OS 40 ANOS DO SARGENTO PIMENTA
Sgt. Pepper's faz quatro décadas e continua a obscurecer outras obras-primas lançadas no prolífico ano de 1967.
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )
iz a lenda que a cada década, sempre nos anos terminados em sete, um grande disco de rock vem ao mundo e toma de assalto ouvidos desavisados. A tal saga teria origem com o fantástico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band , lançado em junho de 1967, e que completou este ano quatro décadas com merecidas matérias na imprensa e homenagens em todo o mundo.
Considerada a obra mais influente da música pop de todos os tempos, o álbum foi concebido para ser tocado de uma tacada só, sem os tradicionais espaços entre uma canção e outra. Cada música seria uma espécie de continuação à peça anterior, mais ou menos como em uma ópera-rock, só que sem nenhuma “mensagem” catequizadora por trás das letras.
Além disso, Paul McCartney – em uma das várias especulações – teria sido o autor da original idéia de criar uma nova identidade para os Fab Four, que naquele momento estavam cansados da beatlemania e não queriam mais sair em turnê. Daí se originou a tal banda do Sargento Pimenta, que logo na abertura do disco é apresentada por Paul. A faixa-título já dá o tom do que viria pelos próximos 39 minutos, com Paul cantando um rock vigoroso e cheio de efeitos ao fundo. “With a little help from my friends” vem na rabeira com seu refrão poderoso cantado pelo trio Paul-John-George. A música se tornaria um hino dois anos depois quando Joe Cocker a interpretou no festival de Woodstock, em 1969.
Mas o grande barato do disco está nas inovações sonoras idealizadas pelo quinto Beatle George Martin. Até aquele ano a máxima tecnologia usada nas gravações era um gravador de rolo de quatro canais. O que na prática dava ao produtor a opção de, no máximo, gravar quatro elementos separadamente em cada música. Ou seja, seria impossível colocar galos e passarinhos cantando ao fundo (“Good morning”) sem que um dos instrumentos fundamentais do quarteto fosse sacrificado.
Durante os 129 dias em que se enfurnaram no estúdio Abbey Road para a gravação do álbum, Martin e os Beatles conseguiram realizar gravações primárias, com vários instrumentos e depois mixar as faixas, passando o resultado para um segundo gravador com outros quatro canais de áudio – o que permitiu a mixagem de mais de quatro elementos sonoros.
A mágica fez com que instrumentos orquestrais estivessem lado a lado com a guitarra de George e de todos os outros instrumentos da banda. Especialmente em When i'm sixty four , em que Paul se imagina um velhinho comportado de 64 anos, as inovações podem ser sentidas, com os instrumentos de sopro e seu ritmo circense dando o ar da graça em uma bela melodia pop.
As inovações técnicas também abririam espaço para que George Harrison colocasse à prova suas influências orientais no repertório dos Beatles. Ainda que George já tivesse aparecido com sua cítara um ano antes em “Love you too”, do álbum Revolver , é com “Within you without you” que suas referências aparecem com mais intensidade. A música faz parte de um grupo de canções mais sombrias e “cabeças”, como a lisérgica “Lucy in the sky with diamonds”. Mesmo não sendo um disco declaradamente psicodélico (ou apenas psicodélico) – Revolver vai mais fundo na lisergia –, Sgt. Pepper's consegue conciliar em seu repertório músicas de texturas mais profundas com canções leves e até divertidas, como a faixa-título e a seqüência composta por “Lovely Rita” e “Good morning”. Mas diversão não é tudo. A alegria é interrompida com a entrada do piano deprê de “A day in the life”. A batida da bateria na música é tão suave que se tem a impressão de que a percussão foi gravada a léguas dos outros instrumentos. A música também vai tomando forma aos poucos, indo do singelo ao tormento, com uma orquestra que é acelerada ao fundo dando a impressão de que um ataque de abelhas assassinas se aproxima.
