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O ABC DA MÚSICA POP
Zeca Camargo lança De A-Ha a U2 : um verdadeiro tratado sobre o mundo da música pop por quem entende mesmo do assunto.


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14 a 31 de julho de 2007

Equipe Edições Anteriores

O ABC DA MÚSICA POP
Zeca Camargo lança De A-Ha a U2 : um verdadeiro tratado sobre o mundo da música pop por quem entende mesmo do assunto.
por Geraldo Bittencourt ( g.bittencourt@terra.com.br )

e você pensa que vai encontrar apenas histórias sobre artistas do naipe de Britney Spears ou Avril Lavigne, esqueça, o livro De A-ha a U2, lançado pela editora Globo, é resultado das impressões de Zeca Camargo sobre o que sabe fazer como poucos: entrevistar astros da música pop. O conceito de pop aqui é o mais elástico possível. No mundo de Zeca Camargo, artistas pop podem ser as duas cantoras citadas, sim. Mas tão pop quanto elas é o Guns N' Roses ou o Metallica. Ao longo do livro, fica explícito que, para Zeca, este gênero musical é mais do que um estilo engessado ou, muitas vezes, fabricado. São acordes bem combinados com vozes que resultam em sonoridades inexplicáveis, ou seja, toque a alma de quem esteja ouvindo.

Uma pergunta fica no ar: se Zeca Camargo é um entrevistador-nato, por que não foi incluída no livro também às entrevistas? É simples: porque os bastidores de muitas entrevistas renderam melhores histórias do que as próprias entrevistas. Para ilustrar a resposta, vamos tomar como exemplo o encontro de Zeca com a polêmica Courtney Love, vocalista do Hole. A entrevista estava marcada para as quatro horas da tarde. Como todo bom entrevistador, as três em ponto ele estava à espera da estrela. Mas aí é onde mora à questão. A viúva de Kurt Cobain estava pouco se lixando para o jornalista. Duas horas se passariam para que a produtora avisasse que a roqueira se atrasaria um pouco. Ok, só um pouco. Mais uma hora se passou, duas, três, quatro...até nove horas! Enquanto isso, Zeca teve de ouvir a passagem de som da banda, o show do Hole para, depois, enfim, fazer a entrevista que, de tão morna, durou pouco mais que 10 minutos.

O livro foi escrito de forma bastante dinâmica, com textos curtos, rápidos, e bem-humorados, que passam, para o leitor, a impressão de que é o próprio Zeca Camargo que está falando. A obra é dividida em capítulos sobre as bandas. De início, uma sucinta apresentação do músico que a entrevista será contada. Depois, as impressões de Zeca sobre o bate-papo. Os textos curtos são um ponto a favor, de modo que dá liberdade ao autor de pular as repetições que, diga-se de passagem, cansam de acontecer na música pop.

As repetições as quais eu me refiro são as perguntas “piloto automático”, termo cunhado pelo próprio Zeca Camargo no livro. Qual seria o resultado de um artista entediado, cansado de dar entrevistas, e um jornalista igualmente exausto após longas horas de espera? O saldo, não raro, são as velhas perguntas de sempre que recebem as velhas respostas de sempre. Exemplos desses diálogos logo saltam à mente: “vocês se sentem pressionados para lançar álbuns todos os anos pela gravadora?”, que recebem como resposta: “não, nós não nos preocupamos com a gravadora, fazemos música pensando apenas nos nossos fãs”. Ou: “qual a expectativa de tocar no Brasil?”, seguida da brilhante resposta: “queremos agradar todos os fãs brasileiros”. Você já ouviu isso antes, não?

Será que uma obra que trata também sobre as idiossincrasias dos artistas pop deixaria de fora alguma extravagância do ícone Axl Rose? É claro que não. A entrevista que está em De A-ha a U2 com o Guns foi ainda quando Zeca trabalhava na MTV, em 1991, auge da banda de Axl, Slash & cia. Para essa conversa, Zeca e sua equipe queriam fazer algo diferente. Tiveram, então, a idéia de alugar um barco e convidar o controverso grupo americano para fazer um passeio. Foi a entrevista mais cara da MTV, para os padrões da época. Entrevista? Mas que entrevista? Simplesmente o Axl não foi.

Mas nem só de percalços vive um jornalista que cobre o mundo da música pop. Zeca Camargo fez reveladoras entrevistas que estão lá, contadinhas, no livro. Talvez o maior exemplo seja o de Cazuza. Num dia frio, em Nova Iorque, o ex-vocalista do Barão Vermelho falou em primeira mão sobre a AIDS, doença que, mais tarde, o levaria a morte. A matéria destacou-se na época, rendendo, para o autor, sua primeira manchete no jornal que trabalhava.

Outro caso assim foi o de George Michael. Geralmente, em entrevistas com artistas polêmicos, – e George Michael se enquadra perfeitamente nesse grupo – desenrola-se sempre uma listinha com assuntos proibidos, intocáveis. E no pacote “George Michael” um dos assuntos era a morte da princesa Diana. Sem forçar a barra, contando também com a sorte, Zeca assistiu George falar, mesmo sob gestos histéricos e desaprovadores do assessor nos bastidores, abertamente sobre o assunto. E isso lhe rendeu mais destaque.

Sem dúvida, a maior virtude de De A-Ha a U2 está em trazer para o leitor a visão do showbizz e da indústria fonográfica por um perito no assunto. Para quem pretende ser jornalista especializado em música, o livro de Zeca Camargo deve ser colocado ao lado dos clássicos do gênero. Nele, o jornalista dispara ainda as suas impressões sobre artistas cuidadosamente fabricados pelas gravadoras, como Avril Lavigne e Britney Spears. Fala sobre a armação criada para tornar Mariah Carrey, após um disco fracassado, novamente uma sex symbol. Solta o verbo sobre a antipatia que tomou do ColdPlay. Fala bem do Moby. Mal do Oasis. E assim, depois de mais de 50 entrevistas, o seu alfabeto está plenamente descortinado.