraes@hotmail.com )
música de Casey Dienel é trawnqüila, serena e de sabor adocicado - mas sem exageros. Com uma voz suave e fininha, freqüentemente acompanhada por discretos acompanhamentos ao piano e por uma bateria jazzy , ela cantarola e declama excelentes poesias – que são, aliás, um dos principais diferenciais de sua música. As palavras que jorram da boca da cantora são de entontecer: lúdicas, sofisticadas e originais, repletas de personagens singulares e de versos marcantes. As letras de Casey Dienel nos fazem supor que estamos frente a uma das melhores compositoras da música americana, nos últimos anos.
Já a sonoridade traz à mente algumas cantoras sentimentais e meigas que marcaram a música americana nos anos 70 - Carole King e Joni Mitchell, principalmente. E Casey Dienel com certeza não se sentiria ofendida de ser colocada nesta linhagem. Ela reconhece a influência de ambas em sua música. Mas, além destas duas influências mais clássicas, Casey não deixa de ter suas semelhanças com outras cantoras que atualmente têm marcado o cenário internacional – como Regina Spektor, Cat Power, Fiona Apple, Nellie McKay, Tori Amos, Aimee Mann, Jolie Holland, entre outras.
Em um ano que foi recheado de grandes discos de cantoras/compositoras originais e arrojadas (Joanna Newson com seu épico literário Ys. , Lisa Germano com a bela melancolia soturna de In The Maybe World , Regina Spektor sedimentando-se na cena com o coeso e adorável Begin To Hope ...), este Wind-Up Canary é um álbuns dos mais fáceis de adorar à primeira vista e admirar cada vez mais com sucessivas audições. É o raro tipo de obra que resiste muito bem a uma audição “superficial”, podendo servir como agradabilíssima música de fundo para outros afazeres do dia-a-dia, mas que, se ouvida com cuidado e atenção, revela em seus versos e sonoridades uma riqueza musical e literária extraordinária.
Seja em baladas melancólicas levadas à la Fiona Apple só na voz e no piano (“Cabin Fever”, “Frankie and Anette”...), seja em canções ao violão com jeito de indie-folk (a irresistível “Stationary”), seja com músicas de mais pegada e ritmos mais dinâmicos (“All Or Nothing” e “Everything”), Casey Dienel se mostra sempre versátil e cheia de personalidade, bom-humor e inteligência. Ela soa linda até quando desafina, como acontece em "Tundra", enquanto é acompanhada por trompetes sutis e dilacerantes. Ela tem, inclusive, um dos top 5 lá-lá-lás da história do vocal feminino, finalizando o disco lindamente com a melancólica “La La Song”.
Será realmente surpreendente que este álbum tenha passado relativamente desapercebido, inclusive por muita gente antenada com as novidades do indie rock internacional? Talvez não. Casey Dienel tem uma carreira bem discreta, apesar do imenso talento que possui. Ela parece apreciar demais os pequenos prazeres da vida cotidiana, mais ou menos como uma Amélie Poulain, estando muito mais interessada em poder conservar uma vida humilde, serena e balanceada do que dar rédeas às suas ambições e virar um fenômeno dentro da indústria fonográfica; ela parece sábia demais para ter ilusões sobre a glória e feliz demais com sua vida para alimentar sonhos de modificá-la radicalmente.
Wind-Up Canary , um disco singular e um clássico instantâneo; acaba sendo uma sublime mistura de indie pop, folk e jazz vocal, tudo repleto de ótima poesia - música que lembra um pouco o trabalho de outras cantoras (principalmente Fiona Apple,Joni Mitchell e Nellie McKay...), mas que não deixa de soar extremamente individual. Imprimam as letras de Casey Dienel e terão em mãos um dos melhores livretos de poesia do ano. Ouçam o disco e muito provavelmente sairão dessa experiência, que é daquelas que acaricia nossos ouvidos e nos deixa na maior paz, querendo agradecer ao Destino por terem conhecido a menina mais doce do mundo. 
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