Apesar da característica de unidade que o disco ganhou, por força de uma estética previamente pensada, as músicas de Sgt. Pepper's tem vida própria quando separadas umas das outras. Ainda que as texturas e camadas musicais as acompanhem, cada faixa tem sua singularidade, seja por uma mistura mais inusitada (“Within you without you”) ou pela profundidade de sua letra e atmosfera sonora (“Lucy in the sky with diamonds”). Mesmo as canções mais convencionais, como “Getting better”, são acima da média, com levadas pop de extrema genialidade.
Talvez o sucesso do disco esteja também na característica plural de abarcar diversas estéticas e tendências sonoras, sem que o álbum se transforme em um samba do crioulo doido. As diferenças foram canalizadas de tal forma que unidade e autonomia se confundem e se completam perfeitamente. Isso fez de Sgt. Pepper's uma obra reverenciada por grupos de pessoas das mais diferentes vertentes musicais. Pepper's sob este prisma não é apenas um disco de rock que transformou o gênero. O disco deu ao chamado pop, assim como Andy Warhol fez na seara das artes plásticas, uma conotação antes desconhecida. Tal característica transformou a bolachona referência não só ao pessoal do rock, mas a músicos e artistas de diferentes estirpes. Ou seja, o disco ultrapassou fronteiras e fez com que a música pop abrisse novo leque de influências e, a partir daí, também absorvesse outras formas de arte, como o teatro, por exemplo.
Tudo isso é possível ser notado antes mesmo de colocar a agulha para rodar ou apertar o play , pois a capa do disco já é uma pequena mostra do conceito musical da banda naquele momento. A capa do álbum, feita pelo designer Peter Blake, colocou ícones da cultura popular como Marlon Brando e Bob Dylan lado a lado com figuras históricas como Karl Marx e Jung. A colagem virou referência artística e até hoje é copiada no mundo todo.
A vida além dos Beatles
Porém, é fato que o estrondoso sucesso do álbum dos Beatles ainda hoje ofusca maravilhas criadas à sombra de Sgt. Pepper's . Durante o prolífico ano de 1967, muitos outros discos geniais ganharam as prateleiras e os aparelhos de vinil do mundo todo.
Pelo menos três estréias marcariam de forma incisiva o rock daquela época e entrariam com folga para a seleta galeria dos clássicos do gênero. O debute das bandas The Doors, Velvet Underground e Pink Floyd (este gravado ao lado do estúdio onde os Beatles concebiam Pepper's ) deixaria o ano ainda mais florido e cheio de poesia.
A tríade acima elevou o rock a um patamar jamais visto, com canções que iam de odisséias espaciais (“Interstellar overdriver”, de The piper at the gates of dawn , do Floyd) a odes sadomasoquistas (“Vênus in furs”, do disco homônimo do Velvet underground), passando pela poesia com toques edipianos (“The end”, presente no álbum dos Doors).
O três trabalhos figuram em todas as listas de melhores de todos os tempos (ainda que listas nem sempre sejam parâmetros seguros de qualidade) dividindo espaço com a obra máxima do quarteto de Liverpool. Cada disco apresentou um etilo próprio e singular de rock, o que lhes valeu um lugar de destaque na galeria das obras-primas do ritmo mais rebelde da música. Pepper's monopolizou e continua monopolizando as atenções talvez por seu caráter mais experimental e inovador – ainda que o trabalho do Floyd também tenha se destacado pelas fusões empreendidas (principalmente com o jazz). O que não tira a grandiosidade dos outros álbuns.
Mil novecentos e sessenta e sete ainda foi longo o bastante para parir Surrealistic pillow , do Jefferson Airplane, Are you experienced , de Jimi Hendrix (outra estréia), Sell out , do The Who, e Diraeli gears , do grupo de jazz-blues-rock Cream. A partir daí a revolução do rock ganharia novos contornos a cada década, começando pela anarquia punk em 1977 (as estréias de Sex Pistols e The Clash) e culminando com a bad trip de Tom York em Ok computer , em 1997 – ainda que o grande disco da década seja Nevermind , de 1991. Se a saga iniciada por Pepper's é apenas uma grande coincidência não se sabe. O fato é que o disco dos Beatles abriu as portas a novas experiências sonoras que continuam a reverberar depois de quatro décadas. 
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