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O ESTUPRO DO MUNDO
Baixio das Bestas e O Cheiro do Ralo têm em comum a mulher como elemento de prazer egoísta e violento.

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14 a 31 de julho de 2007

Equipe Edições Anteriores

O ESTUPRO DO MUNDO
Baixio das Bestas e O Cheiro do Ralo têm em comum a mulher como elemento de prazer egoísta e violento.
por Joezer Mendonça ( joezer_7@hotmail.com )

ena 1: o vendedor de quinquilharias Lourenço (Selton Mello), após recusar niilisticamente todas as convenções do amor ao próximo (a), é hipnotizado pelas formas calipígias de uma garçonete (Paula Braun). Ele quer pagar pra ver a saliência glútea da moça in natura.

Cena 2: dois jovens (Matheus Nachtergaele e Caio Blat), após recusar niilisticamente todas as convenções da vida em sociedade, são hipnotizados pela lei do desejo em um bordel do sertão pernambucano. Rodeados de prostitutas, à la Último Tango em Paris eles pedem manteiga.

A primeira cena é do filme de Heithor Dhalia, O Cheiro do Ralo , e o personagem de Selton Mello àquela altura já desfez um noivado um mês antes do casamento, humilhou quem procurou sua loja para lhe vender algum objeto de valor e, principalmente, adquire consciência de que sua vida e seus negócios têm a recendência dos dejetos que estagnaram no ralo. Ao longo do filme, o personagem Lourenço, homônimo do autor do livro original, Lourenço Mutarelli, segue seu trajeto pessoal de dominação e humilhação de gente. Sua noiva, um peruano com um gramofone, os torneiros que chegam para descongestionar o ralo do banheiro, um homem que lhe quer vender uma caixinha de música. Esses todos são violentados em sua condição humana pelo humor cruel de Lourenço.

A segunda cena é de Baixio das Bestas , de Cláudio Assis, e aqueles jovens que escolheram manter-se à margem do contrato social, vivem pela farra, pelo sexo, pelas drogas. Ao longo do filme, eles vão, como bestas possuídas, ao baixio da condição humana em seu franco desprezo pela moral e total identificação com a agressão fortuita.

Ambos os filmes apresentam personagens que entendem a mulher como objeto de um prazer egoísta e violento. Ainda em Baixio das Bestas , há um velho que prostitui a filha adolescente (Mariah Teixeira) diante de caminhoneiros sedentos por aquela lolita sertaneja; e, há dois estupros cujas vítimas (Hermila Guedes e Dira Paes) são destituídas de qualquer noção de dignidade antes mesmo de serem violentadas. Em O Cheiro do Ralo , Lourenço é seduzido metonimicamente pela única parte que lhe apetece na garçonete,  a bunda da moça. Porém, seu desejo de dominação violenta a moça, o dinheiro que oferece é um estupro.

Os dois filmes, a seu modo cada um, se valem de uma espécie de sodomização do mundo. Não a sodomia moderna, passível de tácito acordo conjugal, mas a sodomização primitiva, aquela do tipo Sodoma e Gomorra, quando os homens da história bíblica tentam violentar os anjos que foram avisar Ló e a sua família da iminente destruição das cidades pelo fogo.

Da mesma forma, a adolescente violada em sua inocência é o anjo brutalizado, bem como a garçonete que sonha com um romance de novela é prostituída pelo macho dominador. Em O Cheiro do Ralo , todo sonhador ingênuo, seja o que sonha com um casamento feliz ou o que  atribui valor sentimental ao objeto que precisa vender, é dominado, humilhado, estuprado em seus sentimentos e princípios.

Em Baixio das Bestas o sertão não poupa ninguém, e a secura da paisagem invade o trabalho e o lazer daqueles cortadores de cana, personagens do lado de fora do baile chique do etanol. O ciclo da monocultura (plantar – colher – queimar para replantar) é parte da cultura do sertanejo, que sabe que a história, boa ou ruim, se repete como a água e o fogo de efeito purificador  desde sempre; como o seu canto de maracatu, com suas estrofes repetidas, simples, mas plenas de vitalidade, cantadas ano a ano.

Há evidentes problemas quando em O Baixio das Bestas a câmera do mestre Walter Carvalho se faz voyeur da bestialidade, como no filme anterior de Cláudio Assis, Amarelo Manga , conferindo beleza visual ao que visualmente é degradante e feio. Já em O Cheiro ..., uma viciada quase raquítica se torna o demônio e o vingador da crueldade de Lourenço, num ajuste de contas imperfeito e moralizante. O que pode ser propósito dos diretores, mas que também denuncia uma "estética do choque" modernosa no primeiro e contradição epistemológica no outro.

Contudo, fica o deboche de Selton Mello, na melhor tradição de Paulo César Peréio e Xico Sá (ambos comparecem no filme), e a entrega de Dira Paes. Atores mais-que-perfeitos para estes filmes que têm a cara brasileira.